Oscar Onley não quer chocar ninguém. Não afirma que o ciclismo está podre. Mas também não está disposto a fingir que tudo é perfeito.
“Não acredito que seja completamente limpo”,
disse em conversa com a BBC Radio Scotland. Numa frase serena, resumiu o equilíbrio com que vive agora como candidato a Grandes Voltas na era Pogacar e Vingegaard.
Sabe o quanto se testa. Sabe o quanto os corredores são monitorizados. Mas também considera “ingénuo” presumir que a história foi completamente apagada. Será realismo ou acusação? E surge no momento exato em que tenta passar de “quase” a “suficientemente bom” no topo da modalidade.
“Ingénuo” presumir que o ciclismo é imaculado
“Acredito que o desporto evoluiu muito nos últimos 10 a 15 anos”, sustentou Onley. “Também não acredito que seja completamente limpo. Acho bastante ingénuo pensar que é limpo em todo o mundo, mas penso que está melhor do que quando comecei a pedalar”.
Falou abertamente da escala de controlos a que é sujeito. “Eu sei o quanto somos testados e o quanto eu, pessoalmente, sou testado ao longo do ano e durante o Tour”, afirmou.
O sistema, no seu entender, é sério. Mas não milagroso. “Não é algo em que pense muito. Só posso competir com quem tenho pela frente. Não vou a pedalar a pensar ‘este tipo pode estar a ter vantagem sobre mim’. Não é bem essa a forma de pensar que eu ou muitos outros corredores temos. Temos de nos focar em nós e confiar que todos cumprem o regulamento. Com as regras que temos, acho muito difícil enganar hoje em dia”.
Essa mistura de confiança e dúvida espelha a sua posição no pelotão. Acredita que pertence ali. Não acredita que já chegou.
A perseguir os dois da frente
No último verão, Onley foi quarto na
Volta a França, igualando o melhor resultado de sempre de um ciclista escocês. Mas nem esse salto o convenceu de que o topo está perto. “Ainda me sinto muito longe”, disse. “Para os dois da frente, há um grande fosso em relação ao resto de nós”.
Esses dois são
Tadej Pogacar e
Jonas Vingegaard, os corredores que transformaram a sua melhor época em prova de distância tanto quanto de potencial. Pogacar terminou mais de 12 minutos à sua frente. Vingegaard ficou oito minutos adiantado.
Onley terminou a pouco mais de um minuto do terceiro lugar. Perto o suficiente para sonhar. Longe o suficiente para saber que não é uma fantasia que se concretiza por acaso.
Onley colado à roda de Vingegaard e Pogacar durante a Volta a França 2025
Da sobrevivência à crença
A mudança foi rápida. Um ano antes, chegou ao Tour com objetivos muito diferentes. “Estava apenas a tentar lutar por vitórias de etapa, o que significava que havia dias em que abrandava e geria um pouco mais”, explicou. “Sabia que não estava em posição de disputar um top 5 na geral”.
Depois, tudo mudou. “Sinto mesmo que aconteceu bastante depressa nos últimos meses antes do Tour”, disse. “Tudo começou a encaixar e comecei a ganhar muito mais confiança em mim”.
A confiança não é ruidosa. É medida. “Nos próximos dois anos, um pódio é claramente possível se as coisas me correrem bem”, afirmou.
Olhar para lá do Tour
E não limita essa ambição a julho. “Há também outras duas Grandes Voltas, em Itália e Espanha, onde por vezes a concorrência é um pouco menos profunda”, assinalou. “Se correr bem, porque não tentar ganhar uma delas?”
Não é uma rejeição do Tour. É reconhecimento da realidade. Vencer uma Grande Volta é raro. Vencê-la na era de Pogacar e Vingegaard é ainda mais raro.
Onley não foge a esse desafio. Mas também não finge que só há uma estrada para o topo.
Um passo calculado
Esse pensamento moldou a próxima fase da carreira.
Vai mudar-se para a INEOS para transformar crença em estrutura e potencial em resultados. Falou de como admira corredores que conseguiam focar-se num objetivo por ano e construir tudo à volta disso. Correr ao lado de figuras como Geraint Thomas mostrou-lhe o que é ter um propósito de longo prazo dentro do pelotão.
Agora tenta construir isso para si. Não fingindo que o desporto é perfeito. Nem que o fosso é pequeno. Mas aceitando ambos e trabalhando na mesma.