As palavras não foram dramáticas, nem ditas para efeito, mas tinham peso. Falando em voz baixa em Omã,
Nairo Quintana reconheceu que o tempo começa a alcançá-lo, admitindo que o horizonte já não é ilimitado.
“Vamos somando anos e avançando, e a experiência já lá está”,
disse Quintana em conversa com a AS. “É hora de perceber que já não falta muito e que temos também de começar a pensar noutras coisas”.
Aos 36 anos, na sua 11ª época na
Movistar Team em duas passagens, Quintana já não é definido pelo que poderá vir a ser.
Pelo contrário, as suas palavras revelam um corredor a ponderar como, e quando, escrever o capítulo final.
Ainda presente, ainda motivado
Apesar do tom introspetivo, Quintana não está a correr uma tournée de despedida. O calendário de início de época foi pensado ao detalhe, começando em clima mais ameno após um inverno frio em Andorra e focado em ganhar ritmo, não em alimentar nostalgias.
“Sinto-me bem”, validou. “Começámos a época cedo porque quero ter uma primeira parte do ano forte e construir boas sensações para o resto da temporada”.
O seu papel em Omã tem sido claro. Em vez de correr apenas para si, Quintana colocou a experiência ao lado do talento emergente, em particular Diego Pescador, procurando manter-se na frente enquanto ajuda a moldar uma candidatura à geral. “Tentar estar sempre na frente com o Diego Pescador e apontar à classificação geral com ele”, explicou.
Esse equilíbrio entre contributo e ambição própria tem marcado cada vez mais os seus últimos anos no pelotão.
Uma carreira que redefiniu expectativas
O estatuto de Quintana no ciclismo cimentou-se muito antes desta fase reflexiva. A explosão chegou cedo, com a vitória no Tour de l'Avenir em 2010, rapidamente se afirmando entre a elite das Grandes Voltas.
Seguiram-se os anos de pico. Venceu a
Volta a Itália em 2014 e a
Volta a Espanha em 2016, tornando-se num dos poucos corredores da sua geração a conquistar o triunfo final em duas Grandes Voltas diferentes. Somou ainda vários pódios na Volta a França, incluindo o 2º lugar na geral em 2013 e 2015.
Ao longo da década de 2010, Quintana foi sinónimo de consistência em alta montanha. Vitórias de etapa nas três Grandes Voltas e repetidos pódios na geral fizeram dele presença habitual na frente das corridas de três semanas, mesmo enquanto a modalidade evoluía à sua volta.
De candidato a referência
Esse legado continua a ressoar no pelotão. Em Omã, Quintana notou que os mais jovens de equipas rivais continuam a procurá-lo, não por conselhos táticos, mas por fotos e momentos.
“Tentamos dar o nosso melhor, o máximo, respeitando todos os adversários,” disse. “Também é muito valioso tentar dar um bom exemplo e transmiti-lo aos corredores mais novos”.
Na Movistar, a sua presença convive agora com uma nova geração. A equipa já não gira à sua volta, mas a sua experiência permanece parte da estrutura, à medida que nomes como Romeo, Canal e Pescador assumem mais responsabilidade.
Vencedor de duas Grandes Voltas, poderá Nairo Quintana ganhar lugar numa Grande Volta naquela que pode ser a sua última época?
A pergunta sobre o que vem a seguir
Se 2026 será a última temporada profissional de Quintana continua por definir, e o colombiano evita apresentá-la como decisão fechada.
“Ainda não sei”, declarou. “Vamos ver como corre a época e depois decidimos o que fazemos, mas, para já, sinto-me bem, com boas sensações, e espero ter a sorte de evitar lesões”.
Essa incerteza estende-se ao programa de corrida. Quintana não exclui mais uma presença numa Grande Volta, falando abertamente do carinho pela Vuelta e da abertura para voltar a correr o Giro, se for preciso.
Instinto ainda intacto
Apesar do discurso de transição, Quintana não soa como alguém pronto a desaparecer discretamente. O instinto competitivo, garante, não esmoreceu.
“Estar no pódio numa corrida. Vencer,” respondeu quando questionado sobre um desejo para a temporada. “O instinto continua lá e, mesmo que o cão envelheça, não perde o faro”.
É esse instinto, aliado a uma crescente consciência do tempo, que define este momento na carreira de Quintana. Não é uma despedida, ainda não, mas um reconhecimento claro de que o cruzamento é real e que a próxima escolha ditará como um dos grandes corredores de Grandes Voltas da sua geração se afastará da modalidade.