"Aí eu percebi que ele realmente já não era Eulálio de ser um menino da equipa": José Poeira assinala ponto de inflexão na carreira de Afonso Eulálio

Ciclismo
terça-feira, 19 maio 2026 a 12:30
eulalio rosa 2
José Poeira acredita que o Campeonato do Mundo de 2025 marcou uma mudança decisiva no percurso de Afonso Eulálio. O antigo selecionador nacional acompanhou de perto a evolução do corredor português e considera que o atual líder da Volta a Itália deixou de ser apenas um elemento de apoio dentro das equipas para assumir outro estatuto no pelotão internacional.
A estreia de Eulálio na seleção nacional aconteceu já no escalão sub-23, mas houve sinais precoces do seu potencial. Na Corrida da Paz, uma das provas mais importantes da categoria, terminou em terceiro na etapa rainha de montanha, algo que chamou a atenção de José Poeira. “Foi um sinal de que realmente tinha condições”, recordou.
Ainda assim, para o técnico português, o verdadeiro salto surgiu no Campeonato do Mundo do Ruanda, em 2025. Numa corrida particularmente exigente, Eulálio terminou no nono lugar, alcançando um dos melhores resultados de sempre de Portugal na prova de fundo de elites.
Mais do que a classificação, foi a forma como correu que impressionou Poeira, tentando responder diretamente a Tadej Pogacar e resistindo depois com os restantes candidatos num dos Mundiais com mais acumulado de sempre. “Ele fez uma corrida inteligente, bem colocado, sempre no sítio, a ler a corrida, a não ir ao choque dos principais [candidatos] e, depois, ficava num grupo bom, que o levava lá ao sítio outra vez. [...] Aí eu vi e percebi que ele realmente já não era Eulálio de ser um menino da equipa, de ajudar os colegas, era um pouco mais. E a equipa também viu isso”, explicou.
Alfonso Eulalio
Eulálio em ação no Campeonato do Mundo do Ruanda
O antigo selecionador entende que essa prestação acabou também por alterar a perceção da Bahrain - Victorious sobre o ciclista português. O facto de ter sido o único elemento da equipa a concluir a corrida terá reforçado a confiança interna nas suas capacidades. “Ele veio de trás para a frente, sempre a progredir, e sempre a ganhar experiência, porque é inteligente, já se viu que sabe ler as coisas, e começa a ter ambição, começa a acreditar nele. E isso faz com que a equipa também, numa situação daquelas, [pense] vamos ajudá-lo, porque andar de líder os dias que forem, já é muito bom para ele, e também para a equipa”, afirmou, em declarações à agência Lusa.
Poeira admite mesmo que Eulálio pode terminar este Giro no top 10 da geral, sobretudo depois das desistências de alguns candidatos - Adam Yates e Santiago Buitrago no decorrer da corrida; João Almeida, Richard Carapaz e Mikel Landa mesmo antes desta começar - corroborando a opinião de alguns especialistas, à cabeça Alberto Contador, que até vai mais longe e o considera candidato ao pódio.
Ainda assim, lembra que a maior dificuldade está sempre reservada para a fase final das grandes Voltas. “Chegou a um ponto em que os valores que estão ali são muito bons, são corredores de renome, com experiência, e aquilo já tem de ser muito bem gerido. O que ele está a fazer é gerir as suas capacidades, a sua força, porque estamos a falar de uma prova de três semanas. E aí é outro ponto que a gente quer ver, que é como é que ele se dá. O problema da maior parte dos corredores é a terceira semana”, destacou.
Na análise do antigo responsável pela seleção nacional, a grande incógnita passa agora pela resposta física do corredor português ao desgaste acumulado. Depois de abandonar o Giro de 2025 na antepenúltima etapa, esta é apenas a sua segunda experiência numa corrida de três semanas.
“Do ano passado para este ano, se calhar evoluiu muito nessa parte das três semanas. Pode até estar bem. Agora, há um desgaste entre o estar de líder, a pressão - se bem que acho que ele lida bem com a pressão. Para ele é um dia de cada vez e, pronto, vai passando os dias. Só que o facto de estar de líder, tem de ir ao pódio, tem de passar o controlo... Enquanto os outros acabam e vão para o hotel descansar, ele tem mais uma hora ou mais de desgaste com várias coisas”, alertou.
Apesar disso, Poeira considera que o ciclista português tem sabido lidar bem com o impacto mediático e competitivo desta nova realidade. “Quando foi para uma equipa fora, [...] uma equipa grande, há um período de adaptação, e ele está a adaptar-se muito bem, excelente, e percebeu como é que se corre, como é que se tem de fazer as coisas. No ano passado, vi que ele estava muito mais maduro, muito mais calmo, não estava com stress em nada”, comparou, recordando a estreia de Eulálio nos Mundiais.
Para José Poeira, a evolução do corredor da Bahrain - Victorious tem sido evidente nos últimos meses e o português entrou agora numa nova fase da carreira. “Evoluiu bastante de um ano para o outro”, resumiu, admitindo que ainda há margem para crescer.
Mesmo que venha a perder a camisola rosa para Jonas Vingegaard, acredita que Eulálio poderá continuar entre os melhores da classificação geral. “Há de perder tempo, mas, se ele perder a camisola e for o Vingegaard a ser o líder, e ele ficar ali perto... pode segurar-se num bom lugar e, com a ajuda do trabalho dos outros, ele pode-se manter por ali num lugar nos 10. Agora, a terceira semana manda muito. Não acho que seja impossível isso acontecer. Com o que ele já fez, com estes dias todos de líder, depois se ficar nos 10 primeiros, faz uma grande Volta a Itália”, concluiu.
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