Jonas Vingegaard acrescentou o Paris-Nice ao seu palmarés pela primeira vez, esmagando a concorrência numa demonstração histórica de domínio. Ainda assim, o analista José De Cauwer defende que as margens gigantes devem ser lidas com contexto.
Uma corrida “decapitada” sem rivais-chave
Embora Vingegaard tenha parecido intocável,
a queda inicial do seu principal opositor, Juan Ayuso, alterou por completo a dinâmica da prova. Para De Cauwer, isso retirou fulgor a um exame de forma que se previa maior.
“Foi um Paris-Nice decapitado”, observou De Cauwer em declarações à
Sporza. “Vimos um Jonas Vingegaard muito bom e vimos uma Red Bull - BORA - Hansgrohe muito forte… mas, devido às quedas do Juan Ayuso em primeiro lugar, e do Daniel Martinez e de mais alguns, a corrida ficou um pouco decapitada de oposição. Não conseguimos medir a oposição. Não pudemos ver quão bom ele iria ser, e isso é realmente uma pena”.
Apesar da falta de rivais para a geral, a margem histórica de vitória de Vingegaard não pode ser ignorada. O jornalista Renaat Schotte questionou se estamos a ver um Vingegaard mais forte e mais feliz, em parte graças ao seu super gregário Victor Campenaerts. De Cauwer anuiu de forma enfática.
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“O Victor Campenaerts é verdadeiramente super importante. Ele sabe o quão importante é, mas as pessoas talvez ainda não tenham plena noção”, explicou De Cauwer. “É um ponto de calma, alguém que está sempre ao lado dele. Não só a falar, mas também a pedalar. Está lá para lançar na fase final e consegue partir o pelotão por completo”.
Questionado se a exibição de Vingegaard enviou um recado a
Tadej Pogacar, De Cauwer recusou a ideia, sublinhando que o Paris-Nice de Vingegaard não é comparável ao triunfo de outro mundo de Pogacar na Strade Bianche. Quanto aos rumores de números de potência recorde de Vingegaard, De Cauwer deixou um ponto de realidade.
“Sabem qual é a coisa mais louca? Os outros também melhoraram. O Gianni Vermeersch está a fazer melhores números, os Van Dijk estão a fazer melhores números, o Pogacar está a fazer melhores números, o Van der Poel está a fazer melhores números… Toda a gente está a fazer melhores números”.
Olhar em frente: Catalunha e Milan-Sanremo
O próximo grande teste de Vingegaard chega dentro de pouco mais de uma semana, na Volta à Catalunha, onde medirá forças com Remco Evenepoel. De Cauwer vê aí um referencial crucial, não só para Vingegaard, mas também para o jovem belga.
“Não é importante ver quão bom está o Vingegaard, mas como é que o Remco Evenepoel se compara com o Vingegaard… O Remco Evenepoel deve ser capaz de se aproximar dele, não necessariamente vencê-lo, para mostrar que está bem”.
Virando o foco para o Monumento Milan-Sanremo, De Cauwer assinalou que corredores como Jasper Stuyven e Mathias Vacek deixaram indícios de forma no Paris-Nice, mas que os verdadeiros pesos pesados prepararam-se noutro lado.
“Quanto a mim, os grandes canhões para a Milan-Sanremo estão ou em casa ou no Tirreno-Adriatico. Trata-se de ver o que podem fazer um Isaac del Toro, um Matteo Jorgenson e um Wout van Aert”.
Schotte fez de advogado do diabo e perguntou se Wout van Aert não deveria ter corrido o Paris-Nice em vez do Tirreno-Adriatico para beneficiar do ambiente vitorioso em torno de Vingegaard. De Cauwer discordou da mudança de calendário, já que Van Aert tinha de estar em Itália para a Strade Bianche, mas deixou críticas à dinâmica da Team Visma | Lease a Bike na etapa de gravilha do Tirreno.
“O Jorgenson começou a correr para si no final, quando senti que o Jorgenson devia ter ficado com [o Van Aert]. As diferenças que o Wout van Aert teve de fechar, o Jorgenson devia tê-las fechado por ele. Se eu fosse a equipa, insistia mesmo nesse ponto”.