Axel Merckx – “Entre os 18 e os 22 anos, decide-se a carreira de um ciclista”

Ciclismo
sexta-feira, 06 março 2026 a 12:00
Axel Merckx
Num ciclismo cada vez mais dominado por dados, medições fisiológicas e análise de desempenho, Axel Merckx continua a defender que as bases da modalidade permanecem surpreendentemente simples.
No estágio de pré-época da sua equipa em Itália, o belga falou sobre a formação de jovens ciclistas, a evolução do ciclismo moderno e os princípios que guiam o seu trabalho como líder da Hagens Berman Jayco, a equipa de desenvolvimento da Team Jayco AlUla.
Filho do lendário Eddy Merckx, Axel construiu uma carreira sólida no pelotão internacional, destacada por uma vitória em etapa na Volta a Itália e participações competitivas nas Clássicas e nas Grandes Voltas.
Depois de terminar a carreira, escolheu dedicar-se à formação de jovens talentos, um caminho que o levou a descobrir e orientar ciclistas que mais tarde se tornaram figuras de topo do ciclismo mundial como João Almeida, Jasper Philipsen, Tao Geoghegan Hart, entre muitos outros.

Estágio em Itália é como estar em família

Hoje, a sua equipa sub-23 é considerada uma das estruturas mais eficazes na promoção de jovens corredores. Mais do que resultados imediatos, Merckx acredita que o verdadeiro trabalho está no desenvolvimento global do atleta.
“Para mim, o lado desportivo é muito importante, mas o lado humano é ainda mais importante”, explicou ao Cyclingpro.net. “Entre os 18 e os 22 anos há um momento decisivo na carreira de um ciclista. É aí que decide se quer mesmo tornar-se profissional e se está preparado para o estilo de vida que isso exige.”
Essa filosofia também explica a escolha de Itália para o estágio de preparação da equipa. O ex-ciclista conhece bem o país, que foi igualmente base de treino durante a sua carreira profissional.
“Vim cá muitas vezes como ciclista e sentia-me sempre bem”, recorda. “Quando iniciámos a equipa sub-23, voltámos à Europa e decidimos voltar a fazer aqui os estágios. Há um ambiente muito familiar, as estradas são excelentes e, normalmente, temos boas condições meteorológicas.”
Merckx acrescenta ainda que o clima ameno da região oferece uma vantagem estratégica no arranque da temporada.
“No início do ano é até positivo que não esteja demasiado calor. Mais tarde, quando os corredores regressam ao norte para as Clássicas, onde está mais frio, a mudança de temperatura não é tão drástica. E além disso, aqui come-se bem, dorme-se bem e treina-se bem.”

O nível subiu de forma significativa

Ao longo de mais de quinze anos a trabalhar com jovens, o belga testemunhou uma transformação profunda na forma como os atletas chegam ao pelotão profissional. Segundo Merckx, essa evolução começa no escalão júnior.
“Nos últimos cinco anos, a categoria júnior praticamente atingiu o nível que a sub-23 tinha há dez anos”, explica. “Os jovens chegam muito mais preparados, mais estruturados e com uma base física já muito sólida.”
Essa evolução reflete-se também na estrutura das equipas de desenvolvimento. Quando lançou o projeto, a realidade era muito diferente da atual.
“Quando começámos, não havia nutricionistas, cozinheiros ou treinadores dedicados. Havia o diretor desportivo, um soigneur, um mecânico e os ciclistas”, recorda. “Hoje existe toda uma equipa a trabalhar em torno da performance e do desenvolvimento do atleta.”
Apesar desta profissionalização crescente, Merckx procura manter um equilíbrio entre a ciência e a dimensão humana dentro da equipa.
“A abordagem tornou-se muito mais científica, isso é inevitável”, reconhece. “Mas tentamos sempre preservar um ambiente humano dentro da equipa. No fim do dia trabalhamos com pessoas, não apenas com números.”
A parceria com a Team Jayco AlUla, criada para reforçar a ligação entre a equipa sub-23 e o WorldTour, também ajudou a elevar o nível da estrutura.
“Desde o início passámos a ter acesso a um nutricionista e reforçámos parcerias com patrocinadores como a Giant”, explica. “Além disso, a Jayco ajuda-nos nas deslocações às corridas e em estágios adicionais, incluindo estágios em altitude sempre que possível.”
Para Merckx, esta colaboração tem sido benéfica para ambos os lados, sobretudo porque a sua equipa já tinha larga experiência na formação de jovens corredores.
“Hoje em dia quase todas as equipas WorldTour precisam de uma equipa sub-23 associada. Não é fácil começar do zero. Para a Jayco foi positivo encontrar uma estrutura com experiência e, para nós, foi também uma oportunidade de crescer.”

Os segredos? Comer, dormir e treinar

Apesar de todas as mudanças tecnológicas e científicas no ciclismo moderno, o belga insiste que o alicerce da modalidade permanece quase o mesmo da era do pai.
“O ciclismo mudou muito e tornou-se muito mais científico”, admite. “Mas as bases continuam iguais: dormir bem, comer bem e treinar bem.”
Segundo Merckx, estes três elementos continuam a ser a pedra angular do sucesso no ciclismo profissional.
“Se fizeres bem essas três coisas, já tens cerca de 90% do que é preciso para ser um bom ciclista”, diz. “Depois, quando sobes de nível, procuras aquele um ou dois por cento extra através do equipamento, estágios em altitude ou outros pormenores.”
Na gestão da equipa, o diretor desportivo prefere evitar uma hierarquia rígida entre os ciclistas.
“Não trabalhamos com líderes fixos”, explica. “Somos uma equipa de 13 corredores, o que significa 13 oportunidades.”
Naturalmente, alguns atletas têm mais experiência ou resultados, mas Merckx prefere avaliar cada corrida individualmente.
“Em certas provas podemos apostar mais num corredor, mas gosto de dar a todos a oportunidade de lutar por um resultado quando alinham à partida.”
No plantel estão também três italianos: Riccardo Colombo, Giacomo Serangeli e Mattia Sambinello.
“O Mattia já esteve connosco no ano passado e evoluiu muito”, explica Merckx. “No primeiro ano sofreu uma queda, mas depois ficou muito mais rápido.”
Quanto aos dois novos italianos, o responsável da equipa prefere adotar uma abordagem cautelosa.
“O Riccardo e o Giacomo foram muito fortes como juniores e têm muito potencial”, diz. “Agora precisam de tempo para se adaptarem à categoria sub-23. O talento está lá, mas é preciso trabalhar e veremos como evoluem corrida após corrida.”

Next G é o alvo

Questionado sobre os principais objetivos para a época, Merckx não hesita em destacar uma corrida em particular.
“Para mim e para a equipa, a Volta a Itália Sub-23 sempre foi uma prova muito especial”, revela.
A equipa já alcançou resultados importantes neste evento, incluindo a vitória final em 2022 com Leo Hayter.
“No ano passado também ganhámos uma etapa, por isso queremos voltar a lutar por um grande resultado”, diz. “É uma corrida fantástica e esperamos estar prontos à partida e conseguir algo importante para a equipa e para o futuro dos nossos corredores.”
Para Axel Merckx, num ciclismo cada vez mais complexo e tecnológico, a missão mantém-se relativamente simples: ajudar jovens corredores a tornarem-se melhores atletas, sem esquecer que o sucesso começa sempre pelo básico.
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