A história da
Decathlon CMA CGM Team cruza-se pela primeira vez com Portugal graças a Gonçalo Costa. Em mais de três décadas de existência da estrutura francesa, nunca um ciclista português tinha integrado o projeto, até à chegada do jovem famalicense, um dos nomes mais promissores do ciclismo nacional no escalão de juniores.
O ciclismo mudou profundamente nas últimas décadas. Longe vão os tempos em que jovens corredores partiam rumo a França ou Itália apenas com a bicicleta e a esperança de serem descobertos numa qualquer corrida regional. Hoje, os talentos são identificados cada vez mais cedo, acompanhados por empresários e inseridos em programas altamente profissionais ainda antes de atingirem a maioridade.
É precisamente nesse novo paradigma que surge Gonçalo Costa. Depois de representar a neerlandesa WWV Hagens Berman-Jayco e de passar pela Academia Efapel, o campeão português de juniores
conseguiu entrar na principal estrutura francesa da atualidade, dando um passo raro para um ciclista português da sua idade.
Alpes no horizonte e provas feitas para trepadores
O jovem trepador português esteve recentemente em estágio com a Decathlon CMA CGM Team e mostrou-se impressionado com a dimensão do projeto. Em declarações ao
TopCycling, no aeroporto de Valência, revelou entusiasmo com as oportunidades que terá nas próximas semanas.
“O trabalho com a equipa tem sido cinco estrelas. Depois de correr pela seleção no Pays de Vaud [Suíça], vou fazer a clássica dos Alpes, que é mesmo ao lado da sede da equipa, em Chambery, e ainda a Region du Sud, também nos Alpes, e que se corre em estradas onde passa a
Volta a França. São três dias para trepadores, sem contrarrelógio, que é o que encaixa perfeitamente em mim.”
Os resultados de 2026 mostram já uma consistência interessante do português em provas internacionais. Gonçalo Costa foi 5º classificado na Volta a Castellón, 13º no Troféu Victor Cabedo e 21º na
Corrida da Paz, competições integradas na Taça das Nações. Em Portugal, manteve-se competitivo em provas como a Volta a Loulé, onde terminou no 3º posto, e na Prova de Abertura, na qual foi 5º.
“Sinto que sou capaz de chegar ao nível deles”
Apesar de continuar ligado ao pelotão nacional, sente que o verdadeiro salto competitivo acontece além-fronteiras, sobretudo em terrenos mais seletivos.
“Sinto que sou capaz de chegar ao nível deles e que estou a evoluir. Gosto de provas duras com subidas longas, de preferência que acabem em alto. Dou-me bem com todo o tipo de terrenos, mas é complicado andar no plano e com vento. O que menos gosto é de fazer contrarrelógio à chuva, porque desmotiva arrancar logo a levar com chuva.”
O objetivo para a próxima temporada passa por convencer a estrutura francesa de que merece permanecer no projeto e subir ao programa de sub-23 da equipa, uma plataforma por onde já passaram nomes como Léo Bisiaux, Paul Lapeira e os irmãos Paret-Peintre.
O impacto de descobrir uma superequipa
Nos primeiros meses dentro da Decathlon, Gonçalo Costa teve de adaptar-se a uma realidade completamente diferente daquela que conhecia em Portugal. O impacto de receber material de topo, bicicletas específicas para treino e competição e uma metodologia extremamente detalhada marcou-o desde o primeiro estágio realizado em Chambery, nos Alpes.
“Fazíamos o treino, à noite falávamos sobre o que tínhamos feito mal e bem, o que podíamos melhorar. Estou numa escola daquilo que mais gosto, que é o ciclismo. Fomos correr, demos uma caminhada de 20 quilómetros à chuva com 3000 metros de acumulado. Conhecemos os produtos da terra; provamos o fondue e, apesar de adorar queijo, o fondue era feito com um queijo tipo Serra e eu não sou grande apreciador.”
A formação júnior da Decathlon CMA CGM Team reúne atualmente 15 corredores de nove nacionalidades diferentes, um bloco que é visto dentro do pelotão internacional como uma verdadeira superequipa.
Seff Van Kerckhove como referência
Entre os nomes mais mediáticos surge o belga Seff Van Kerckhove, uma das grandes figuras da nova geração. O jovem belga foi 3.º classificado no Campeonato do Mundo de contrarrelógio e esta temporada venceu a Strade Bianche, o título nacional da especialidade e a Volta a Castellón.
O irmão, Matisse Van Kerckhove, também segue em ascensão ao serviço da Visma sub-23, algo que reforça ainda mais o ambiente competitivo dentro do projeto francês.
Para Gonçalo Costa, partilhar o autocarro com corredores deste nível representa uma oportunidade única de aprendizagem.
“O Seff é como eu, mas mais experiente, sabe lidar com as corridas porque cresceu em Espanha, tem casa na Bélgica, fala imensos idiomas e vejo-o como alguém com quem posso aprender porque tem um comportamento profissional.”
Um passo histórico para o ciclismo português
Aos 17 anos, Gonçalo Costa continua apenas no início da caminhada, mas já conseguiu algo inédito para o ciclismo português. Num pelotão cada vez mais globalizado e competitivo, o famalicense abriu uma porta que durante 32 anos permaneceu fechada para os corredores nacionais na estrutura francesa.
Foto: Decathlon CMA CGM