“Pelo que vemos, há já quem comece mesmo a bater Pogacar...” - Podem Evenepoel e Seixas desafiar o campeão do mundo na Liège? Armstrong, Hincapie, Bruyneel e Martin pronunciam-se
A Liege-Bastogne-Liege, o quarto Monumento da época e última clássica da primavera, aproxima-se a passos largos. Tadej Pogacar parte como o grande favorito, mas terá pela frente o vencedor da Amstel Gold Race, Remco Evenepoel, e Paul Seixas, principal candidato à vitória na La Flèche Wallone desta quarta-feira. Lance Armstrong, George Hincapie, Johan Bruyneel e Spencer Martin analisaram o tríptico das Ardenas e os três principais protagonistas.
A primeira clássica do World Tour terminou com triunfo de Evenepoel, após uma corrida controlada em que nem precisou de desferir um único ataque. “Vai tão depressa. Se olharmos à média, 43 km/h, é incrivelmente rápido. E estão lá 3400 metros de desnível”, comentou Bruyneel no podcast The Move. O ritmo forte imposto de início pela Red Bull - BORA - Hansgrohe teve o efeito esperado, asfixiando o pelotão antes do primeiro movimento sério. “Porque quando lá chegam, já estão todos mortos. Só dez ciclistas ainda conseguiam ir. Vimos uma aceleração e ficou feito”.
Evenepoel seguiu Romain Grégoire e, de imediato, o grupo dos favoritos reduziu-se a apenas três homens quando Kévin Vauquelin caiu e levou consigo vários corredores. “Teria sido uma corrida diferente. Acho que era um verdadeiro objetivo para o [Matteo] Jorgenson. Chegou em boa forma e vinha de um estágio em altitude no Teide. E o Vauquelin é um corredor talhado para a Amstel. Teria sido diferente, mas não creio que tivesse havido um vencedor diferente. Não me parece”.
Ainda assim, a queda muda muito o cenário nas Ardenas, já que Jorgenson estava apontado como líder da Visma e preparou especificamente as três provas, enquanto Vauquelin pode nem recuperar a tempo para voltar ao melhor nível.
Foi uma corrida em que Evenepoel pareceu, de longe, o mais forte, seguido pelo campeão em título Mattias Skjelmose, batido no sprint pela vitória. Atrás, ninguém esteve ao mesmo nível (à exceção de um Romain Grégoire que cedeu na última meia hora de prova).
O analista belga elogiou Benoît Cosnefroy, que levou a UAE ao pódio. “Fez todo o trabalho. Houve um corredor da EF [Alex Baudin] que deu um ou outro turno na frente, mas o Cosnefroy fez mesmo tudo, e acabou por vencer o sprint pelo terceiro lugar, a dois minutos. Mostra o fosso entre os dois primeiros e o resto. Mas, ainda assim, foi uma boa corrida da parte dele”.
Remco Evenepoel antes da Amstel Gold Race 2026
Seixas e Evenepoel preparam-se para desafiar Pogacar
A La Flèche Wallone disputa-se esta quarta-feira e, depois, chega a Liege-Bastogne-Liege, onde os três se encontrarão pela primeira vez esta época. No ano passado, partilharam o pódio da prova de estrada do Campeonato da Europa, onde Seixas se afirmou como trepador de topo.
“Está a construir-se este duelo a três com o Remco, o Pogacar e agora o Paul Seixas. Este miúdo, de um dia para o outro, não, em um ano, e vocês têm aparentemente todos os dados para confirmar que é mesmo a sério, já está na conversa”, defendeu Lance Armstrong. George Hincapie concorda, elevando o francês a um patamar comparável apenas a um outro corredor do pelotão: “O que fez no País Basco é incrível, ao estilo de Pogacar”. Aí, o jovem de 19 anos venceu três das seis etapas, perante oposição dura, mas pareceu sempre o mais forte, controlando a geral com facilidade durante toda a semana.
São estes dois os únicos que podem, realisticamente, desafiar Pogacar em Liège. Mas, mesmo sendo possível, como é que se bate o esloveno? “A maneira como começamos a ver alguns a bater o Pogacar é tipo ‘se calhar não precisamos de ir ombro a ombro a puxar com ele nas fugas’”, argumentou Hincapie. “Talvez poupem mais, não colaborem tanto e pensem apenas em chegar mais depressa à meta”.
Wout Van Aert aplicou algo semelhante em Roubaix, com algum efeito. Acima de tudo, fazer o contrário tem-se revelado fatal, como Mathieu van der Poel pôde comprovar após a Milan-Sanremo e a Volta à Flandres.
“O Remco está a fazer uma preparação muito boa para esta semana e tenho a certeza de que esta semana é super importante para ele, como vimos hoje. E temos o Seixas na equação, esperemos que seja bastante interessante. Esperemos que o Pogacar não se afaste deles e que tenhamos um final mesmo emocionante como tivemos no último Campeonato da Europa".
Miguel Marques é editor e redator do CiclismoAtual, onde cobre o ciclismo profissional internacional com forte foco em análise competitiva, estratégia de corrida e o calendário do UCI WorldTour. Desde que se juntou à plataforma em novembro de 2024, escreveu milhares de artigos, contribuindo com antevisões diárias das corridas, resumos pós-etapa, análises táticas e análises aprofundadas das equipas e ciclistas do pelotão profissional.
Tem mantido blogs ao vivo para as maiores corridas por etapas do ciclismo profissional, incluindo a Volta a Itália, a Volta a França e a Volta a Espanha, oferecendo cobertura em tempo real das etapas, atualizações contextuais e insights táticos ao longo de cada corrida. Além de suas reportagens digitais, tem assistido pessoalmente a eventos de ciclismo profissional, fortalecendo sua compreensão em primeira mão do panorama competitivo e organizacional do desporto.
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Miguel é licenciado em Ciência e Tecnologia Animal e está atualmente a concluir um mestrado em Engenharia Zootécnica. A sua formação académica em metodologia científica e análise crítica influencia uma abordagem estruturada e baseada em evidências ao jornalismo desportivo, com forte ênfase na verificação de fontes e precisão factual.
O seu envolvimento com o ciclismo começou em 2014, durante a vitória de Vincenzo Nibali no Tour de France, o que despertou um interesse sustentado e profundo pelo desporto. Desde então, tem acompanhado de perto a evolução das equipas, dos ciclistas e dos desenvolvimentos táticos nas competições do WorldTour e de nível de desenvolvimento, construindo uma experiência consistente na dinâmica do ciclismo profissional moderno.
Também pratica ciclismo recreativo, mantendo uma ligação pessoal direta com a disciplina que analisa profissionalmente.