A Volta à Flandres, segundo Monumento da temporada e ponto culminante das clássicas flamengas, realiza-se este domingo, 6 de abril. É um dos dias mais apaixonantes e simbólicos do calendário velocipédico — uma corrida onde o prestígio se constrói metro a metro, entre muros irregulares, paralelos traiçoeiros e subidas de cortar a respiração. Aqui, não há esconderijos.
A edição deste ano apresenta um percurso brutal de 268 quilómetros entre Brugge e Oudenaarde. Esta será uma verdadeira prova de sobrevivência e excelência física, ideal para os ciclistas que brilham nas corridas longas e duras, onde a resistência é testada até ao limite. Os primeiros 120 quilómetros oferecem um início mais tranquilo, com poucos obstáculos e ritmo controlado — mas é apenas o silêncio antes da tempestade.
A verdadeira corrida começa quando o pelotão entra na região dos bergs, e o mítico Oude Kwaremont — este ano o primeiro setor oficial — abre as hostilidades. A partir daí, segue-se uma sequência implacável de subidas curtas mas íngremes, muitas delas em paralelo, que vão moldar o grupo e desgastar até os mais resistentes. A seleção será progressiva, com ataques de antecipação, equipas a posicionarem líderes e gregários a esgotarem forças antes das fases decisivas.
O desfecho da Volta à Flandres raramente se decide ao sprint. Normalmente, os ataques decisivos surgem nas segundas e terceiras passagens por colinas como o Oude Kwaremont, o Koppenberg ou o Paterberg, especialmente a cerca de 40 a 15 quilómetros do final. É nesse momento que os favoritos jogam as suas cartas e os mais fortes emergem.
Esta é uma corrida para campeões. Uma corrida onde as pernas contam, mas onde o posicionamento, a leitura táctica e a coragem são igualmente determinantes. Em Oudenaarde, só um ciclista poderá levantar os braços — e, para o fazer, terá de vencer a Flandres com autoridade.
Entre os 140 e os 123 quilómetros para o final, o pelotão enfrenta uma longa sequência de bergs e sectores de paralelos que vai, progressivamente, desgastar o grupo principal. Ainda não é o momento dos grandes ataques — os favoritos costumam guardar munições para mais tarde — mas movimentos de antecipação, tentativas de divisão e um acumular de desgaste físico são quase garantidos. Aqui, começam a formar-se os primeiros sinais de quem está realmente pronto para lutar pela vitória.
A fase verdadeiramente crítica da corrida arranca com a segunda passagem pelo Oude Kwaremont, já dentro dos últimos 55 quilómetros. A partir daí, o triplo embate entre Oude Kwaremont, Koppenberg e Paterberg, num espaço de apenas 10 quilómetros, será fulminante. Estas três subidas, icónicas e explosivas, têm o potencial de implodir o pelotão, criando um grupo reduzido de candidatos ao triunfo.
O desgaste será tal que poucos resistirão ao corte. E, com um grupo limitado e forças no limite, os ataques decisivos podem surgir tanto nestas subidas como logo depois — numa altura em que o poder de perseguição é mais frágil e o cálculo táctico se torna decisivo.
Depois do primeiro grande embate entre os favoritos, seguem-se três momentos cruciais onde ainda se pode fazer a diferença: o Steenbeekdries (a 39 km da meta), o Taaienberg (37 km) e o Oude Kruisberg (28 km). Estas subidas curtas, mas exigentes, funcionam como plataformas perfeitas para ataques perigosos ou para consolidar vantagens. Para quem tenha ficado ligeiramente para trás no Koppenberg ou no Paterberg, estas rampas representam uma nova oportunidade de reentrar na luta ou lançar uma jogada ousada.
Depois de uma curta descida e algum alívio momentâneo, a corrida entra na sua fase decisiva com o que será, para muitos, o momento mais penoso do dia: a terceira e última ascensão ao Oude Kwaremont.
Com 2,5 quilómetros de extensão, o Kwaremont está longe de ser uma subida explosiva. As suas inclinações irregulares, combinadas com o piso de paralelos e o desgaste acumulado, fazem desta rampa uma das mais implacáveis da Flandres. O topo surge a 16,5 quilómetros do fim, e, como tantas vezes, será o ponto de lançamento para o ataque decisivo — ou o local onde se define o grupo reduzido que irá discutir a vitória em Oudenaarde.
E depois de uma curta secção, surge o último grande obstáculo da Volta à Flandres — o temido Paterberg. Uma subida curta mas demolidora, com rampas que ultrapassam os 20%, é essencialmente um esforço de potência pura durante cerca de um minuto, após mais de seis horas de corrida sobre paralelos, onde o efeito de roda não serve de muito. É uma subida que os favoritos conhecem como a palma da mão, e o topo está localizado a 13 quilómetros da meta. Se as pernas aguentarem, este é o momento para atacar. Se não, é aqui que os sonhos de vitória ficam pelo caminho.
Como em todas as edições, o caminho até Oudenaarde é traiçoeiro, apesar de plano. Depois da curta descida do Paterberg, a tensão permanece no máximo. Ainda é possível ver movimentações decisivas nesta fase, sobretudo se houver hesitações no grupo da frente. No entanto, tudo dependerá do que as subidas anteriores deixaram nas pernas dos candidatos — se o Paterberg tiver sido seletivo o suficiente, o vencedor pode já estar em fuga. Caso contrário, os últimos 13 quilómetros abrem espaço a perseguições táticas, jogos mentais e ataques oportunistas, onde a leitura de corrida pode ser tão importante quanto a força.
These are the roads where #IconsOfFlanders are made. ⚔️ #FLCS pic.twitter.com/WjKrIWVk9L
— Flanders Classics (@FlandersClassic) March 27, 2025