Danilo Di Luca, vencedor da
Volta a Itália e da
Liege-Bastogne-Liege em 2007, voltou a falar abertamente sobre a carreira, o ciclismo moderno e a suspensão vitalícia por doping. Numa entrevista ao jornal espanhol
AS, o antigo corredor italiano foi frontal, incisivo e sem intenção de reescrever o passado.
Com 49 anos, vive em Pescara e trabalha no segmento de bicicletas de alto padrão. Continua, porém, a seguir o ciclismo com a mesma intensidade dos tempos de competição, apesar do peso de estar banido para sempre da modalidade que o tornou célebre.
“Liège foi a corrida mais bonita da minha carreira”
Apesar de ter conquistado a Volta a Itália em 2007, Di Luca admite que o triunfo na Liege-Bastogne-Liege, no mesmo ano, ocupa um lugar especial.
“As minhas memórias estão intactas. Foi, sem dúvida, a corrida mais bonita que venci nos meus anos de profissional”.
O italiano explicou que precisou de nove anos até finalmente vencer a Clássica belga depois de a disputar pela primeira vez como profissional. “Quando a corri pela primeira vez, disse logo a mim próprio: mais cedo ou mais tarde tenho de ganhar isto”.
Em 2004, esteve perto, mas um problema físico impediu-o até de partir.
“Nesse ano fui quarto na Amstel Gold Race, terceiro na La Flèche Wallone, e acreditava que podia ganhar Liège. Mas na noite anterior tive um problema de próstata e não corri”.
Quando finalmente triunfou, sentiu que fechara um ciclo inacabado. “Era a pedra que faltava para construir a casa”.
Volta a Itália? “A emoção da Liège foi maior”
Mesmo tendo vencido a maior corrida italiana, Di Luca coloca o Monumento das Ardenas acima do Giro em termos emocionais.
“Para um italiano, o Giro é tudo. A corrida mais importante do mundo. Mas escolho Liège porque todas as emoções se concentram num só dia”.
Sobre a primeira Grande Volta do ano, disse que já sabia que a vitória estava ao alcance antes do final.
“No meu caso, soube muito antes que ia ganhar. Já o sentia nos dias que antecederam a chegada a Milão”.
Vencer Pogacar? “Neste momento é impossível”
Questionado sobre jovens talentos capazes de desafiar Tadej Pogacar, Di Luca foi direto ao falar de Paul Seixas.
“Por agora, não.
Talvez possa ser segundo quando Pogacar estiver presente. Ganhar quando o Tadej não corre, sim”.
Depois sublinhou o nível atual da estrela eslovena. “Bater o esloveno neste momento é impossível. Talvez quando começar o seu declínio, dentro de alguns anos”.
“Os ciclistas de hoje são robots”
Um dos momentos mais fortes da entrevista surgiu quando comparou o ciclismo moderno com a sua era. Para Di Luca, o desporto perdeu espontaneidade e humanidade. “Os ciclistas de hoje são robots”.
No seu entender, tudo gira em torno de números, dados e controlo total. “O que interessa agora são os valores: watts, quilómetros, quanto comeram durante a corrida…”
Em contraste, descreveu o pelotão do seu tempo como mais imprevisível. “Éramos mais humanos. Olhávamos mais para os rivais do que para os números. Era mais bonito para os adeptos. Havia ataques a cem quilómetros da meta, havia improvisação”.
Acredita também que hoje é mais fácil antecipar os vencedores. “Se o Pogacar está lá, ganha”.
Itália e Espanha ficaram para trás
Di Luca manifestou ainda preocupação com o declínio do ciclismo em países historicamente dominantes, como Itália e Espanha.
“Há muito pouco com que trabalhar. Tudo mudou. Não há competitividade”.
Segundo o italiano, a raiz do problema está na formação. “Tudo começa na base, com a federação.”
Deixou depois uma frase marcante sobre a realidade no seu país. “Se uma criança diz ao pai que quer começar a andar de bicicleta, o pai diz que não”.
Para Di Luca, o ciclismo vive hoje sobretudo na Bélgica. “Estive na Volta à Flandres e continua tudo igual: o público, a paixão, a aura. Em Itália tudo mudou”.
“Sem doping teria ganho muito mais”
Uma das declarações mais controversas surgiu quando voltou a uma opinião que já expressara: acredita que teria alcançado ainda mais sem recorrer ao doping.
“Sem doping, o campeão brilha ainda mais. Com doping tudo fica mais plano, mais equilibrado”.
No seu entender, as substâncias proibidas reduziram o fosso natural entre o talento de elite e os corredores comuns. “Sem isso, a diferença entre um campeão e um corredor normal é muito maior”.
Di Luca foi suspenso várias vezes por infrações de doping e foi banido para sempre em 2013. Continua a considerar a punição excessiva. “Passados treze anos, continuo sem entender a suspensão vitalícia”.
Prosseguiu. “Na vida todos cometemos erros. Depois chega. Não matei ninguém. Trabalho, tenho família… O resto é desproporcionado. Sou uma boa pessoa”.
“Sinto-me um artista”
No final da entrevista, refletiu sobre a sua personalidade e a forma como canalizou raiva e frustração ao longo da carreira.
“Sim, exatamente. De certa maneira, sinto-me um artista”.
Uma frase que resume a figura contraditória que Danilo Di Luca continua a ser: talentoso, controverso, punido e incapaz de falar com neutralidade sobre o desporto que o tornou famoso.