Treinador de Afonso Eulálio avalia o jovem Figueirense: "Ele tem um motor em desenvolvimento"

Ciclismo
terça-feira, 02 junho 2026 a 9:35
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Há pouco mais de um ano, Afonso Eulálio ainda era visto como uma das grandes promessas emergentes do ciclismo português. Hoje, já é uma realidade consolidada no pelotão internacional. O corredor da Bahrain - Victorious encerrou no domingo a Volta a Itália num impressionante 6.º lugar da classificação geral, conquistando ainda a Camisola Branca, símbolo do melhor jovem da corrida.
A prestação do figueirense confirmou aquilo que dentro da equipa já se começava a antecipar desde o início da temporada: Eulálio deixou de ser apenas um talento em crescimento para passar a ser uma das peças mais valiosas do futuro da estrutura do Médio Oriente.
O português mostrou regularidade ao longo das três semanas, resistiu às grandes etapas de alta montanha, respondeu bem nos dias de maior pressão e revelou maturidade competitiva rara para um ciclista que chegou recentemente ao WorldTour.

O treinador que viu potencial para mais

Durante o estágio da Bahrain em Altea, na Comunidade Valenciana, Pau Salvà teve as primeiras oportunidades para trabalhar diretamente com Afonso Eulálio. O técnico espanhol, que chegou este ano à equipa, rapidamente percebeu que estava perante um corredor fora do comum.
“Foi um descobrimento importante. Em 2020 começou a fazer um pouco de BTT e algumas corridas, foi detetado pela equipa nacional [Feirense], passou a fazer estrada e BTT. De 2020 a 2025 chegar ao WorldTour e acabar 8º num dos Mundiais mais duros, no Ruanda, diz muito do seu potencial. Ainda se está a desenvolver, mas em 2026 as expetativas com ele são maiores”, começou por dizer Salva ao TopCycling.
As palavras de Salvà ganharam ainda mais força depois deste Giro. O treinador acreditava que o português podia crescer rapidamente, mas poucos imaginavam um impacto tão imediato numa Grande Volta.

Um corredor que cresce em corrida

Dentro da Bahrain existe uma característica que todos destacam em Afonso Eulálio: a capacidade de se superar em competição. Se muitos ciclistas revelam os melhores números em treino, o português parece encontrar o melhor de si quando coloca um dorsal nas costas.
“É uma pessoa tranquila, aceita o que lhe dizemos, cumpre o treino prescrito e confia no treinador e no que estamos a fazer. Depois é um corredor que faz o clique quando compete e é capaz de se superar quando compete, que não é um atributo que muitos corredores tenham. Normalmente, em treino, são capazes de ir mais fundo, ao limite do esforço, mas o Afonso desfruta quando compete, é o que gosta de fazer e aqui estamos para ganhar corridas. Somos uma equipa WorldTour e esse é o objetivo. Ele gosta de correr e correr para ganhar, é um talento natural que tem e que ainda está por explorar.”
Ao longo da Volta a Itália isso ficou evidente. Eulálio não se limitou a defender-se. Procurou estar com os melhores nos momentos decisivos, mostrou personalidade nas subidas mais duras e revelou uma enorme capacidade saber sofrer em cima da bicicleta e de recuperar bem entre etapas.
Afonso Eulalio no pódio final do Giro d'Italia 2026 em Roma
Afonso Eulalio no pódio final do Giro d'Italia 2026 em Roma

O futuro passa pela Bahrain

Apesar do interesse crescente em torno do português, tudo indica que o futuro continuará ligado à Bahrain - Victorious, pois o acordo para prolongar a ligação entre ambas as partes ficou praticamente fechado ainda durante o inverno.
A equipa acredita que existe margem significativa para que o jovem Luso possa evoluir ainda mais, tanto ao nível físico como técnico. O contrarrelógio continua a ser uma das áreas onde há mais espaço para crescimento, assim como alguns aspetos ligados ao posicionamento dentro do pelotão.
“Queremos incidir em que os seus umbrais não parem de subir. Tem que melhorar o posicionamento no pelotão, ser capaz de ir uma hora sempre no máximo e saber que há momentos em que tem que comer e beber. Não é só melhorar aspetos físicos, também alguns técnicos. Podemos intuir que nos próximos dois anos ele irá a mais, porque no primeiro ano já superou as expetativas e não vejo porque neste segundo ano não continue a melhorar.”
”Não sabemos onde está o teto dele, é isso que queremos descobrir, além de percebermos em que corridas se mexe melhor para perfilarmos bem o calendário, isto é, se vai ser um líder em Grandes Voltas ou lutar por vitórias em provas de um dia. No contrarrelógio está totalmente por polir, mas é uma questão de trabalho.”

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Um perfil raro no ciclismo moderno

Afonso Eulálio encaixa cada vez mais naquele perfil de ciclista moderno capaz de responder em diferentes terrenos. Tem explosividade, capacidade de aceleração em subida e resistência para suportar esforços prolongados em alta montanha.
Para Pau Salvà, esse conjunto de características torna o português num corredor particularmente especial.
“Tem perfil para andar bem na alta montanha e em provas de um dia de constante sobe e desce, daquelas que se não tens pernas ao início não estás na frente; ele tem essa capacidade. É um escalador com punch, como temos outros na equipa, como o Buitrago, e é um perfil pouco habitual: capaz de fazer esforços de um minuto no final de uma corrida, capaz de fazer essa aceleração. Queremos que mantenha esse punch, mas é um motor que ainda se está a desenvolver e que não tem 10 anos, pelo que queremos ver onde está o teto dele e onde pode chegar.”
Depois desta prestação na Volta a Itália, a pergunta já não é se Afonso Eulálio pode vir a ser um nome importante no ciclismo internacional. A questão passa agora por perceber até onde consegue chegar um corredor que continua, segundo a própria equipa, longe de atingir o seu verdadeiro limite.
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