ANÁLISE - Os grandes derrotados da Volta a Itália 2026: Giulio Pellizzari, Dylan Groenewegen e os corredores expostos pelo domínio de Jonas Vingegaard

Ciclismo
terça-feira, 02 junho 2026 a 15:00
Giulio Pellizzari antes da etapa 17 da Volta a Itália 2026
Jonas Vingegaard deixou a Volta a Itália 2026 como a figura definidora da corrida. Cinco vitórias em etapa, a maglia rosa e a Tripla Coroa de grandes voltas transformaram a estreia do dinamarquês no Giro numa exibição de afirmação.
Atrás dele, a corrida também revelou um grupo claro de vencedores. Paul Magnier dominou a luta por pontos, com três vitórias e a maglia ciclamino. Jhonatan Narvaez voltou a mostrar versatilidade com três triunfos. Afonso Eulálio confirmou a revelação com nove dias de rosa e a classificação da juventude.
Mas uma Grande Volta também expõe fragilidades. Em três semanas, expectativas desabam à vista de todos. Planos de geral desfazem-se. Sprinters perdem autoridade. Jovens descobrem como uma corrida vira de um momento para o outro quando saúde, pressão e fadiga chegam em simultâneo.
Por esse critério, estes foram os cinco maiores derrotados da Volta a Itália 2026.

1. Enric Mas

Enric Mas na Volta a Itália 2026
Mas falhou a vitória em etapa e não entrou na luta pela geral
Enric Mas apresentou-se no Giro com um objetivo claro. O líder da Movistar Team fazia a sua estreia na prova e tinha apontado publicamente ao pódio da classificação geral antes do arranque.
Essa ambição desapareceu quase assim que surgiu o primeiro grande teste de montanha. No Blockhaus, Mas perdeu o comboio do pódio e também se afastou de qualquer top 10 realista. Para um corredor que partia como principal esperança de geral da Movistar, foi um início penalizador que condicionou o resto da sua corrida.
Até Eusebio Unzué descreveu depois a exibição como um “falhanço”, avaliação crua que correspondeu à realidade do Giro de Mas. Com a geral perdida, só uma vitória em etapa podia salvar a sua corrida.
A melhor oportunidade surgiu na 11ª etapa, quando pareceu mais próximo do seu melhor nível. Mas entrou na fuga, atacou repetidamente e reduziu a luta pela etapa a um duelo com Jhonatan Narvaez. O problema foi o final. Narvaez bateu-o ao sprint e Mas teve de contentar-se com o segundo lugar.
Foi o mais perto que esteve. Na última semana, já não figurava entre os melhores trepadores das fugas e, por vezes, Einer Rubio pareceu a opção mais perigosa da Movistar na montanha. Mas sai do Giro sem resultado na geral, sem vitória em etapa e com o jejum a prolongar-se desde o Giro dell'Emilia 2022.

2. Dylan Groenewegen

O Giro de Dylan Groenewegen não se mede pela geral. Mede-se pelos seus padrões de sprint e pelo corredor que assumiu o controlo das chegadas rápidas.
Groenewegen começou como um dos favoritos para os sprints, motivado por um grande arranque de temporada. Com a Unibet Rose Rockets totalmente ao seu dispor nas etapas planas, a expectativa era simples: vitórias, disputa pela ciclamino e a expectativa de que poderia recuperar o estatuto na elite dos sprinters. Paul Magnier ocupou esse lugar.
O sprinter da Soudal - Quick-Step venceu três etapas e a classificação por pontos, enquanto Groenewegen somou apenas 3 top 10. Parecia bem colocado nos finais, mas, ora uma queda, ora ficava fechado e nunca conseguiu verdadeiramente estar na luta.
É isso que torna o seu Giro desapontante. Não foi uma corrida sem oportunidades. Groenewegen teve-as. Magnier foi mais rápido, mais incisivo e mais decidido. Inclusive na última etapa em Roma, uma derradeira oportunidade, mas viu a vitória escapar para Jonathan Milan, que, não fosse esse triunfo e também estaria nesta lista.

