“Retirem os jornalistas e as multidões…” - Pai de Mathieu van der Poel revela o peso oculto que afasta o campeão do mundo do ciclocrosse

Ciclocrosse
sábado, 31 janeiro 2026 a 20:00
CyclocrossMathieuVanderPoel (2)
Houve uma mudança de tom reveladora esta semana quando Adrie van der Poel falou ao lado de Sven Nys no Het Nieuwsblad. Não foi uma conversa sobre lama, pernas ou tática. Foi sobre tempo. Pressão. Obrigação. E sobre o que acontece depois da meta.
“O Mathieu chega a casa duas horas mais tarde do que todos os outros depois de uma corrida de cross”, explicou Adrie. “Quanto tempo durou a cerimónia em Maasmechelen? Não é normal. E depois voltas para a autocaravana e está cheia de gente”.
Essa é a parte do ciclocrosse que o público não vê. O que não aparece nos parciais por volta ou nas fotos do pódio. A parte que, cada vez mais, dá corpo aos rumores de que este inverno poderá, de facto, ser o último de Mathieu van der Poel na disciplina.

O peso que vem com a camisola arco-íris

A leitura fácil é assumir que Van der Poel está farto do ciclocrosse. Que a lama já não o entusiasma. Que a estrada passou a ser mais importante.
As palavras de Adrie apontam noutra direção.
O problema não é correr. O problema é tudo o que vem agarrado às corridas quando és a cabeça de cartaz, a atração, o campeão do mundo, o homem que todos vieram ver. “Costumo dizer: tirem os jornalistas e as multidões e esses rapazes fariam mais dez crosses por ano”.
É uma frase marcante porque vira a conversa da retirada ao contrário. Não se trata de um corredor que quer fazer menos ciclocrosse. Trata-se de alguém que até faria mais, se o peso em redor não o tornasse tão desgastante.

Porque este inverno parece um cruzamento natural

Não é especulação vinda de fora. O próprio Van der Poel reconheceu abertamente nas últimas semanas que “um dia tem de haver um fim” para a sua carreira no ciclocrosse. Falou na ideia de parar em alta. Questionou em voz alta o que significaria saltar um inverno para a sua forma na primavera, na estrada.
Esse contexto importa.
Porque o inverno de 2025/ 2026 não tem parecido uma digressão de despedida do ponto de vista competitivo. Bem pelo contrário. Tem parecido um programa cuidadosamente escolhido, de alto nível, construído para atingir o pico no Campeonato do Mundo e manter a dominância sempre que coloca um dorsal.
É precisamente por isso que o momento soa significativo.
Se alguma vez houve ocasião para sair de cena com sentido, é quando já não há nada a provar na disciplina.

Uma questão estratégica, não apenas emocional

Nys acrescentou outra camada ao debate. “Consigo imaginá-lo a pensar: ‘E se eu saltar um inverno de cross? Como responderá o meu corpo na primavera?’”
Não é uma ideia romântica. É uma questão de performance.
Adrie concorda que é uma opção realista, sobretudo dependendo de como Van der Poel estruturar a época de estrada. Um calendário que aponte para a Volta a Espanha e o Campeonato do Mundo de Estrada, em vez da Volta a França, encurta de repente o intervalo entre campanhas de estrada. Um inverno completo de ciclocrosse torna-se mais difícil de justificar, não em termos emocionais, mas fisiológicos.
A combinação estrada–cross, como disse Nys, “não é simples”.
Referiu que o filho, Thibau, teve apenas dezanove dias de férias no ano passado. “Em dias de corrida estás sempre ‘ligado’”, sublinhou Nys.
Para Van der Poel, esse interruptor ‘ligado’ é mais brilhante e mais ruidoso do que para qualquer outro no pelotão.

Não é da lama que ele está cansado

Este é o detalhe-chave que atravessa tudo.
Nada indica que Van der Poel tenha perdido o amor pelo ciclocrosse. Pelo contrário. A implicação é que o amor pela corrida está a ser abafado pelas obrigações que a rodeiam.
Cerimónias que se arrastam. Sessões de autógrafos que se estendem pela noite dentro. A expectativa de estar presente, disponível, visível, todas as vezes.
As mesmas coisas que fazem dele o maior chamariz da modalidade são, segundo o pai, as que tornam a disciplina mais difícil de sustentar ano após ano.
É por isso que os rumores de retirada têm, desta vez, outra textura. Não assentam em resultados em queda ou motivação em baixa. Estão enraizados no custo humano de estar no topo durante tanto tempo.

Os próximos meses dirão muito

Nada está decidido. Van der Poel não anunciou nada. Não confirmou que este seja o seu último inverno, nem excluiu voltar no próximo ano.
Mas quando o pai enquadra a conversa não na corrida, mas no peso de tudo o resto, torna-se mais fácil perceber porque este momento soa a verdadeiro ponto de viragem.
A questão já não é se Mathieu van der Poel ainda quer correr ciclocrosse.
É por quanto tempo sente que o resto continua a valer a pena.
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