A decisão de Wout van Aert de falhar a E3 Saxo Classic já foi apresentada como um movimento calculado com vista à
Volta à Flandres e o Paris-Roubaix. Mas nem todos acreditam que a troca jogue a seu favor.
Falando no podcast Wielerclub Wattage,
Tom Boonen questionou se retirar um dos principais testes em empedrado da primavera é um risco em vez de uma vantagem, sobretudo tendo em conta quão limitadas são as verdadeiras oportunidades de vitória de Van Aert nas Clássicas.
“Acho uma pena ele não alinhar. Na realidade, tem apenas quatro ou cinco corridas onde pode realmente vencer. Se abdicas de uma delas, reduzes simplesmente as tuas hipóteses de ganhar”.
O argumento contraria a estratégia definida pela
Team Visma | Lease a Bike, que optou por priorizar a preparação em detrimento do volume competitivo após a Milan-Sanremo. Van Aert já tinha estruturado o programa com um afinamento até Sanremo, seguido de um bloco de treino apontado ao pico de forma para os Monumentos.
Um ponto de referência perdido?
Wout van Aert no Tirreno-Adriatico 2026
Para Boonen, a ausência da E3 não significa apenas perder uma hipótese de vencer, mas retirar um dos indicadores mais claros de forma antes da Volta à Flandres. “Não é segredo que sempre gostei de correr a E3, mas assim teríamos sabido realmente onde ele está.”
Essa perspetiva reflete o lugar da corrida no calendário. A
E3 Saxo Classic é há muito vista como a simulação mais próxima das exigências que os corredores enfrentarão na Flandres, tanto em termos de terreno como de intensidade.
Boonen chegou mesmo a sugerir que, se algo tivesse de sair do calendário, faria mais sentido sacrificar outra prova. “Preferia saltar a Gent-Wevelgem, agora In Flanders Fields. Essa corrida é menos relevante para ele na abordagem à Volta à Flandres.”
Dúvidas dentro do seu próprio círculo
Boonen não está sozinho nesta visão.
Jan Bakelants, amigo próximo e companheiro de treinos de Van Aert, admitiu também que a decisão é difícil de compreender, sobretudo tendo em conta o histórico do belga na corrida.
“Ao que parece, foi decidido há muito tempo, mas eu também não entendo muito bem. Acho uma decisão estranha, porque a E3 é uma corrida muito significativa para perceber onde ele realmente está. E já a venceu duas vezes.”
Esse ponto sublinha a tensão no cerne do debate. De um lado está uma abordagem controlada e de longo prazo, desenhada para maximizar o pico de forma na Flandres e em Roubaix. Do outro, o valor da competição em si, tanto como referência como oportunidade.
Uma aposta calculada antes dos Monumentos
A forma de Van Aert não está em causa. A exibição na Milan-Sanremo, onde recuperou de uma queda para terminar no pódio, confirmou que já opera a um nível elevado. Mas a decisão de abdicar da E3 retira um dos últimos testes competitivos antes das maiores corridas da sua primavera.
Em alternativa, a sua preparação seguirá um calendário mais seletivo, equilibrando competição com treinos direcionados nos dias que antecedem a Flandres e Roubaix.
Se essa abordagem o afina ou deixa perguntas por responder só ficará claro quando chegarem os Monumentos. Para já, como alerta Boonen, a escolha transporta intenção e risco em partes iguais.