O ciclismo uruguaio encontrou em
Thomas Silva o seu novo porta-estandarte no pelotão internacional. Aos 24 anos, o corredor da
XDS Astana Team arrancou a época de forma fulgurante, consolidando a progressão após a passagem pela Caja Rural - Seguros RGA ter despertado grande interesse entre equipas WorldTour.
A recente vitória do uruguaio na Volta a Hainan, onde selou o triunfo na geral e conquistou duas etapas, não foi obra do acaso, mas o resultado de um inverno de muito trabalho aliado a uma adaptação rápida ao mais alto nível.
Silva, que já conhece as exigências de uma Grande Volta depois de ter competido na Volta a Espanha no ano passado, encara agora o próximo grande desafio: a
Volta a Itália. Com total confiança da equipa, o uruguaio sublinha a importância deste salto na carreira e o agradecimento pelas oportunidades dadas pela formação cazaque.
“Desde o primeiro contacto com a equipa senti-me muito confortável. É verdade que trabalhei muito no inverno. No início tive de ajudar os meus colegas, um trabalho muitas vezes invisível, mas, pouco a pouco, surgiram as oportunidades para disputar resultados”, diz em
entrevista a Luis Pasamontes no El Corte Bueno, salientando o que aprendeu ao lado de corredores como Diego Ulissi e Alberto Bettiol.
Trocou a bola pela bicicleta
O ressurgimento da Astana foi uma das grandes histórias de 2025
Criado numa família com fortes raízes no ciclismo, Silva regressou à competição aos 15 anos após uma breve incursão pelo futebol, que abandonou quando percebeu que a verdadeira paixão estava nas duas rodas.
O uruguaio abraça a tecnologia e os dados de treino sem perder de vista uma abordagem atacante, tão característica de uma equipa como a XDS Astana. Define-se como um corredor versátil, adepto de provas rolantes e desgastantes, com finais a subir, e capaz de render em condições meteorológicas extremas.
Impressionado com Tadej Pogacar
Para o sul-americano, a nutrição e o controlo rigoroso do esforço transformaram o pelotão. Também a partilha da estrada com as figuras dominantes de hoje, como Tadej Pogacar, cujo nível considera assombroso, sobretudo na aproximação às subidas.
“Quem mais impressiona hoje é o Pogacar. Em Sanremo caiu a poucos quilómetros da Cipressa e entrou no primeiro quilómetro já a fundo; nós íamos no limite e este tipo parecia voar”, afirma, admirado.
Ao olhar para as transmissões televisivas, o uruguaio gostaria que mostrassem melhor as velocidades no pelotão e evidenciassem o risco que os corredores enfrentam dentro da corrida. Aponta para o final da “La Classicissima”.
O que separa um amador de um corredor WorldTour
A explosão de Thomas Silva no WorldTour resulta de um processo de maturação que começou nas estradas do Uruguai, passou pelo exigente calendário amador espanhol e culminou na ascensão ao pelotão internacional. No ano passado, venceu também uma etapa no GP Internacional Beiras e Serra da Estrela.
A vitória na Volta a Hainan confirma essa evolução e o trabalho desde os escalões de base. Passo a passo, do CC Maldonado à Caja Rural e, depois, à XDS Astana. Para lá do sucesso pessoal, Silva destaca que o que mais o impressiona no atual enquadramento é a proximidade e o cuidado técnico com que a equipa trata os seus corredores.
“A maior diferença é o número de pessoas que cada equipa mobiliza e a infraestrutura. Há alguém para tudo, é o que mais marca. Já vamos com meses de época e continuo a conhecer elementos do staff”, explica Silva.
Para o uruguaio, mecânicos e massagistas têm um papel fundamental no rendimento diário da equipa. Um orçamento WorldTour permite-lhe focar-se apenas em pedalar e cumprir os protocolos de uma modalidade que não deixa nada ao acaso.
Pronto para a estreia na Volta a Itália
Para preparar a Volta a Itália, Silva escolheu um calendário totalmente à medida, alternando estágios em altitude com blocos específicos de competição.
Ao contrário de colegas que apostaram nas clássicas das Ardenas, afinou a forma após a viagem à Ásia. Está convencido pelo traçado da Corsa Rosa deste ano, que oferece muitas oportunidades nas duas primeiras semanas para corredores rápidos e astutos.
“Dei uma vista de olhos ao percurso e é um Giro onde se pode jogar muito nas duas primeiras semanas, por isso vamos ver o que vem”, afirma, ambicioso. A capacidade para render tanto com calor como com a meteorologia “tradicional” da primavera italiana deverá ajudá-lo a destacar-se desde cedo.