Crescem as duvidas em relação à Lidl-Trek: "Andam a gastar muito dinheiro. Há gente descontente"

Ciclismo
sábado, 06 junho 2026 a 11:00
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A Lidl-Trek atravessa um período de grande transformação. A estrutura que durante anos foi liderada por Luca Guercilena está a sofrer mudanças profundas a vários níveis, desde a gestão até ao departamento técnico, numa fase em que o investimento da Lidl aumentou significativamente e o projeto assume cada vez mais uma identidade alemã.
No podcast The Move, Johan Bruyneel e Spencer Martin analisaram o momento delicado vivido pela equipa e ambos concordaram que a remodelação interna vai muito além daquilo que é visível para o público, deixando no ar dúvidas sobre a estabilidade da estrutura num momento decisivo para o futuro da formação.

Bruyneel surpreendido com a situação

Johan Bruyneel não escondeu a surpresa quando surgiram as primeiras notícias sobre as alterações internas.
“Quando vi as notícias fiquei completamente surpreendido”, afirmou o belga no início do podcast.
O antigo diretor desportivo explicou que conhece bem as origens da atual estrutura, recordando que participou diretamente na fusão entre a RadioShack e a Leopard Trek. Na sua visão, alguns dos problemas que agora voltam a surgir já estavam presentes há mais de uma década.
“As fusões não funcionam”, afirmou de forma categórica.
Bruyneel recordou ainda que, apesar de ter levado patrocinadores importantes e vários ciclistas para a estrutura na altura, sentia frequentemente que era visto como um elemento externo dentro da “velha equipa”.

Defesa cerrada de Luca Guercilena

Grande parte da análise acabou centrada em Luca Guercilena, figura histórica da estrutura e homem que, segundo Bruyneel, foi essencial para transformar a Lidl-Trek numa das equipas mais fortes do WorldTour.
“Ele construiu esta equipa ao longo dos últimos catorze anos”, explicou.
Para o belga, o dirigente italiano conseguiu estabilizar e desenvolver o projeto mesmo durante períodos particularmente difíceis. Bruyneel mostrou-se especialmente incomodado com a forma como Guercilena terá sido afastado do centro das decisões.
“Não acho que tenham lidado com isto da forma mais correta”, referiu.
O antigo diretor desportivo lembrou ainda os graves problemas de saúde enfrentados pelo italiano, destacando que, mesmo nessas circunstâncias, Guercilena continuou a gerir a equipa a partir de casa e manteve toda a estrutura sob controlo.

Uma nova identidade para a Lidl-Trek

Spencer Martin também considerou que a transformação está a ser demasiado agressiva. Segundo o analista norte-americano, a Lidl-Trek passou os últimos meses a promover alterações significativas tanto ao nível de contratações como da estrutura técnica.
“A identidade da equipa está a mudar completamente”, resumiu.
A chegada de Andy Schleck ao cargo de CEO foi outro dos temas debatidos. Bruyneel mostrou-se bastante céptico relativamente à escolha do luxemburguês para liderar uma organização com a dimensão atual da Lidl-Trek.
“O Andy foi ciclista e geriu uma loja de bicicletas, mas isto é outro campeonato”, afirmou.
Segundo o belga, liderar uma estrutura moderna exige experiência empresarial e elevada capacidade organizacional. A Lidl-Trek conta atualmente com projetos masculinos, femininos, de desenvolvimento e juniores, algo que aumenta significativamente a complexidade da gestão.
“Estas são organizações gigantes”, explicou Bruyneel.

