A época de 2026 de
Mathieu van der Poel já reforçou o seu estatuto como um dos corredores determinantes da sua geração, desde a vitória inaugural no Omloop Het Nieuwsblad aos duelos diretos com Tadej Pogacar em Sanremo e Flandres. Mas, longe do empedrado e dos holofotes, um novo documentário oferece uma perspetiva diferente sobre o corredor da Alpecin-Premier Tech.
Em This is Home, produzido em colaboração com a Shimano, Van der Poel abre a porta a um lado da sua vida raramente visto em público, ao lado da família e da companheira, Roxanne. O tema central não é a dominância nem a rivalidade, mas algo bem mais simples. Como o próprio Van der Poel diz: “Quão normal é a minha vida. E a ligação próxima com a minha família.”
Essa ideia de normalidade contrasta com o lugar que ocupa no pelotão moderno. Só no último ano, Van der Poel continuou a moldar as maiores corridas do calendário, somando sucesso nos Monumentos à sua habitual hegemonia no ciclocrosse de inverno. Ainda assim, o documentário desvia propositadamente o foco dos resultados para a rotina.
“Sentimos que este era o momento certo para mostrar um retrato mais completo de quem sou. Como atleta, mas também como pessoa”, explica, enquadrando o projeto como uma decisão consciente e não como uma rutura com a sua habitual reserva quanto à vida privada.
Um outro lado de um clássico especialista
O filme alterna entre locais na Bélgica e em Espanha, refletindo a estrutura da vida de Van der Poel fora da competição. Em ’s Gravenwezel, as cenas dentro de casa sublinham a influência de uma linhagem que moldou a sua carreira, desde a orientação do pai, Adrie, ao legado mais amplo da família Poulidor.
Essa educação não é apresentada como mito, mas com os pés assentes na terra. Histórias dos primeiros anos apontam para um corredor já independente, por vezes teimoso, disposto a ignorar conselhos e a seguir o instinto. Traços que continuam visíveis na forma como corre hoje.
Fora do ciclismo, o documentário sublinha as rotinas que sustentam a sua consistência. O tempo passado com amigos no campo de golfe é um exemplo. “Estou um pouco obcecado com o golfe”, admite. “É uma forma agradável de pôr a conversa em dia com os amigos e de me afastar da bicicleta por um bocado.”
Esse equilíbrio entre intensidade e desligamento tornou-se parte definidora da carreira de Van der Poel. Mesmo numa época em que voltou a estar no centro das maiores corridas do pelotão, a ênfase continua a ser manter um ambiente estável em vez de procurar exposição constante.
“Mantenho o foco por estar num ambiente familiar e seguir rotinas simples”, diz. “Mas isso também se aplica à nossa base em Espanha, onde consigo realmente relaxar e recarregar, muitas vezes com muito melhor tempo.”
“A forma como o vês é como eu também o vejo”
Se o documentário oferece um olhar sobre o ambiente de Van der Poel, é a perspetiva de Roxanne que talvez defina a sua mensagem central.
Num momento dentro de casa, ela destaca uma coerência entre a imagem pública e a vida privada, rara em corredores do seu perfil. “Em casa, não é diferente do Mathieu que vês nas corridas”, diz. “A forma como o vês é como eu também o vejo.”
É uma frase que atravessa a habitual separação entre atleta e indivíduo. Num desporto onde as narrativas se constroem muitas vezes em torno de pressão, expectativa e rivalidade, This is Home apresenta Van der Poel como alguém cuja identidade permanece, em grande medida, inalterada pelo sucesso.
Isso não diminui a dimensão dos seus feitos. Pelo contrário, reformula-os. O mesmo corredor capaz de ditar o ritmo nas maiores Clássicas do mundo é também alguém que valoriza a rotina, a familiaridade e um círculo restrito fora da modalidade.
Para um corredor que passou grande parte da última década no centro dos maiores momentos do ciclismo, essa pode ser a revelação mais esclarecedora de todas.