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Volta a Itália arranca na próxima semana na Bulgária e, embora os ciclistas não passem toda a corrida em solo italiano, isso não elimina os perigos que apresenta. A primeira grande volta da época está cheia de armadilhas e, embora
Jonas Vingegaard seja o homem a bater, há muito mais em jogo do que apenas o desempenho em subida.
“O Giro é uma corrida duríssima, mas toda a gente leva o melhor do melhor para o Tour. Por isso, mesmo que uma equipa tenha um dos melhores líderes, pode guardar alguns dos melhores gregários para o Tour, o que deixa a corrida um pouco mais aberta às fugas”, disse o antigo profissional norte-americano
Tejay van Garderen em declarações à
Domestique.
No caso da Visma, isso deverá acontecer, com nomes como
Sepp Kuss e Victor Campenaerts a juntarem-se-lhe na Corsa Rosa, mas, de resto, com um alinhamento sem vários dos ciclistas que melhor apoiaram o dinamarquês nos últimos anos, incluindo Wout Van Aert e Matteo Jorgenson. Assim, as diferentes prioridades que as equipas atribuem ao Giro e as suas escolhas de plantel introduzem mais incógnitas na corrida.
“Brincamos muitas vezes a dizer que o Giro é uma loja de presentes para as fugas, tirando quando o Tadej Pogacar lá esteve com a UAE, esmagaram todas as escapadas e ele ganhou 10 etapas ou algo do género (correção: seis etapas). Mas, normalmente, no Giro, as equipas têm de ser mais conservadoras, porque não têm a mesma profundidade. Vê-se muito mais gente a atacar e a ter a sua oportunidade de vencer etapas, ao contrário do Tour, onde está tudo muito controlado”.
Vingegaard precisa de render em todo o lado, como Pogacar
O percurso inclui várias etapas de alta montanha e um contrarrelógio de 40 quilómetros, onde se esperam as maiores diferenças. Mas é também uma corrida com várias jornadas onduladas, e até as etapas montanhosas apresentam formatos distintos. Para lá da dificuldade e variedade de etapas, o clima é frequentemente o fator que dita o desastre para muitos.
“O Vingegaard é certamente o favorito, é a estrela do Giro. Mas se vai ganhar ou não, veremos depois das duas primeiras semanas”, acrescentou o antigo vencedor Gilberto Simoni. “Em Itália, no mês de maio, o primeiro adversário é o tempo. Depois há subidas, descidas, traçados e paisagens muito específicos. Itália não é igual do norte ao sul, as estradas mudam, as dificuldades mudam e, acima de tudo, o tempo muda. Em maio, o clima é um verdadeiro rival”.
Em 2025, os dois principais favoritos ao Giro, Primoz Roglic e Juan Ayuso, caíram na 9ª etapa, repleta de setores de sterrato. Na segunda semana, a chegada chuvosa a Nova Gorica provocou muitas quedas, levando ao abandono de candidatos à geral e a cortes significativos. Fora do “terreno decisivo”, a corrida ficou decidida para muitos.
Para além do que se viu no último ano, o Giro tem frequentemente etapas encurtadas ou canceladas devido a nevões ou chuva intensa. Em maio, sobretudo no norte de Itália, nos Alpes, o tempo é instável e bem mais frio do que nas outras duas Grandes Voltas. Isto torna a gestão do vestuário crucial e a alimentação mais difícil; acrescenta variáveis a uma equação já complexa de gestão de uma grande volta. O clima também aumenta a tensão e a luta por posição, o que, por consequência, eleva o risco de quedas.
Embora Vingegaard seja, à partida, o melhor trepador em prova, precisa de render nas três semanas. “São dois corredores diferentes. O Pogacar é muito mais proativo, enquanto o Vingegaard é excelente em certos tipos de traçado, mas não em todos. E, em Itália, é preciso ser bom em todo o lado”, avisa Simoni.
A experiência é decisiva na Volta a Itália
Matteo Tosatto, 13 vezes presente no Giro e atual diretor desportivo da Tudor Pro Cycling Team, sublinha que, na Corsa Rosa, é obrigatório esperar o inesperado. “Em muitas corridas hoje em dia, quando alinham Pogacar, Van der Poel, Evenepoel ou Seixas, pode dizer-se que se corre logo para o segundo lugar, mas isso nunca se diz na Volta a Itália. Nunca”, argumentou o italiano.
“Com todo o respeito pelo Vingegaard, é o primeiro Giro que ele faz, e isto não é o Tour nem a Vuelta, por isso há sempre um ponto de interrogação. Vai defrontar equipas muito bem preparadas. Tudo pode acontecer”.