Jonas Vingegaard e a posição pouco habitual da
Team Visma | Lease a Bike durante a
etapa de abertura da Volta a Itália já dividiu opiniões, mas o antigo vencedor da Volta a Espanha
Chris Horner acredita que o favorito dinamarquês e a sua equipa leram a corrida na perfeição.
A Visma passou grande parte da aproximação a Burgas perto do fundo do pelotão, evitando deliberadamente a luta das equipas de sprint na frente, numa tirada plana e larga em que a regra dos cinco quilómetros reduzia o risco de perder tempo em caso de percalços finais.
A abordagem foi criticada por Brian Holm, que disse parecer “muito, muito estranha” a imagem do favorito do Giro e da sua equipa tão atrás no final de uma etapa de Grande Volta. Horner, porém, viu a tática de forma bem diferente.
Ao dissecar o final no seu canal de YouTube, o norte-americano argumentou que Vingegaard e a Visma identificaram corretamente um momento raro em que o lugar mais seguro e inteligente para um candidato à geral não era, necessariamente, perto da frente.
“Agora não há qualquer ameaça”
Horner apontou as condições da etapa como a razão-chave pela qual a tática da Visma fazia sentido. Com estradas largas, pouco vento e a regra dos cinco quilómetros em vigor, considerou que Vingegaard não tinha motivo para gastar energia a disputar posição com as equipas de sprint.
“Neste momento, é a altura de quebrar as regras”, disse Horner ao analisar os últimos 20 quilómetros. “Pensam que eu chamo estes tipos de cabeças-ocas? Não. A estrada é super larga. E têm a regra dos cinco quilómetros. Se houver quedas nos últimos cinco quilómetros, toda a gente recebe o mesmo tempo”.
Para Horner, a combinação de percurso, regulamento e o estatuto de Vingegaard como principal favorito à geral tornava a tática lógica, não temerária. “Entre as estradas largas, a ausência de ventos cruzados, nada de muito perigoso, e o facto de Jonas Vingegaard ser o grande favorito a vencer a classificação geral aqui na
Volta a Itália, adoro a tática neste momento”, explicou.
A Visma não estava sozinha atrás, com vários outros candidatos à geral a optarem igualmente por se manter afastados da batalha de alta tensão pela posição para o sprint. Horner viu isso como mais uma prova de que a decisão fazia sentido. “A Visma | Lease a Bike está aqui atrás a jogar com oito corredores no fundo do pelotão, com outros homens da geral à volta”, assinalou. “Por isso, agora não há qualquer ameaça”.
Horner destacou ainda que Vingegaard estava rodeado por um grupo alargado de candidatos à geral que fizeram o mesmo cálculo. “Há imensos homens da geral lá atrás”, acrescentou. “Vemos o Pellizzari da Red Bull - BORA - hansgrohe lá atrás. O Ben O’Connor está lá atrás”.
Horner questiona o posicionamento da Bahrain
Enquanto elogiou a abordagem calma da Visma, Horner mostrou-se bem menos convencido por equipas a disputar espaço na frente sem um objetivo claro de sprint. A Bahrain - Victorious foi uma das formações que apontou como demasiado envolvida na luta pela posição, apesar de não ter um candidato óbvio à vitória de etapa.
“Quando voltamos à frente e vemos a Bahrain Victorious do lado direito do pelotão com cerca de 18 quilómetros para o fim, basicamente entre os 20 e os 18, e ainda ficam ali mais tempo, sabemos que estes tipos são cabeças-ocas porque não têm ninguém para ganhar o sprint”, observou Horner. “Estão ali a desperdiçar energia enquanto a Team Visma | Lease a Bike está atrás, sem se preocupar em perder tempo na etapa de hoje porque não é arriscado ficar lá atrás”.
Essa avaliação coloca Horner no lado oposto do debate face aos que acharam que a Visma pareceu demasiado passiva no final. No seu entender, o verdadeiro perigo era ser arrastado para a luta dos sprints sem necessidade. “É arriscado se quiserem estar na frente”, acrescentou, “porque é aí que podem acontecer as quedas”.
“Esses são os tipos inteligentes”
Horner voltou ao mesmo ponto ao descrever a frente do pelotão cada vez mais congestionada dentro dos 10 quilómetros finais.
Com as equipas de sprint a alargar pela estrada e o grupo a tornar-se 15 corredores de largura por 15 filas de profundidade, Horner defendeu que os ciclistas que se mantinham afastados dessa luta tomavam a decisão mais inteligente. “Todos os outros para lá das 15 primeiras filas lá atrás, esses são os tipos inteligentes que querem ficar fora de sarilhos, porque são todos homens da geral, com exceção da Bahrain - Victorious que continua a batalhar na frente”, afirmou.
Chegou mesmo a descrever
Victor Campenaerts e a Visma como “a rolar lá atrás, na descontra, na maior”, enquanto as equipas de sprint lutavam pelo controlo na dianteira. Essa frase captou o fosso tático da 1ª etapa. Algumas equipas trataram os últimos 20 quilómetros como uma batalha de posicionamento incontornável. A Visma tratou-os como uma zona de perigo que podia ser evitada sem custo significativo.
Victor Campenaerts e Jonas Vingegaard
Uma tática que dividiu opiniões
A abordagem da Visma acabou validada pelo desfecho em Burgas. Uma queda grave dentro do último quilómetro fracionou o grupo e eliminou boa parte do comboio de sprint, enquanto Vingegaard e a sua equipa concluíram em segurança, sem perder tempo.
Isso não significa que a tática seja aplicável todos os dias. A mesma lógica dependia muito das condições específicas da 1ª etapa: estradas largas, vento mínimo, perigo técnico limitado antes da zona protegida e um final controlado pelas equipas de sprint.
A 2ª etapa já apresentou um desafio bem diferente, com subidas, piso molhado e um final mais técnico a obrigar a Visma a rolar mais perto da frente. Mas, como decisão pontual na abertura do Giro, Horner teve poucas dúvidas.
Enquanto Holm questionou se a imagem do favorito da corrida no fundo não parecia demasiado displicente, Horner viu uma equipa a poupar energia, a evitar stress e a confiar nas regras da etapa. Para Vingegaard, isso tornou a opção mais calma na opção mais inteligente.