Grischa Niermann visto como contratação-chave

Outro das transferências relevantes foi a contratação de Grischa Niermann, proveniente da Team Visma | Lease a Bike. Spencer Martin recordou que o alemão era uma das figuras centrais dentro da estrutura de Jonas Vingegaard.
“Quando pensas na Visma, imaginas o Grischa dentro do carro”, comentou.
Bruyneel admitiu compreender a decisão pessoal de Niermann, considerando que a Lidl-Trek lhe ofereceu uma oportunidade financeira e profissional muito difícil de recusar.
“É a oportunidade da vida dele”, reconheceu.
Apesar disso, o belga continua a ver um problema estrutural evidente na quantidade de mudanças simultâneas dentro da equipa.
“Estão a chegar demasiadas pessoas novas ao mesmo tempo para funções críticas”, alertou.
Na opinião de Bruyneel, teria feito mais sentido manter Guercilena no comando geral durante a transição, permitindo uma adaptação mais gradual à nova realidade da equipa.
Spencer Martin concordou parcialmente com essa leitura. “Parece tudo demasiado abrupto”, referiu durante a análise.

Cresce o desconforto interno

Bruyneel foi ainda mais longe ao afirmar que existe atualmente um ambiente de forte desconforto dentro da formação.
“Pelo que ouço internamente, há muita gente que está descontente”, revelou.
O belga explicou que vários funcionários históricos da equipa estão a ser afastados à medida que chegam novos responsáveis, muitos deles alemães. Segundo Bruyneel, a Lidl pretende alterar profundamente a cultura da estrutura.
“As decisões são agora tomadas apenas pela Lidl”, afirmou.
Na visão do antigo diretor desportivo, existe uma intenção clara de “germanizar” a equipa. Bruyneel apontou o facto de muitas das novas contratações técnicas e administrativas serem alemãs e recordou ainda que o centro operacional da equipa foi transferido da Bélgica para território alemão.

Muito dinheiro, mas sem garantias

Outro dos pontos abordados no podcast foi o enorme investimento financeiro da Lidl-Trek. Bruyneel admitiu ter ouvido rumores sobre possíveis dificuldades orçamentais provocadas pelos salários extremamente elevados pagos pela equipa.
“Estão a gastar uma quantidade enorme de dinheiro”, afirmou.
Ainda assim, o belga reconheceu que a Lidl possui recursos praticamente ilimitados para os padrões do ciclismo moderno.
“O dinheiro pode resolver muitos problemas”, admitiu.
No entanto, Bruyneel insistiu que investir fortemente não significa automaticamente construir uma estrutura vencedora.
Spencer Martin aproveitou então para estabelecer uma comparação com a Team Visma | Lease a Bike, equipa que a par da UAE Team Emirates - XRG, tem dominado as Grandes Voltas dos últimos anos. Segundo o norte-americano, esse sucesso foi construído com base em estabilidade, continuidade e crescimento progressivo.
“A Visma construiu tudo passo a passo”, concordou Bruyneel.
Para o belga, a Lidl-Trek está a tentar acelerar um processo que normalmente demora vários anos a consolidar-se dentro do ciclismo profissional.

Um momento decisivo para o futuro

A conversa recuperou ainda algumas histórias dos tempos da Leopard-Trek. Bruyneel recordou que vários ciclistas deixaram a Saxo Bank na altura porque procuravam um ambiente menos rígido.
“Parecia o Club Med”, contou, citando uma frase ouvida de um dos proprietários da equipa.
Spencer Martin recordou até um documentário daquela época, no qual o ambiente parecia bastante descontraído para uma equipa que ambicionava lutar pela classificação geral da Volta a França.
Apesar de todas as críticas, Bruyneel reconheceu que o projeto ainda pode vingar.
“Posso ter de acabar por engolir as minhas palavras”, admitiu perto do final do podcast.
Ainda assim, deixou claro que considera extremamente arriscado alterar tantas peças fundamentais ao mesmo tempo.
A conclusão do debate entre Johan Bruyneel e Spencer Martin deixa uma ideia evidente: a Lidl-Trek entrou numa fase decisiva. A equipa tem dinheiro, ambição e capacidade para atrair jovens talentos de topo, mas enfrenta igualmente muitas dúvidas internas, tensões e uma transição delicada que poderá definir o rumo do projeto nos próximos anos.
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