Depois de duas épocas difíceis na
Movistar Team,
Fernando Gaviria acredita ter encontrado a oportunidade que precisava para voltar à melhor forma. O sprinter colombiano, que já correu por algumas das equipas mais poderosas do pelotão internacional, admite que chegou a um ponto de profunda incerteza, chegando mesmo a questionar se deveria continuar no ciclismo profissional.
Em entrevista ao Marca a partir da
Volta a Omã, Gaviria explica que não foi o desgaste físico que o levou ao limite, mas sim a pressão mental de não saber o que o futuro reservava. “No fim, acho que foi a incerteza, não ter nada concreto. Não saber claramente o que ia acontecer a seguir faz-te pensar em tudo, até em desistir.”
Quando essa incerteza atingiu o pico, a
Caja Rural - Seguros RGA avançou com aquilo que Gaviria descreve como uma demonstração de confiança decisiva e pessoal. A mudança não só estabilizou o seu futuro, como pode até abrir a porta a um regresso à
Volta a França.
Fernando Gaviria pela Movistar em 2025
O que o convenceu não foi apenas o projeto desportivo, mas a forma como a equipa o abordou. “Tivemos três chamadas que, para lá do desportivo, me mostraram que realmente me queriam na equipa. Foi isso que me convenceu a continuar.”
O apoio dos mais próximos também pesou muito na decisão de seguir em frente, face aos sacrifícios que a vida de ciclista profissional exige. “Muito. No fim passamos imenso tempo fora de casa, longe da família, e a opinião deles tem muito peso. Agora estamos a desfrutar e acho que tomámos a decisão certa.”
Um ambiente diferente na Caja Rural
Depois de passagens por equipas WorldTour como a Quick-Step e a Movistar, Gaviria encontrou na Caja Rural um ambiente visivelmente diferente, que descreve como mais pessoal, mas ainda assim competitivo.
“É exatamente isso, é muito familiar. É uma equipa relativamente pequena, mas a diferença face a uma equipa WorldTour não é tão grande como as pessoas pensam. Sinto-me confortável e feliz por estar aqui.”
Esse conforto estende-se ao seu papel dentro da equipa. Gaviria é claro ao dizer que a pressão que sente vem de dentro.
“Eu próprio coloco a pressão, porque sou eu que quero ganhar. Em cada sprint vou tentar. Estamos a trabalhar bem como equipa e acredito que a vitória vai chegar no dia em que menos esperarmos.”
Apesar da experiência e do palmarès, faz questão de integrar o grupo sem se colocar acima dele.
“Como mais um. Não gosto de criar diferenças. Sinto-me parte do grupo e é assim que gosto de ser tratado.”
A refletir sobre a saída da Movistar
Esta postura contrasta com a reta final da sua passagem pela Movistar, em particular com a forma como se desenrolou a sua não convocatória para a Volta a França.
“Não exatamente. Tinha-me preparado para isso, e não saber até ao último momento criou muita incerteza. Saber através de uma publicação foi o que mais me desagradou. Ainda assim, entendo a equipa e respeito a decisão que tomaram.”
Apesar da deceção, Gaviria insiste que não guarda ressentimentos.
“Era algo que tinha de acontecer. Também estou feliz por ter feito parte de uma equipa tão grande.”
A Volta a França volta ao horizonte
Com a Caja Rural agora detentora de um convite para a Volta a França de 2026, Gaviria sente o regresso de um propósito claro. A motivação já existia, mas a confirmação elevou as expectativas em toda a organização.
“A motivação já estava lá quando conversámos com a equipa e se mencionou a opção de correr uma Grande Volta. Agora, com o convite para o Tour, é uma responsabilidade muito maior para todos - corredores, mecânicos, staff. A equipa tem de dar um grande passo para chegar a julho na melhor condição possível.”
Ainda assim, evita precipitar objetivos de longo prazo, como completar vitórias de etapa nas três Grandes Voltas.
“Quero levar isto com calma e desfrutar. Só com o Tour já temos um calendário muito exigente. Estamos focados nesta época e depois veremos.”
Um desafio que está pronto a abraçar
O desafio desportivo será considerável, com chegadas ao sprint disputadas contra alguns dos nomes mais fortes do pelotão. Gaviria está desejoso de se testar.
“Tomara. Esperemos estar no nosso melhor nível e que a equipa nos leve até lá. A abordagem será clara e a ideia é estar em posição de lutar para estar entre os melhores.”
Mais do que resultados, porém, Gaviria sublinha a importância da estabilidade emocional.
“Neste momento estou a desfrutar muito, sobretudo pelo apoio emocional da equipa. Estou tranquilo. A continuidade vai depender deles e também de possíveis ofertas, mas isso não é algo em que estejamos a pensar agora.”
Aos 31 anos, com 52 vitórias como profissional, Gaviria olha para trás com lucidez, sem arrependimentos. Alguns momentos são intocáveis.
“Não trocaria a camisola amarela por nada. É um sonho para quase todos os ciclistas e um privilégio para muito poucos.”
E se pudesse falar com o jovem corredor que surpreendeu o pelotão ao bater Mark Cavendish em San Luis, a mensagem seria simples:
“Dir-lhe-ia para fazer o mesmo. Tudo o que fiz trouxe-me até aqui e ensinou-me muito. Estou em paz com isso.”