O mercado de transferências para 2026 tem sido dos mais movimentados dos últimos anos. Fusões de equipas, desaparecimento de estruturas históricas e a entrada de novos projetos com orçamentos ambiciosos desencadearam um efeito dominó que agitou o pelotão profissional, com rescisões de contrato à mistura. A de
Remco Evenepoel foi a mais importante, segundo o ex-profissional
Joaquim Rodríguez.
Neste turbilhão de mudanças, o ex-profissional Joaquim “Purito” Rodríguez disseca os principais movimentos no primeiro episódio do
podcast PURO CICLISMO, um espaço onde a atualidade se cruza com a experiência de quem conhece o ciclismo por dentro. Naturalmente, destaca sobretudo as mudanças de
Remco Evenepoel para a Red Bull e de
Juan Ayuso para a Lidl–Trek, com
Cian Uijtdebroeks rumo à
Movistar Team a merecer igualmente menção.
Gravado no final de dezembro, em plena entressafra, o episódio intitulado “Il Mercato” funciona como radiografia de um inverno especialmente turbulento. De contratações há muito antecipadas a negócios inesperados, Purito passa nome a nome, equipa a equipa, oferecendo a sua leitura de um mercado também moldado pelo desaparecimento de estruturas como a Arkea e pela fusão Intermarché-Lotto, um contexto que, como diz, “rebentou com todo o mercado”.
Uma transferência que domina a conversa é a de
Remco Evenepoel para a Red Bull – BORA – Hansgrohe. Para Purito, foi um movimento anunciado há muito: “Acho que as pessoas já sabiam há cem anos. Antes de a Red Bull nascer, já sabiam”. Para lá do quão esperado era, sublinha a pressão que acompanha a mudança e o salto qualitativo para a equipa alemã: “Para mim, foi uma mudança enorme. Têm sido uma equipa brutal, foram buscar um Roglic que voa. Essa equipa, a Bora, está carregada”. Na sua perspetiva, a chegada de Evenepoel era a peça que faltava para cimentar a equipa entre as melhores: “À Red Bull faltava o Remco para ser verdadeiramente uma equipa de topo”.
No mesmo patamar de nomes de cartaz está
Juan Ayuso, outra mudança que, segundo ‘Purito’, se vinha a cozinhar há algum tempo. “Também se sabia que ele ia sair, embora a UAE dissesse que não o deixava sair por nada.” Acredita que a mudança beneficia todas as partes: “Acho que todos ganham ali. É triplo, win-win-win”. Purito realça o planeamento por detrás do acordo e sente que a nova equipa do alicantino acertou em cheio: “A Lidl contratou-o muito bem”.
Purito destaca também o mercado assertivo da Decathlon, com entradas como Olav Kooij e Tiesj Benoot: “A Decathlon fez duas contratações muito boas”. Sobre Benoot, é taxativo: “É um corredor de topo”. No mesmo registo, refere Richie Richeze e jovens que brilharam nas Grandes Voltas, sublinhando a força financeira da equipa: “Têm muito dinheiro, imenso, e estão a fazer contratações muito boas”.
Contratações da Movistar Team
A análise prossegue com outros movimentos-chave,
como Cian Uijtdebroeks para a Movistar Team. Admite que o destino o surpreendeu: “Esta é daquelas que… não via para ninguém. Sim, para a Movistar. Brutal.” Neste caso, Purito lê-o como uma necessidade mútua: “Acho que ele precisava da Movistar.” Realça ainda o perfil do corredor e a duração do contrato como uma aposta calculada no futuro: “Um estrangeiro que anda muito bem numa Grande Volta, muito jovem. Acho que o assinaram por bastante tempo. Quatro anos.”
No bloco Movistar, Purito avalia também a chegada de Roger Adrià. Sem o colocar no foco mediático de outros nomes, valoriza as suas prestações e o encaixe natural na estrutura espanhola: “Corredor muito bom, e também espanhol.” E acrescenta uma reflexão sobre a identidade da equipa: “A Movistar está a fazer o que deve. Um corredor espanhol forte deve, normalmente, ser encaminhado para a Movistar.”
No capítulo das clássicas e dos todo-o-terreno, surgem nomes como Jasper Stuyven e Dylan Van Baarle, ambos a caminho da Soudal - Quick-Step. Sobre Stuyven, Purito nota que é uma “aposta segura para essas Clássicas” e vê como principal desafio encontrar espaço: “O que ele vai procurar é a sua liberdade.” Sobre Van Baarle, o veredicto é direto: “Também é um corredor muito bom.”
Uma contratação que prende verdadeiramente a atenção de Purito é a de Stefan Küng para a Tudor. “Gosto muito desta. Um contrarrelogista fortíssimo… Olhem para a Tudor, segunda divisão, mas suíços com suíços costuma funcionar. Ele também vai andar muito bem.”
A mudança de Stefan Küng para a Tudor Pro Cycling Team foi uma das notas de Joaquim Rodríguez
O foco regressa à Movistar com a chegada de Juan Pedro López vindo da Lidl–Trek. Purito classifica-a como uma “novidade de peso”, sobretudo pelo trajeto do corredor: “Esteve muito tempo na Lidl Trek.” Admite que gostava de o ver ficar, mas entende a mudança: “Quero ver como se adapta à Movistar.” Para ele, o ambiente pode facilitar a transição: “É um corredor espanhol e estará rodeado pelos seus, pelos amigos, e vai acomodar-se muito bem.”
No mesmo bloco, Purito detém-se em Raúl García Pierna, outra das contratações da equipa espanhola. Aliás, é um dos que mais o entusiasma: “É o que mais gosto.” Destaca o caráter e a margem de progressão: “É um corredor atrevido que vai ter muitas oportunidades.” Enquadra ainda a mudança no caos provocado pelo desaparecimento da Arkea: “Sair da Arkea para a Movistar, tanto para o corredor como para a equipa… a Arkéa já estava a desaparecer e era preciso fazer alguma coisa ali.”
Fusão Lotto–Intermarché
Esse pano de fundo de desaparecimentos e fusões é, para Rodríguez, uma das chaves do mercado de 2026. “Entre a fusão da Intermarché com a Lotto e o desaparecimento da Arkéa… são 90 corredores a entrar só numa.” Uma situação que, explica, coloca pressão sobretudo nos corredores com menos perfil: “Um corredor de topo arranja sempre lugar. Mas para quem não é tão bom… é duro para muitos.”
Outro projeto que chama a atenção é a Unibet Rose Rockets, uma equipa que, segundo Purito, tem um plano claro. “Gostei desta equipa.” Valoriza especialmente o foco estratégico: “Temos um orçamento, temos de ser os melhores em algo. Vamos ser a melhor equipa de sprint.” Nesse sentido, destaca contratações como Dylan Groenewegen e a entrada de Marcel Kittel como figura-chave no trabalho de velocidade: “Contrataram o Kittel, o lendário Kittel, como treinador de sprint.”
Na reta final, Purito responde a algumas perguntas diretas. Para ele, a equipa que melhor se reforçou é clara: “Possivelmente a Lidl Trek.” Do outro lado, a mais enfraquecida: “A Israel, logicamente.”