Estreia azarada para Portugal nos Europeus de pista

Pista
segunda-feira, 02 fevereiro 2026 a 10:22
623772901_1506653258134548_5672150821635447157_n
A participação portuguesa no primeiro dia do Campeonato da Europa de Pista Elite, que decorre até quinta-feira em Konya, ficou marcada por um arranque intenso, emotivo e exigente, onde a ambição da Seleção Nacional se cruzou com a dureza própria da alta competição internacional. Entre ritmo elevado, disputas posicionais constantes e uma queda aparatosa que condicionou seriamente o desempenho luso, Portugal viveu uma jornada inaugural cheia de tensão e ensinamentos competitivos.
A comitiva nacional entrou em pista com dois ciclistas em ação, numa estreia que simbolizou o início de mais uma campanha europeia ao mais alto nível. Miguel Salgueiro fez a sua primeira aparição em Campeonatos da Europa ao alinhar na exigente prova de Eliminação masculina, disciplina conhecida pelo seu carácter imprevisível e pela necessidade de leitura táctica permanente. Do lado feminino, Daniela Campos representou as cores nacionais no Scratch, uma corrida que privilegia resistência, posicionamento e capacidade de resposta às movimentações finais.

Miguel Salgueiro caiu de forma violenta

Desde as mangas qualificativas, Miguel Salgueiro deixou indicações muito positivas. Numa prova marcada por sucessivas eliminações e ritmo elevado desde os primeiros metros, o português soube gerir esforços, manteve-se sempre bem colocado e garantiu o apuramento para a final com um sólido sexto lugar, demonstrando maturidade competitiva para alguém que se estreava neste patamar europeu.
Já na corrida decisiva, o jovem ciclista não se limitou a defender posições. Pelo contrário, mostrou personalidade e ambição, assumindo por diversas vezes a frente do grupo e impondo um andamento forte que contribuiu para desgastar adversários mais experientes. A final foi disputada com enorme intensidade, com constantes acelerações, fechamentos de espaços e quedas de ritmo que tornaram cada volta uma verdadeira prova de nervos.
Quando discutia um lugar entre os dez primeiros, numa fase em que o pelotão já se encontrava bastante reduzido e onde qualquer erro se paga caro, Miguel acabou por se ver envolvido numa queda violenta, provocada pelo acidente de um ciclista holandês à sua frente. O toque em cadeia atirou vários corredores ao chão, mas foi o português quem sofreu de forma mais aparatosa, ficando impossibilitado de retomar a prova.
A queda, a cerca de dez minutos do final, interrompeu abruptamente uma exibição que vinha a ser muito promissora. Miguel foi prontamente assistido pelos serviços médicos em pista e transportado para o hospital, onde realizou exames para avaliar eventuais lesões. Apesar de ter saído consciente, apresentava dores significativas, ficando sob observação enquanto a equipa técnica aguardava indicações clínicas mais detalhadas.
A vitória na Eliminação sorriu ao dinamarquês Tobias Hansen, que se revelou mais forte na fase decisiva, batendo o alemão Tim Torn Teutenberg, com o belga Jules Hesters a completar o pódio. Apesar do abandono forçado, Miguel Salgueiro terminou oficialmente classificado em 11.º lugar, um resultado que, embora positivo para uma estreia, acaba por saber a pouco perante o nível competitivo que vinha a demonstrar.

O posicionamento foi a chave

No Scratch feminino, a prova desenvolveu-se num registo completamente diferente, mas igualmente exigente. Os 10 quilómetros foram percorridos a grande velocidade desde o arranque, com as principais seleções a controlarem atentamente qualquer tentativa de fuga. O grupo manteve-se praticamente compacto durante grande parte da corrida, fruto de uma vigilância cerrada e de sucessivas acelerações para neutralizar ataques.
Daniela Campos apresentou-se bem posicionada, sempre no terço da frente do pelotão, evitando cortes e respondendo com inteligência às mudanças de ritmo. A portuguesa mostrou boa leitura de corrida e capacidade física para acompanhar o andamento elevado, numa disciplina onde a antecipação e o posicionamento são tantas vezes decisivos como a potência final.
A decisão surgiu apenas nas voltas finais, quando a belga Hélène Hesters lançou um ataque oportuno e conseguiu ganhar metros suficientes para resistir à reação do grupo. A movimentação revelou-se decisiva, permitindo-lhe conquistar o título europeu. A suíça Aline Seitz assegurou a medalha de prata, enquanto a alemã Lena Charlotte Reissner fechou o pódio.
Daniela Campos acabou por perder algumas posições na fase crucial da corrida, cruzando a linha de meta no 18.º lugar, num desfecho que não reflete totalmente a consistência que apresentou ao longo da prova, mas que espelha a dureza dos momentos finais quando o posicionamento se torna absolutamente determinante.
Miguel Salgueiro na pista de Konya, antes do azar lhe ter batido à porta
Miguel Salgueiro na pista de Konya, antes do azar lhe ter batido à porta

Palavras do selecionador nacional

No final do dia, o selecionador nacional, Gabriel Mendes, não escondeu a frustração pelo desfecho da jornada inaugural, sublinhando, ainda assim, os sinais positivos deixados pelos atletas portugueses em pista.
“Este primeiro dia de competição não nos correu bem. Miguel Salgueiro estava a realizar uma boa prova de Eliminação e teve a infelicidade de cair de forma aparatosa, na sequência da queda de um ciclista holandês, o que nos impediu de continuar em prova. Acabámos por terminar em 11.º lugar devido ao acidente e à saída forçada. O Miguel saiu consciente, mas com dores, encontra-se sob observação médica e aguardamos informações clínicas para perceber se poderá prosseguir a competição nos próximos dias”, explicou o técnico ao site da FPC.
Relativamente à prestação de Daniela Campos, Gabriel Mendes destacou a forma como a ciclista se manteve competitiva durante grande parte da corrida, lamentando apenas o desfecho menos favorável nos momentos decisivos. “A Daniela esteve bem colocada até à fase final da prova. A cerca de cinco voltas do fim, uma movimentação para a parte superior da pista fez-nos perder muitas posições na altura crucial do sprint, tornando-se muito difícil recuperar para uma melhor classificação”, acrescentou.
Apesar do arranque atribulado, o ambiente na Seleção Nacional mantém-se focado e confiante. A competição prolonga-se por vários dias e oferece novas oportunidades para lutar por classificações relevantes, num contexto onde cada prova traz desafios tácticos distintos e exige rápida capacidade de adaptação.
O programa prossegue esta segunda-feira, com Daniela Campos de regresso à pista para disputar a Eliminação feminina, disciplina onde o posicionamento e a frieza nos momentos decisivos voltam a ser determinantes. Diogo Narciso fará também a sua estreia na edição de 2026, alinhando na exigente Corrida por Pontos, uma das provas mais completas do ciclismo de pista, onde resistência, regularidade e inteligência táctica costumam separar os melhores.
Depois de um primeiro dia marcado por quedas, decisões ao limite e ritmo elevadíssimo, Portugal encara os próximos desafios com espírito competitivo renovado, consciente de que a margem para erro é mínima, mas também de que o trabalho desenvolvido pode traduzir-se em desempenhos sólidos nas jornadas seguintes.
Num Europeu onde cada volta pode mudar por completo o rumo de uma corrida, a Seleção Nacional procura agora transformar a adversidade inicial em motivação extra, mantendo o foco na evolução competitiva e na afirmação do ciclismo de pista português no panorama europeu.
Fotos: UVP/FPC
aplausos 0visitantes 0
loading

Últimas notícias

Notícias populares

Últimos Comentarios

Loading