A arrancada de
Mathieu van der Poel na
etapa final do Tirreno-Adriatico foi um dos momentos mais debatidos da semana, não por lhe ter dado a vitória, mas pelo que revelou sobre as suas prioridades.
Num dia que se previa terminar num sprint rotineiro em San Benedetto del Tronto, Van der Poel incendiou as subidas, impôs um ritmo que partiu a corrida e deixou para trás uma série de sprinters. Pelo caminho, afastou até o seu próprio líder para o sprint, Jasper Philipsen, transformando o que deveria ser um dia de lançamentos da Alpecin em algo bem mais complexo.
Desde o pelotão, Olivier Naesen foi um dos que assistiu de perto ao desenrolar dos acontecimentos, e a sua leitura captou bem porque é que a jogada se tornou tão discutida.
“Foi impressionante, mas o seu movimento foi puramente no seu próprio interesse”,
disse Naesen no podcast do HLN após a etapa. “Estavam a pedir-lhe para parar e abrandar”.
Esse pormenor dá fio à meada. Van der Poel não se limitou a andar forte. Ao que tudo indica, insistiu em acelerar mesmo quando, dentro da própria equipa, havia vozes a pedir calma. Para uma formação que iniciara o dia com Philipsen como um dos favoritos óbvios ao sprint, ficou a questão: Van der Poel estava a correr a etapa para a Alpecin ou para si próprio.
Oliver Naesen no Tirreno-Adriatico 2026
Uma etapa do Tirreno que pareceu preparação para Sanremo
Foi isso que tornou a iniciativa controversa. A etapa final nunca deveria ser um dos campos de batalha decisivos da semana. Isaac del Toro tinha a geral praticamente controlada, o traçado achatava rumo à meta e o guião apontava para um sprint compacto.
Em vez disso, Van der Poel transformou o miolo do dia num teste de sobrevivência.
Impulsionou o ritmo nas subidas, manteve a pressão depois de a fuga ser alcançada e esticou a corrida quilómetro após quilómetro no regresso à costa do Adriático. Homens como Jonathan Milan e Sam Welsford descolaram logo aos primeiros metros, enquanto Philipsen também não resistiu ao ritmo, alguns metros depois. Só mais tarde, já no circuito final, os sprinters voltaram a ganhar controlo.
Nessa perspetiva, a leitura de Naesen faz sentido. O movimento foi indiscutivelmente nocivo para os rivais, mas também soou a um corredor a aproveitar condições de corrida para afinar forma para o que aí vem.
Naesen não demorou a traçar a linha até
Milan-Sanremo. “Van der Poel convenceu-me de que é o favorito número um para vencer Milan-Sanremo”.
Essa é a relevância mais ampla do que aconteceu no Tirreno. Van der Poel não mostrou apenas boas pernas. Exibiu aquela força explosiva capaz de partir uma corrida antes da meta, precisamente a qualidade que o torna tão perigoso em Sanremo.
Elogios a Van der Poel e fé em Van Aert também
Naesen não foi o único a sair impressionado da semana.
Greg Van Avermaet, a falar ao seu lado, foi ainda mais longe na avaliação da condição do neerlandês. “Esta foi uma das melhores versões do Mathieu que já vi”, classificou Van Avermaet. “O que ele fez aos trepadores naquelas inclinações, que até o deviam desfavorecer pelo peso. O facto de ainda ter sobrado algo no último dia e ainda querer fazer a corrida diz muito”.
Essa avaliação importa porque leva a história além de um mero debate tático. A jogada de Van der Poel pode ter complicado a etapa para a sua própria equipa, mas deixou uma mensagem clara ao pelotão antes do primeiro Monumento da época.
Ainda assim, nem Naesen nem Van Avermaet apresentaram a Milan-Sanremo como uma corrida de um homem só. Ambos destacaram também o nível com que Wout van Aert chega à primavera. “Ele está num nível muito alto. O nível de que precisa para ganhar corridas”, afirmou Van Avermaet, antes de sugerir que a melhor oportunidade de Van Aert poderá passar por abraçar o papel de outsider, em vez de carregar o fardo de ter de atacar primeiro.
Naesen soou igualmente otimista. “Pode o Wout ganhar? Sem dúvida, porque já o fez.”
Assim, a etapa final do Tirreno foi mais do que um episódio tático estranho. Tornou-se uma antevisão reveladora da tensão que agora envolve Milãan-Sanremo: Van der Poel em forma demolidora, Van Aert plenamente na discussão, e a sensação de que um esforço de treino em Itália já pode ter reconfigurado a conversa sobre o Monumento.