“Não temos um substituto para o Remco, mas não vamos desmoronar como um castelo de cartas” A Soudal - Quick-Step não vê nenhuma crise no pós-Evenepoel

Ciclismo
quarta-feira, 11 fevereiro 2026 a 10:00
Remco Evenepoel
A saída de Remco Evenepoel iria, inevitavelmente, ser apresentada como um momento existencial para a Soudal - Quick-Step. Um corredor geracional deixou para trás uma equipa construída à sua volta, e a narrativa fácil escreveu-se sozinha. Colapso. Irrelevância. Uma crise de identidade.
Wilfried Peeters, da Quick-Step, não tem tempo para isso.
“É um facto que não se pode substituir o Remco”, admite o veterano diretor desportivo em conversa com a Wielerflits, antes de traçar uma linha firme na areia. “Mas a nossa equipa não está a abater como um pudim. Quem diz isso não sabe do que fala.”
Essa recusa frontal é mais do que retórica. Define como a Quick-Step escolheu interpretar este momento não como um fim, mas como uma libertação da dependência.

Evenepoel sai quando o nível da modalidade sobe

O respeito de Peeters por Evenepoel permanece absoluto. “O Remco é, neste momento, o corredor mais forte do pelotão”, afirma, antes de afinar o contexto. “Para o Remco, o desafio é vencer o Tadej Pogacar e o Jonas Vingegaard.”
Essa distinção é importante. Numa era definida por Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard, a dominância já não se mede por acumular vitórias, mas por bater rivais específicos. A mudança de Evenepoel para a Red Bull - BORA - hansgrohe reflete essa realidade. Sai de Bruxelas para um projeto desenhado para lhe dar profundidade na montanha e a infraestrutura de Grandes Voltas necessária para lutar a esse nível.
Os primeiros sinais em 2026 sublinham por que motivo a Red Bull investiu tanto. Evenepoel já tem vencido, justificando de imediato a aposta. Visto de fora, isso só amplifica a perceção de perda para a sua antiga equipa.
Dentro da Quick-Step, a leitura é diferente.

A pressão não desapareceu, redistribuiu-se

Uma das críticas mais ouvidas após a saída de Evenepoel foi a de que ele absorvia a pressão pelos outros. Peeters rejeita a ideia à partida. “O que é pressão, afinal?”, questiona. “Se um corredor não corresponde na subida depois de termos trabalhado o dia todo por ele, isso também não é bom.”
Nesta leitura, a pressão é estrutural. Não desaparece com um superastro. Limita-se a deslocar-se. Com Evenepoel presente, a responsabilidade concentrava-se. Sem ele, espalha-se pelo plantel.
Essa redistribuição não é acidental. É estratégica. “Com ele na equipa, esses jovens nunca teriam tido essas oportunidades”, diz Peeters. “Essa é a grande diferença.”

Oportunidade através da ausência

Estas palavras revelam a verdadeira viragem. A Quick-Step não tenta recriar um projeto moldado por Evenepoel. Deliberadamente, afasta-se desse modelo.
As primeiras corridas de 2026 já espelharam essa mudança. Os jovens têm estado visíveis, ativos e com papéis de liderança que antes não existiriam. A ênfase voltou ao modelo coletivo que em tempos definiu a equipa.
“A força da equipa foi sempre o espírito de equipa, e o facto de muitos corredores poderem vencer”, explica Peeters. “Viu-se nas primeiras semanas da época que o ambiente existe e que todos têm fome de vitórias.”
É uma identidade familiar, mas que tinha sido parcialmente suprimida pelas exigências de apoiar um líder de voltas por etapas de elite.

Reajustar expectativas em torno da nova geração

Esse recalibrar é mais claro na forma como a Quick-Step está a gerir Paul Magnier. Internamente cotado muito alto, Magnier é protegido da tentação da coroação imediata. “Não esperem que ele ganhe a Volta à Flandres já”, avisa Peeters.
Num mercado viciado em hype, gerir expectativas torna-se estratégia. Magnier está a ser desenvolvido, não promovido como salvador. Ao lado de vencedores experientes como Jasper Stuyven e Dylan van Baarle, o foco está no crescimento, posicionamento e timing, não em atalhos.

Pós-dependência, não pós-Remco

A época de 2026 da Quick-Step não é feita de negação. Peeters é explícito ao dizer que Evenepoel foi “talvez o melhor corredor que tivemos”. Trata-se de recusar que a excelência se torne um ponto único de falha.
O apoio dos patrocinadores mantém-se forte. Os contratos foram prolongados. A estrutura desportiva foi flexibilizada, não esvaziada. A equipa já não se dobra em torno do calendário, estágios ou objetivos de um só corredor.
Essa liberdade muda tudo. A pressão espalha-se. As oportunidades multiplicam-se. A identidade reafirma-se.
Evenepoel vai perseguir Pogacar e Vingegaard com as cores da Red Bull. A Quick-Step procurará algo bem diferente: relevância através do número, não da dependência.
Aos olhos de Peeters, isso não é um passo atrás. É um regresso ao que sempre fizeram melhor.
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