3. Giulio Pellizzari

A corrida de Giulio Pellizzari pode ser a mais frustrante de todas, porque a fase inicial sugeriu algo bem maior. O jovem italiano chegou com grandes expectativas depois de vencer a Volta aos Alpes, com duas etapas incluídas. No Blockhaus, pareceu por momentos o homem mais capaz de incomodar Vingegaard, foi quarto e o último a resistir antes do ataque decisivo do dinamarquês. Essa imagem não virou o enredo do seu Giro.
Problemas de estômago cedo condicionaram a sua prova e o nível nunca regressou por completo. Pellizzari manteve-se no top 10 até à 15ª etapa, o que preservava a hipótese de uma geral respeitável, mas a terceira semana expôs os estragos. Cada etapa de montanha trouxe novo atraso. Primeiro saiu do top 10, depois do top 15 e, por fim, até do top 20.
A via da caça a etapas também não o salvou. Pellizzari nunca encontrou a exibição que permitisse trocar a geral perdida por um prémio de consolação claro.
A equipa ainda assim brilhou com Jai Hindley, que subiu ao pódio pela Red Bull - BORA - Hansgrohe. O contraste ficou mais vivo. Pellizzari iniciou a corrida como um dos nomes mais falados atrás de Vingegaard. Terminou como um dos que mais claramente cederam às exigências de três semanas.

4. Ben O’Connor

O Giro de Ben O’Connor foi menos dramático, mas não menos dececionante. Após a forte Volta a Espanha 2024, o australiano continuava à procura do patamar que o colocara entre os líderes de Grandes Voltas. O Giro parecia a prova certa para o mostrar. Atrás de Vingegaard, o pódio e o top 5 estavam suficientemente abertos para um corredor com o seu perfil. Em vez disso, O’Connor passou demasiado tempo a sobreviver, e pouco a moldar a corrida.
Manteve-se relativamente bem colocado nas primeiras duas semanas, mas raramente pareceu um corredor pronto para atacar o pódio. Enquanto Felix Gall, Jai Hindley, Derek Gee e Afonso Eulálio assinaram exibições claras na montanha, a corrida de O’Connor tornou-se cada vez mais defensiva.
A terceira semana acabou com as suas aspirações de top 10. A fadiga acumulou-se, as diferenças cresceram e caiu para 16º da geral. Para um corredor cuja equipa precisava de um grande resultado na classificação geral, ficou muito aquém do objetivo.
Ben O'Connor em ação na etapa 19 da Volta a Itália de 2026
Ben O'Connor em ação na etapa 19 da Volta a Itália de 2026

5. O percurso da Volta a Itália

O último “derrotado” não é um corredor. É o próprio percurso. A superioridade de Vingegaard seria difícil de quebrar em quase qualquer traçado, mas a Volta a Itália de 2026 raramente criou a sensação de caos e desgaste que historicamente define a corrida. Houve menos etapas longas e brutais de montanha, aquelas que fazem o Giro sentir-se diferente da Volta a França. O percurso inclinou-se muitas vezes para corridas mais curtas e controladas, o que favoreceu uma equipa dominante como a Team Visma | Lease a Bike.
A Visma controlou os dias-chave com impressionante serenidade. Uma vez que Vingegaard tinha a corrida na mão, as oportunidades para os rivais lançarem ataques de longo alcance, capazes de forçar uma dinâmica diferente, foram limitadas.
O equilíbrio dos contrarrelógios também merece debate. Um contrarrelógio individual de 42 quilómetros foi um teste significativo, mas continuou a ser apenas um exercício contra o tempo numa Grande Volta de três semanas. Vingegaard perdeu mais de um minuto para Thymen Arensman nessa etapa. Um segundo contrarrelógio poderia ter mudado a pressão na luta pelo pódio, mesmo que talvez não alterasse o vencedor.
A Volta a Itália de 2026 coroou um campeão dominante e várias prestações individuais memoráveis. Nem sempre entregou a incerteza, a dureza e a desordem táctica que muitos adeptos esperam da Corsa Rosa.
Vingegaard sai de Roma com a corrida. Magnier, Narváez e Eulálio saem com ganhos importantes. Mas, Groenewegen, Pellizzari e O’Connor partem com perguntas bem diferentes.
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