Afonso Eulálio continua a desfrutar dos dias de descanso após três semanas intensas na
Volta a Itália. Longe da pressão da competição, o corredor da
Bahrain - Victorious refugiou-se junto da família e participou esta manhã
numa conferência de imprensa online promovida pela equipa, onde fez um balanço da corrida que o colocou definitivamente entre os nomes em destaque do ciclismo internacional.
O jovem figueirense admitiu que nunca imaginou terminar o Giro entre os melhores da classificação geral. Quando arrancou a prova italiana, o seu papel estava bem definido: trabalhar para o colombiano
Santiago Buitrago. Contudo, os acontecimentos da corrida alteraram por completo os planos da formação do Bahrain.
"É óbvio que não. Quando começou o Giro ia apenas como gregário, ia para ajudar o Santiago Buitrago. Como acabamos por perder o nosso líder, vi a ter as minhas oportunidades. Talvez lutar por uma etapa, ou duas, tentar fazer o melhor. A equipa ia 100% focada no nosso líder e abriram-se oportunidades para todos. Acabei por entrar numa fuga, por lutar por uma etapa, fiz segundo. Não ganhei, mas fiquei com vantagem na geral. Falamos dentro da equipa e decidimos correr pela geral. Se não corresse bem, não corria... Não se perderia nada e ganharia experiência".
A oportunidade surgiu cedo e Eulálio agarrou-a com ambas as mãos. A partir do momento em que entrou na luta pela classificação geral, o português passou de gregário a líder de equipa, acabando por vestir a camisola rosa durante 9 dias e fechando a corrida no sexto lugar da geral, além de conquistar a camisola branca de melhor jovem.
Apesar da enorme projeção alcançada, o corredor não esconde que o grande objetivo pessoal era vencer uma etapa.
O momento em que Alec Segaert lançou o ataque para vencer a etapa 12 da Volta a Itália 2026.
"A etapa queria mesmo bastante. Acabámos por a ganhar com o Alec [Segaert]. Fiquei muito contente na mesma, mas queria a etapa. No fim do Giro, tudo acabou por se tornar tão grande... Vesti a camisola rosa, acabei com a camisola branca. Fiz top 10. Não teve mal nenhum a vitória ter ficado de lado".
O resultado final permitiu-lhe alcançar um dos melhores desempenhos de sempre de um português na história da Volta a Itália, só superado pelas prestações de João Almeida, José Azevedo e Acácio da Silva. Ainda assim, Eulálio prefere encarar esses números com naturalidade e vê-os sobretudo como consequência do trabalho desenvolvido nos últimos anos.
"Lembro-me de no ano passado, no Mundial, dizerem que tinha o segundo melhor resultado. Só o Rui Costa tinha feito melhor do que esse nono lugar. É um pouco por aí. Tem corrido bem. Temos trabalhado bem. Top 10 no Mundial, top 10 no Giro de Itália, são resultados bastante bons. É continuar a trabalhar e tentar fazer melhor, ter mais momentos assim".
Uma das grandes incógnitas durante a última semana da corrida era perceber como reagiria à pressão de defender uma posição de destaque numa Grande Volta. O português reconhece que foi uma realidade completamente nova, sobretudo pela exigência constante que a luta pela geral impõe.
"Não sei bem. Estava expectante, era algo novo para mim. É bastante diferente quando lutas por uma etapa, pois podes chegar no "grupeto" no dia a seguir. Lutando pela geral, estás constantemente a lutar por chegar na frente. E isso não é só lutar na última subida. É todos os dias, em todas as subidas, todas as descidas, todos os pontos cruciais. Era tudo novo para mim. Acima de tudo queria a fazer o meu trabalho. E fez-se tudo perfeito dentro da equipa. Fomos perfeitos em todos os aspetos, todos os pormenores, estudávamos tudo ao pormenor. Também foi um pouco como o ano passado, em que me senti bastante bem na última semana".
As inevitáveis comparações com João Almeida também surgiram durante a conversa. O desempenho de ambos nas respetivas estreias de destaque no Giro levou muitos adeptos a estabelecer paralelos, mas Eulálio rejeita qualquer comparação com o corredor da UAE Team Emirates - XRG.
"O João é o João! Quem me dera ter as pernas dele, seguramente tinha feito bastante melhor. Ele é um dos melhores ciclistas de sempre, não só de Portugal, mas de sempre. É um dos poucos que se pode bater com o Jonas Vingegaard. Não há comparações. E ele, seguramente, vai-nos dar bastantes alegrias até ao final do ano".
Questionado sobre a análise de Joaquim Andrade, antigo diretor desportivo que acredita que poderá lutar por um pódio numa Grande Volta no futuro, Eulálio agradeceu as palavras, mas manteve os pés bem assentes na terra.
"Acima de tudo agradeço-lhe. Tive momentos bastante bons com o Joaquim Andrade. É difícil adivinhar o que aconteceria. Se não fosse a fuga, também não tinha ganho tempo... Mas sim, claro que me sentia mais cansado devido à fuga e necessitei mesmo de alguns dias para recuperar. Foi bom termos o dia de descanso e o contrarrelógio, dois dias mais curtos e que deram para respirar um bocado. Para o futuro vou continuar a trabalhar, a fazer os meus resultados. Acima de tudo gosto de fazer clássicas, nelas de certeza que vou estar bastante bem. Numa Grande Volta, quem sabe? Provavelmente só poderei voltar a fazer algo pela geral de uma Grande Volta daqui a dois anos. Quem sabe..."
O futuro imediato, contudo, parece já estar relativamente definido. Depois da explosão mediática provocada pelo Giro, os planos para a próxima temporada poderão sofrer alguns ajustes, mas o objetivo passa por continuar a crescer sem precipitações.
"Na minha cabeça, e penso que para a equipa também os planos vão mudar. Este ano vou focar-me nas clássicas a 100% até ao final da época. Para o ano penso que vou fazer o Tour. É uma das melhores corridas do mundo, a que toda a gente quer fazer. Vou fazer o Tour 100% relaxado, sem correr para geral. Irei para suportar os meus líderes, correr por uma etapa, tentar melhorar e daqui a dois anos talvez possa fazer Giro e Vuelta. Mas estamos a falar de algo para daqui a dois anos. Os planos alteram-se".
Depois de ter surpreendido o pelotão internacional com a conquista da camisola branca e um sexto lugar na geral da Volta a Itália, Afonso Eulálio entra agora numa nova dimensão da sua carreira. O Giro terminou em Roma, mas para o jovem português o verdadeiro desafio pode estar apenas a começar.