Bjarne Riis duvida que o pelotão aprenda com o susto da concussão de Jonas Vingegaard: "Não há tempo... a prioridade é voltar à corrida"

Ciclismo
segunda-feira, 31 março 2025 a 19:00
jonasvingegaard 2

Jonas Vingegaard foi forçado a abandonar a Paris-Nice 2025 após sofrer uma concussão. O mais impressionante - e polémico - foi que o dinamarquês não saiu de prova imediatamente, tendo terminado a etapa, antes de o diagnóstico ter sido confirmado mais tarde. O episódio reacendeu o debate em torno da aplicação do protocolo para as concussões no ciclismo. Num desporto onde cada segundo conta, estarão as equipas dispostas a perder minutos preciosos na berma da estrada para avaliar adequadamente um ciclista?

O tema foi analisado pelo compatriota de Vingegaard, Bjarne Riis, vencedor da Volta a França de 1996, em declarações ao site dinamarquês BT.dk. “É complicado. O problema no ciclismo é que os ciclistas caem com frequência, e raramente há tempo para uma avaliação clínica completa”, começou por explicar o experiente diretor desportivo. “É fácil apontar o dedo às equipas e aos médicos e perguntar: ‘Como é que o deixaram continuar?’ Mas se pararmos o tempo necessário para um exame completo, o pelotão já desapareceu. É um dilema estrutural. No ciclismo, simplesmente não há tempo.”

Enquanto outras modalidades têm vindo a adoptar protocolos cada vez mais rigorosos face às consequências das concussões, o ciclismo continua, em grande medida, a ficar aquém. Nas corridas todos os segundos contam, em particular nas provas por etapas, o que dificulta decisões que, por razões médicas, exigiriam paragens imediatas.

“Quando se está num carro de apoio, o instinto é correr até ao ciclista e garantir que ele volta à bicicleta o mais depressa possível. Avaliamos a situação: ele está no chão? Tem dores? A seguir, o mecânico verifica a bicicleta, e o processo é automático. A prioridade é voltar à corrida”, descreveu Riis, com uma honestidade crua. “O ciclista pensa da mesma forma: levantar-se e continuar.”

A questão que Riis coloca, no fundo, é se a estrutura actual do ciclismo permite decisões verdadeiramente responsáveis quando há suspeitas de uma concussão - especialmente nas Grandes Voltas. “O que é que se faz se um ciclista bater com a cabeça no chão na Volta a França?”, questiona. “Será que a Team Visma | Lease a Bike deixaria Jonas Vingegaard perder minutos importantes na luta pela Camisola Amarela para cumprir o protocolo? Claro que, em teoria, pela saúde do ciclista, é o que deveria acontecer. Mas, na prática, isso não é assim tão simples.”

O dilema torna-se mais agudo quando se trata de líderes de equipa, em luta por classificações gerais. “Alguém pode bater com a cabeça e não apresentar lesões graves. Mas isso, por si só, é motivo para abandonar? Se estiver a vestir a Camisola Amarela ou a lutar por ela no dia seguinte, devemos parar sempre que houver dúvidas?”, questiona Riis. “Ufa… é uma decisão difícil.”

A discussão está longe de terminar - e enquanto não houver alterações estruturais no regulamento e na forma como o tempo influencia a corrida, a saúde dos ciclistas continuará a colidir com a realidade crua do cronómetro.

aplausos 0visitantes 0
Escreva um comentário

Últimas notícias

Notícias populares

Últimos Comentarios