”O Afonso ganhou o público e os jornalistas”: Empresário de Eulálio apelida-o de "carismático" e fala sobre o futuro após a Volta a Itália

Ciclismo
quinta-feira, 04 junho 2026 a 11:00
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Os ecos da exibição estrondosa de Afonso Eulálio na Volta a Itália 2026 continuam a soar por terras lusas. Desde que regressou a Portugal depois de 9 dias de rosa, vitória na classificação na juventude e um 6º lugar na geral na prova italiana, fala-se mais dele do que do campeão do Giro, Jonas Vingegaard, já que o jovem da Bahrain - Victorious tem vivido dias preenchidos por entrevistas, solicitações e compromissos mediáticos. Neste período particularmente intenso, tem contado com o apoio próximo do seu empresário, Beñat Intxausti.
O antigo corredor basco, que representou equipas como a Movistar e a Sky ao longo da carreira, trabalha atualmente na A&J All Sport Agency, uma das maiores estruturas de representação do ciclismo internacional, criada pelos irmãos Alex e Johnny Carera, e que agencia também ciclistas como Tadej Pogacar ou Isaac del Toro.
Numa conversa com o TopCycling, Intxausti abordou sem reservas o impacto que o Giro teve na carreira do português e revelou que o futuro de Eulálio na Bahrain - Victorious já está a ser discutido, tal como já tínhamos noticiado.
“Ele tem contrato até final de 2028, mas é verdade que com o Giro as coisas mudaram muito. A equipa está muito contente e querem fazer um contrato de mais longo prazo com ele. Neste inverno três equipas do WorldTour perguntaram por ele, mas o Afonso sabia onde queria continuar. Reunimos em dezembro e em janeiro e o Afonso sempre deixou claro que queria continuar na Bahrain porque foi quem apostou nele quando estava em Portugal".
Apesar de estar vinculado por vários anos à equipa do Médio Oriente, o mercado continua particularmente agressivo. No ciclismo moderno, os contratos nem sempre impedem mudanças inesperadas, sobretudo quando surgem corredores capazes de alterar o seu estatuto competitivo em poucos meses.
As movimentações milionárias registadas durante o último inverno demonstram bem essa realidade. A saída de Remco Evenepoel para a Red Bull - BORA - Hansgrohe ou a transferência de Oscar Onley para a INEOS Grenadiers mostraram que as equipas estão dispostas a investir fortemente em atletas com margem de crescimento. Outro exemplo disso foi Cian Uijtdebroeks, que já protagonizou duas transferências milionárias: primeiro da BORA-Hansgrohe para a Visma e, no passado inverno, da equipa neerlandesa para a Movistar, onde espera ter um papel de liderança na Volta a França.
No caso de Eulálio, o cenário é diferente. O português sente-se valorizado dentro da Bahrain - Victorious e encontrou um ambiente onde conquistou rapidamente a confiança dos dirigentes e dos colegas de equipa.
Mas afinal qual é o valor de mercado de um corredor capaz de lutar por etapas e assumir responsabilidades numa Grande Volta?
“O valor de mercado é imposto pelo próprio mercado. Quando o corredor termina contrato este ano e analisas o Giro que fez, seguramente haveria equipas muito interessadas nele e em oferecer-lhe um contrato muito melhor que o que temos. É difícil de quantificar e depende da oferta e da procura. Nós temos contrato assinado, mas estamos a negociar um contrato a longo prazo com a Bahrain, durante o Giro pode-se multiplicar por cinco ou por seis em relação ao que tínhamos”.

O regresso de um novo Afonso Eulálio

Na passada segunda-feira, quando aterrou em Portugal, o cenário à sua espera era bem diferente daquele que deixou há poucas semanas. Familiares, adeptos, jornalistas e fotógrafos marcaram presença para receber um dos nomes mais falados do ciclismo internacional.
Segundo Intxausti, uma das suas funções nestes dias tem sido precisamente proteger o corredor do excesso de exposição e ajudá-lo a recuperar física e mentalmente depois do desgaste acumulado durante a corrida.
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A atenção mediática continua a aumentar. Esta semana, dezenas de jornalistas portugueses e estrangeiros aguardam a oportunidade de conversar com o camisola branca do Giro, que recebeu igualmente vários convites para participar em programas televisivos.
Para o empresário espanhol, o crescimento da notoriedade do menino figueirense de sorriso fácil é evidente.
“O Afonso que terminou o Giro é diferente do Afonso que iniciou o Giro. É um corredor com muito mais valor na equipa e no mundo do ciclismo. Vestiu a camisola rosa, foi o melhor jovem, a nível desportivo aumentou muito o valor dele e depois está o carisma de cada atleta. Há corredores muito bons que não têm esse dom com a imprensa e o Afonso ganhou o público e os jornalistas”.
Os números nas redes sociais acompanharam esse fenómeno. A Bahrain Victorious registou níveis recorde de interação ao longo da corrida, mas a aposta da equipa no português não nasceu com o sucesso mediático.
Na verdade, o projeto para desenvolver Eulálio já estava definido muito antes do arranque do Giro.
“Ainda antes da negociação do contrato eles já tinham um projeto a quatro anos para o Afonso: criar um corredor sólido para Grandes Voltas e para voltas de uma semana, mas a longo prazo. Esse projeto incluía fazer uma Grande Volta, o Giro, e que pouco a pouco fosse aprender a ser líder. É verdade que a Bahrain começou com o Buitrago como líder, infelizmente ele caiu e abandonou, mas no primeiro dia de descanso, quando chegaram a Itália, falei com o Afonso e disse-lhe: ‘Abriu-se uma porta para capitaneares a equipa e seres o líder”.
E Eulálio encarou essa missão, não da maneira mais tradicional, tentando defender junto dos restantes candidatos ao top 10, mas atacando, numa fuga: ”Ele assumiu esse papel sem nenhum tipo de nervosismo, o que é raro num ciclista com pouca experiência, e aí vi que tem madeira de campeão, que não lhe tremia o pulso ao ser líder de uma equipa como a Bahrain que tinha perdido o seu líder. Depois dessa chamada entrou na fuga e assumiu a liderança do Giro, portanto, dentro dele já estava esse líder que a equipa projetava e no qual confiava”.

