No pelotão moderno, poucos corredores carregam a mesma aura de inevitabilidade de
Tadej Pogacar. As suas acelerações são calibradas, a sua dominância explica-se muitas vezes em números, e a mera presença consegue dobrar corridas. Mas, com a aproximação das Clássicas da Primavera,
Mathieu van der Poel lembra que as provas mais caóticas do calendário não se ganham só com watts.
“Também se pode ganhar corridas sendo mais inteligente, ou fazendo as coisas certas no momento certo”,
disse Van der Poel no podcast da Whoop, resumindo uma filosofia forjada não em ficheiros de treino, mas nos pontos de pressão das corridas de um dia.
Onde os números deixam de mandar
A explicação de Van der Poel para as Clássicas da Primavera começa não pela potência, mas pelo pânico. Estradas a estreitar, chicanes, afunilamentos, momentos em que a corrida explode não porque alguém ataca, mas porque o espaço desaparece.
“A colocação é super importante”, afirmou. “Temos pontos-chave. Passamos de estradas largas para uma subida estreita, e tens de estar nos primeiros vinte. Porque, se houver um movimento e estiveres demasiado atrás, é impossível. Mesmo com os melhores números, é impossível estar no grupo da frente”.
Pogacar e Van der Poel venceram 14 dos últimos 16 monumentos
É uma realidade que Pogacar conhece tão bem como qualquer um.
Os seus duelos recentes na Milan-Sanremo, a
Volta à Flandres e
Paris-Roubaix mostraram como muitas vezes as corridas entre ambos se decidem antes de o ataque decisivo ser lançado. Ser forte é essencial. Estar presente é inegociável. “Precisas dos números”, reconheceu Van der Poel. “Mas também podes ganhar corridas sendo mais inteligente”.
Porque as Clássicas são diferentes
Van der Poel traça uma linha nítida entre a lógica das corridas por etapas e o caos de um dia das Clássicas.
“Nas subidas, os números de potência falam por si. Na maioria das vezes, ganha o mais forte”, disse, ao descrever a Volta a França e provas semelhantes. Em contraste, as Clássicas da Primavera comprimem decisões em momentos, não em minutos.
“Nas clássicas, tens muitos cenários de corrida diferentes, muita tática. É isso que as torna entusiasmantes”.
É também o que tem definido a sua rivalidade com Pogacar. Quando o esloveno aplica pressão contínua, a vantagem de Van der Poel está muitas vezes em aguentar o temporal e explorar o que vem a seguir. Tempo, colocação e instinto tornam-se tão decisivos como qualquer valor de limiar.
A experiência como arma
Essa vantagem tática não é acidental. Van der Poel atribui à experiência e à estrutura da equipa a única forma de sobreviver à luta constante pela posição que define as Clássicas.
“Somos 180 homens, e todos sabem onde têm de estar”, afirmou. “Por isso há sempre uma grande batalha para estar na frente. Precisas de uma boa equipa, bons colegas, e precisas de experiência para saber como lá chegar”.
É uma leitura subtil de porque é que tantas Clássicas recentes se transformaram em duelos entre ele e Pogacar. Ambos chegam não só fortes, mas preparados. Ambos entendem onde as corridas se ganham muito antes de a meta aparecer.
Uma rivalidade moldada por mais do que potência
Com a Primavera a desenrolar-se, a narrativa voltará a centrar-se em saber se alguém consegue igualar o motor de Pogacar. A resposta de Van der Poel não é negar, mas redefinir o duelo.
As Clássicas da Primavera, sugere, não são um laboratório. São um campo de batalha. Os números contam, mas só se estiveres na luta quando ela começa.
E nesses momentos, ser o mais forte no papel não garante vitória alguma.