O último fim de semana voltou a mostrar, de forma brutal, que pedalar em Portugal continua a ser um risco real. Não estamos a falar de um azar isolado, nem de um incidente inevitável. Estamos a falar de falta de respeito, de falta de civismo e, acima de tudo, de uma perigosa indiferença perante a vida humana que vai em cima de uma bicicleta.
Numa prova organizada pela Associação de Ciclismo do Minho, um automóvel entrou em contramão no percurso e atropelou vários ciclistas, num episódio que podia ter terminado em tragédia. O acidente aconteceu durante a prova de abertura de juniores em Fafe, quando um carro invadiu a estrada desrespeitando as ordens policiais, atingindo vários atletas, entre eles David Luta e João Lazarini, que tiveram de receber assistência hospitalar após o impacto.
Não foi um caso isolado.
Não foram dois.
Não foram três.
Foram dias seguidos de notícias sobre quedas, atropelamentos e acidentes envolvendo ciclistas, em treino, em competição ou simplesmente na estrada. Num único fim de semana, vários jovens ficaram feridos em provas oficiais, depois de um condutor ignorar sinais, ordens e a própria segurança de quem estava a competir.
Até quando?
E a pergunta impõe-se, cada vez com mais força: até quando?
A realidade é dura. Sensibilizar já não chega. Durante anos falou-se de respeito pelo ciclista, de convivência na estrada, de partilha do espaço público. Campanhas, apelos, ações de formação, alertas nas redes sociais, reportagens na comunicação social. Mesmo assim, continua a acontecer.
Todos os dias há ciclistas que saem de casa sem saber se voltam.
Todos os dias há famílias à espera.
Todos os dias há condutores que esquecem que a estrada é de todos.
Quem vai numa bicicleta não é um obstáculo.
Não é um incómodo.
Não é um alvo.
É um filho.
É um pai.
É um irmão.
É um amigo.
É alguém que tem uma vida, uma família e um futuro.
Grito de revolta
O texto publicado hoje pela
Efapel Cycling nas redes sociais resume de forma crua aquilo que muitos sentem no ciclismo português:
Não foi um caso isolado.
Não foram dois.
Não foram três.
Foram dias seguidos.
Na quinta-feira, começou com o Francisco Cardoso.
No sábado, dois dos juniores David Luta e Gonçalo Carvalho.
No domingo, Luís Soares.
Hoje… mais um. O
Joaquim Silva foi atropelado.
Já falámos. Já denunciámos. Já sensibilizámos.
Alcançámos centenas de milhares de pessoas.
E mesmo assim… continua a acontecer.
A verdade é dura: sensibilizar já não chega.
É preciso agir.
É preciso responsabilizar.
É preciso mudar.
Todos os dias há ciclistas a sair de casa sem saber se voltam.
Todos os dias há famílias à espera.
Todos os dias há condutores que esquecem que a estrada é de todos.
Quantos mais têm de cair?
Quantos mais têm de sofrer?
Vamos esperar pelo quê… pela primeira morte?
Criem medidas reais.
Façam cumprir a lei.
Punam quem não respeita.
Multas. Perda de carta. Consequências.
Porque sem consequências, isto não muda.
Isto não é um alerta.
É um grito.
Basta.
E é mesmo um grito.
Falta de civismo e respeito pela vida humana
Porque quando um carro entra em contramão numa corrida, quando ignora uma estrada cortada, quando passa a centímetros de quem pedala, isso não é apenas imprudência. É negligência grave. É colocar vidas em risco de forma consciente.
Há que dizer as coisas como elas são.
Quem conduz sem respeito pela vida de quem vai de bicicleta pode transformar-se num assassino de quatro rodas.
E quem põe vidas em perigo tem de ser responsabilizado.
Não chega pedir cuidado.
Não chega pedir respeito.
Não chega pedir compreensão.
É preciso leis mais duras.
É preciso fiscalização real.
É preciso punições que façam pensar duas vezes antes de acelerar contra um ciclista.
Perda de carta.
Multas pesadas.
Processos criminais quando há negligência grave.
Porque cada vez que um ciclista cai por culpa de um carro, não cai só um atleta.
Cai uma família inteira.
E isto tem mesmo de mudar.
Antes que seja tarde demais.