A impressionante vitória a solo de
Paul Seixas na
Faun-Ardèche Classic não foi apenas fruto de instinto no calor da corrida. Segundo o diretor desportivo da Decathlon CMA CGM,
Luke Rowe, o movimento que decidiu a prova já estava traçado antes da subida decisiva.
Em conversa no podcast Watts Occurring, ao lado do antigo vencedor da Volta a França
Geraint Thomas, Rowe explicou que o jovem de 19 anos já tinha indicado o que queria fazer antes de a corrida entrar no seu momento crítico.
“Foi insano”, apelidou Rowe no podcast. “Tirou gente da roda, ciclistas realmente fortes, e disse antes que era isso que ia fazer. Fez exatamente o que anunciou”.
Um adolescente a correr sem medo
Seixas assinou uma das exibições mais marcantes do arranque de 2026 em Ardèche, atacando na Côte de Saint Romain de Lerps a mais de 40 quilómetros da meta. O movimento partiu rapidamente a corrida, com o líder da Team Visma | Lease a Bike,
Matteo Jorgenson, a tentar seguir por instantes antes de ser forçado a deixar o jovem francês ir embora.
Daí até ao fim, Seixas rodou isolado e aguentou a perseguição para conquistar a maior vitória de um dia da sua jovem carreira.
Para Thomas, a atuação recordou tanto o talento de Seixas como a personalidade que o sustenta. “Ele é especial”, disse Thomas. “Profissional a sério, tipo impecável, sem peneiras. No fundo, ainda um miúdo”.
Rowe acredita que esse instinto juvenil também se reflete na forma como o corredor da Decathlon aborda a competição. “Corre assim, sem medo, vai e pronto”.
Essa liberdade para se comprometer totalmente com um movimento, mesmo de longe, foi decisiva em Ardèche, com Seixas a deixar para trás ciclistas muito mais consolidados no pelotão.
“O nível agora assusta”
A conversa entre Thomas e Rowe rapidamente se alargou à evolução recente da modalidade, com ambos a refletirem sobre como o nível do pelotão disparou nos últimos anos. “O nível agora assusta”, apontou Thomas. “É uma boa altura para se retirar”.
Rowe riu em concordância. “Saímos no momento certo. Levava uma sova daquelas se ainda fosse profissional”.
Thomas sugeriu que os corredores que entram hoje no ciclismo se desenvolvem em condições muito diferentes das de há apenas uma década. “Se tivesses 25 agora, treinavas de outra forma, comias de outra forma, mudou tudo”.
Rowe concordou que, embora por vezes sinta falta da competição em si, não tem saudades do processo implacável necessário para chegar ao pico de forma. “Tenho saudades de estar no ponto e de correr, mas não tenho saudades do processo para chegar a essa forma”.
Para Seixas, porém, esse processo está apenas a começar. E, a julgar pelo que conta Rowe, o movimento ousado que deu a vitória em Ardèche não foi um risco espontâneo.
Foi exatamente o tipo de ataque destemido que o adolescente já tinha decidido tentar muito antes de surgir a subida decisiva.