Nos últimos anos, o nível do ciclismo profissional subiu de forma significativa. É uma constatação relativamente unânime. A tecnologia e a nutrição evoluíram muito e permitem correr mais rápido e todos os anos os ciclistas têm de se adaptar às novas “regras do jogo”. Jai Hindley, por exemplo, venceu a Volta a Itália há pouco mais de três anos, mas sabe que tem de continuar a mudar a preparação para se manter, de alguma forma, perto do topo da modalidade.
“Não são só as Grandes Voltas que estão mais brutais, é tudo. Tudo, cada corrida é mais dura do que a anterior. Como disse LeMond, ‘nunca fica mais fácil, só andas mais rápido’. É mesmo assim – sente-se que o desporto está a evoluir rapidamente”, disse Hindley ao
Cyclingnews. “As corridas estão cada vez mais rápidas, e isto não está a ficar mais fácil, de certeza. Portanto, basicamente ou te adaptas ou morres.”
Isto é algo com que a maioria do pelotão concorda e há evidências baseadas nos desempenhos: novos recordes de subida surgem constantemente e os recordes de velocidade média são batidos em corridas no seu todo – não apenas na montanha. Hindley viu a progressão do pelotão desde o período pré-Covid, passando pelo imediato pós-pandemia, quando alcançou o melhor resultado da carreira ao vencer a Corsa Rosa em 2022, até aos dias de hoje, em que até os gregários e corredores de menor protagonismo nas melhores equipas cumprem exigências extremas de treino e nutrição semelhantes às dos líderes.
“Acho que tens de estar completamente focado nos momentos chave. Mudou muito. Creio que as carreiras também já não serão tão longas, provavelmente oito a nove anos”, diz, apontando para o desgaste acelerado. “Não espero que os ciclistas consigam competir ou viver nesta intensidade durante 10 a 15 anos como acontecia no passado.” Só este ano, sete corredores do World Tour masculinos com menos de 30 anos retiraram-se do pelotão, incluindo nomes bem-sucedidos como Ide Schelling e Lars Boven, que nas suas equipas tinham papéis importantes. Mostra como, mesmo com sucesso, já não chega para manter uma carreira.
A Covid mudou tudo
“Toda a gente leva tudo ao limite absoluto e, sim, é um desporto bastante bruto, mas, honestamente, se queres competir e estar na discussão, tens de estar no teu melhor absoluto e não 1% abaixo, caso contrário não estarás lá. Como disse, ou te adaptas e fazes tudo o que podes, ou ficas a comer pó.” Lesões ou quedas atrasam frequentemente o processo e fazem um ciclista estagnar enquanto a maioria do pelotão continua a evoluir. Hoje, esse fator pesa ainda mais.
“Acho que o nível poderia ser o mesmo, se não melhor. O nível está simplesmente a enlouquecer. Penso que desde a COVID-19 também se notou isso”, acrescenta o australiano. “A evolução do desporto provavelmente já apontava nesse sentido, mas a COVID-19 foi um verdadeiro acelerador, e vivemos uma era muito especial do ciclismo.”
Ainda assim, continua motivado para render e evoluir, e integrar uma equipa que subiu claramente de nível, agora também com Remco Evenepoel, ajuda na missão de Hindley: “Se fores pessimista, podes pensar ‘… raios, agora chegam estes todos, não vou ter a minha oportunidade’. Ou podes pensar ‘ok, estão todos a bordo, agora tenho mesmo de elevar o meu jogo e ser o mais consistente possível’. Portanto, estou bastante otimista.”
Hindley a caminho do quarto lugar na Vuelta
A prestação na Vuelta era necessária
Hindley terá a oportunidade de liderar a Red Bull - BORA - hansgrohe ao lado de Giulio Pellizzari, depois de ambos terem formado dupla com sucesso na Vuelta no ano passado. É uma grande oportunidade, sobretudo numa equipa que tem Remco Evenepoel, Florian Lipowitz e Primoz Roglic.
“Sendo totalmente honesto, eu precisava mesmo de um bom resultado numa Grande Volta outra vez. Já há algum tempo que não fazia nada de relevo, talvez desde 2023 – o Tour de 24 foi duro, e depois, obviamente, abandonei a Giro de 25 devido a queda, por isso, pessoalmente, precisava mesmo daquilo para mim”, admite.
Não venceu etapas, mas voltou a mostrar o seu melhor nível, com muita consistência, mantendo o rendimento até à Bola del Mundo, onde a corrida terminou oficiosamente. “Foi muito bom voltar a estar na frente de uma Grande Volta, e bastante competitivo, especialmente na última semana. Tirei muito, mesmo muito daquilo, digamos assim, e acho que ainda há mais para vir.”
Mas num pelotão com trepadores como Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard, é difícil ambicionar mais nesta fase da carreira de Hindley. Um pódio numa Grande Volta já seria uma grande conquista. “Se olhar para os homens que ganham a maioria das corridas, tens provavelmente um dos melhores ciclistas de sempre como número um do momento, e se queres competir com ele, tens também de estar no teu absoluto melhor. É notável – acho que por vezes damos por garantido o quão impressionantes alguns destes corredores são.”
No fim de contas, está satisfeito com a sua posição no pelotão e quer continuar a tirar partido disso. “Ok, às vezes pensas ‘… que raio estou aqui a fazer?’ Mas, no fim, o teu pior, o pior dia absoluto na bicicleta, é ainda melhor do que o teu melhor dia no escritório, 100%. É um desporto incrível, tira-te muito, mas também te dá imenso. Para mim, deu-me muito na vida. Por isso, tenho muito amor pelo ciclismo”, concluiu.