A descoberta de um talento

A ligação entre Intxausti e Eulálio começou em 2024, mas o empresário já seguia o percurso do português há mais tempo.
Uma das corridas que lhe chamou a atenção foi a Corrida da Paz de 2023, onde o então jovem corredor português conseguiu um resultado que não passou despercebido.
“Notei que na Chéquia fez pódio [na 3ª etapa] e contactei com ele. Contou-me a história de que vinha do BTT e tinha pouco tempo de estrada. Em 2024 já o via mais maduro, sendo jovem, mas com ousadia. Quando vi o Training Peaks e acedi aos treinos e aos números dele vi que tinha qualidade, um grande motor e um bom potencial”.
Mas os dados e os resultados contam apenas parte da história. Para quem gere carreiras, existem características impossíveis de medir através de gráficos ou relatórios.
“Conhecia o Afonso pelos resultados, mas desde que passámos a trabalhar comecei a conhecê-lo como pessoa. Neste Giro viu-se um Afonso carismático, líder de equipa, de grupo, com quem as pessoas simpatizam, mesmo estando num momento de máxima pressão e tensão. Soube gerir e isso é um dom que tem dentro. Ao princípio teve receio pelo inglês, mas mexe-se com uma facilidade impressionante, controlando em todo o momento o contexto, tanto as entrevistas, como em corrida”.

Até onde pode chegar?

A excelente prestação na Volta a Portugal de 2024, onde liderou a classificação geral durante vários dias, foi um dos fatores que ajudou a Bahrain Victorious a apostar no corredor português. Com essa transferência, Eulálio tornou-se o primeiro ciclista em cerca de uma década a dar o salto direto de uma equipa Continental portuguesa para o WorldTour, juntando-se, à data, aos compatriotas João Almeida, António Morgado, Ivo Oliveira, Rui Oliveira, Rui Costa, Nelson Oliveira e Ruben Guerreiro no escalão máximo do ciclismo.
Intxausti conhece bem a realidade do ciclismo nacional. Em 2008 participou na Volta a Portugal pela Scott-American Beef e, mais tarde, foi colega de equipa de Rui Costa na Movistar.
Por isso, acredita que continuam a existir talentos capazes de chegar ao pelotão internacional.
“Portugal sempre foi escola de bons ciclistas, corredores com fome de ciclismo e talento. Fui colega do Rui Costa na Movistar e desde jovem que era talentoso. Os jovens em Portugal estão a aparecer bem. É verdade que, às vezes, não sei se é esquecimento ou se não se trabalhou tanto, talvez os empresários também tenhamos parte de culpa, não se detetou esse talento. Em Portugal há muitos corredores bons, segue-se muito o ciclismo e há jovens corredores que podem dar o salto, não sei se para o WorldTour, mas para uma ProTeam.
O espanhol destacou particularmente um nome - João Martins, vice-campeão português de estrada em sub-23 e top 10 em duas etapas do último Tour de l'Avenir: ”Posso falar de um que não é meu corredor, mas que tem capacidade e margem de crescimento, o João Martins [da Credibom – LA Alumínios – Marcos Car]. No ano passado fez top 10 em corridas fora de Portugal, tem um perfil muito interessante ao ser rápido, pode ser lançador e ainda pode crescer. Neste ciclismo de pontos UCI e de conseguir vitórias em etapas é um perfil interessante”.
Enquanto o ciclismo português procura os próximos talentos capazes de seguir o caminho de Eulálio, permanece uma questão inevitável: qual é o verdadeiro limite do jovem da Figueira da Foz?
Intxausti recorda uma conversa reveladora que teve com Franco Pellizotti, diretor da Bahrain, durante o Giro.
“Gosta da pressão, sobressai com a pressão, não fica nervoso, por exemplo, no dia do contrarrelógio, que era o pior para ele, estive uns dias a visitá-lo e o Pelizzotti contou-me que o Afonso estava a dormir 9-10 horas todos os dias. Sendo líder do Giro e com tudo o que isso significa. Eu via-o mais como corredor de provas de uma semana, de clássicas tipo Liege-Bastogne-Liege ou La Flèche Wallone, porque tem muita explosividade e tecnicamente é bom, sabe colocar-se no pelotão, e tem a ousadia para as provas de um dia. Também o via com madeira de líder e neste Giro demonstrou-o”.
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