A época de 2026 de
Tadej Pogacar já está a ser enquadrada em termos históricos, e poucas vozes têm mais autoridade nesse tema do que
Peter Sagan. O eslovaco, tricampeão do mundo e uma das figuras definidoras da geração anterior, deixou uma avaliação marcante do lugar do esloveno no ciclismo, à medida que a dimensão dos seus feitos continua a crescer.
Pogacar abriu a sua campanha de 2026 de forma categórica, vencendo a Strade Bianche e a
Milan-Sanremo, reforçando o estatuto de referência com que todos os outros se comparam. Com a Volta a França ainda por disputar e outros Monumentos ao alcance, cresce a sensação de que está a construir algo muito para lá de uma série normal de vitórias.
Em conversa com o El País, Sagan enquadrou o nível de Pogacar num contexto histórico mais amplo. “Talvez Merckx o tenha conseguido no seu tempo, mas o ciclismo era muito diferente então, por isso não creio que possamos compará-los. A realidade é que, quando o Tadej nasceu, os planetas alinharam-se. O que ele faz é inexplicável”.
A comparação é reveladora.
Eddy Merckx continua a ser a bitola do domínio total no ciclismo, mas mesmo essa era, na perspetiva de Sagan, não pode ser medida diretamente com o que Pogacar faz hoje. A capacidade do esloveno para vencer Monumentos, Grandes Voltas e Campeonatos do Mundo na mesma fase da carreira empurrou-o para uma categoria onde poucos ciclistas alguma vez estiveram.
“Está um degrau acima de mim e do resto”
Sagan definiu uma era no ciclismo, quer como ciclista, quer como pessoa
A análise de Sagan não ficou pela admiração. Ao refletir sobre o nível de Pogacar em comparação com o seu próprio auge, o antigo vencedor da Volta à Flandres deixou claro a consideração que tem pelo atual campeão do mundo. “Não importa se o faz ou não. É único. Está um degrau acima de mim e do resto”.
Vindo de um corredor que marcou a sua era e somou três camisolas arco-íris consecutivas, a comparação ganha peso. Pogacar já não é avaliado apenas face aos seus contemporâneos, mas em relação aos melhores ciclistas de sempre.
“Tem de saber lidar com isso”
Para lá dos resultados, Sagan abordou também as expectativas que agora cercam Pogacar como figura de proa do ciclismo. Esse estatuto traz um tipo diferente de pressão, que vai além da performance.
Os dois partilham uma relação antiga através de um patrocinador comum, e Sagan descreveu Pogacar como terra‑a‑terra e recetivo, apesar do foco que o acompanha. “É um tipo normal que ouve muito. É curioso porque, quando nos encontramos e falamos, sinto que, de certa forma, ele está a viver o que eu vivi nos meus melhores anos como ciclista. Por isso tento orientá-lo um pouco”.
Essa orientação, explicou, é tanto sobre gerir responsabilidade como sobre correr. “Tento sempre antecipar as coisas que lhe vão surgir. Ele tem de perceber a responsabilidade que carrega. Toda a gente o vê como o Deus do ciclismo e, de certa forma, é, mas tem de saber lidar com isso. Um Deus não pode manchar a sua imagem com qualquer disparate. Tem de ser paciente e portar-se bem, sobretudo com as crianças”.
Sagan apontou ainda os pequenos gestos que moldam a ligação de um ciclista ao público, em especial aos mais novos. “Digo-lhe sempre para arranjar tempo para eles antes das corridas, nem que sejam cinco minutos. Esses detalhes são mais importantes do que parecem. Para ele e para o ciclismo. São coisas que estão acima de todos nós. Porque, quando o Tadej se retirar, essa mesma responsabilidade cairá noutros ombros”.
Enquanto Pogacar continua a construir um palmarés que já o coloca entre os corredores definidores da sua era, as palavras de Sagan sublinham a escala do que está a acontecer. As vitórias acumulam-se, o leque alarga-se e as comparações ganham volume. Já não se trata apenas de quem vence a próxima corrida. Trata-se de até onde Pogacar pode levar os limites do que um ciclista moderno pode ser.