UCI defende proibição de última hora do sistema de pneus para o Paris-Roubaix após críticas da Visma sobre a “igualdade de condições”

Ciclismo
sexta-feira, 10 abril 2026 a 23:00
Wout van Aert
A UCI respondeu às críticas da Team Visma | Lease a Bike pela decisão tardia de proibir sistemas ajustáveis de pressão dos pneus antes do Paris-Roubaix, defendendo a medida como necessária para proteger um “terreno de jogo nivelado” no pelotão.
A decisão, que retira o sistema Gravaa da Visma a poucos dias da corrida, já tinha provocado uma reação forte dentro da equipa. O chefe de performance Mathieu Heijboer questionou o timing e a justificação, descrevendo-a como “uma história vaga” e apontando a ausência de qualquer intervenção prévia. “Também não houve aviso prévio. Aliás, ainda o usámos no GP Denain”.
No centro da disputa está um sistema concebido especificamente para as exigências do Paris-Roubaix, que permite aos corredores ajustar a pressão dos pneus em plena corrida para equilibrar a tração no empedrado com a velocidade na estrada.
Num Monumento onde as escolhas de material podem pesar tanto quanto a força física, a sua retirada está longe de ser um detalhe marginal.

UCI defende decisão com base na equidade

Numa resposta enviada à Domestique, a UCI detalhou a sua posição, evocando o princípio de que a tecnologia que melhora o rendimento deve ser acessível a todo o pelotão. O organismo defendeu que, sendo apenas uma equipa a utilizar atualmente o sistema, este representava uma “vantagem significativa”, sobretudo numa corrida como o Paris-Roubaix, onde os fatores técnicos podem ser decisivos.
A UCI apontou ainda o estatuto da Gravaa, a empresa por detrás do sistema, que entrou em falência no início deste ano. Após várias semanas de análise, concluiu-se que o produto já não pode ser considerado comercialmente disponível segundo os seus regulamentos, um requisito para ser usado em competição.
Com base nisso, equipas, fabricantes e a AIGCP foram informados a 25/3/2026 de que o sistema não seria autorizado para o restante da temporada de 2026.

Persistem frustrações com o timing e a interpretação

A explicação esclarece a posição do organismo, mas não responde às preocupações já levantadas pela Visma sobre o modo e o momento em que a decisão foi tomada.
Para lá do argumento técnico, o timing esteve no centro da reação da equipa, surgindo a poucos dias de uma das provas mais sensíveis ao equipamento no calendário. Esse contexto alimentou uma observação mordaz de Heijboer, que sugeriu: “Isso, claro, não é coincidência”.
Não há, porém, qualquer indicação de que a equipa vá arriscar em desafio à decisão. “Esse é um risco que, obviamente, não vamos correr”, assegurou, perante sanções que podem chegar à desclassificação. Mas o impacto é evidente. Questionado diretamente se isso afeta as hipóteses de Wout van Aert, Heijboer foi breve: “Sim”.

Um debate que não terminará no empedrado

A UCI pode ter defendido publicamente a sua decisão, mas o desacordo que desencadeou dificilmente terminará com o próprio Paris-Roubaix.
No cerne está uma questão que vai além de uma corrida: como definir acessibilidade num desporto onde o desenvolvimento tecnológico acelera. Para a UCI, a linha traça-se na disponibilidade transversal no pelotão. Para a Visma, a interpretação mantém-se aberta a contestação.
Com essa divergência agora exposta, o que começou como uma decisão tardia pré-Roubaix já se transforma num debate mais amplo sobre como o ciclismo equilibra inovação e justiça.
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