O estatuto de Primoz Roglic como um dos ciclistas mais consistentes e bem-sucedidos em corridas por etapas no século XXI é inquestionável. Ainda assim, persiste uma dúvida incómoda que teima em pairar sobre o seu legado: poderá um ciclista ser verdadeiramente reconhecido entre os melhores da história da classificação geral sem um triunfo na Volta a França?
Infelizmente, a sombra da 20.ª etapa do Tour de 2020 continua a pairar.
Após vencer a Volta à Catalunha 2025, batendo Juan Ayuso num duelo tenso até Montjuïc, Roglič acrescentou mais um título à sua coleção. Com isso, alcançou 17 vitórias em 22 corridas por etapas World Tour ao longo da carreira — um registo extraordinário de consistência e excelência. Ainda mais notável: somou pelo menos três vitórias em cada uma das últimas nove temporadas. Apenas nomes como Merckx, Hinault, Jalabert ou Sagan conseguiram tamanha regularidade.
A trajetória de Roglič é tudo menos convencional. Ex-saltador de esqui, começou no ciclismo profissional tarde, e ainda assim construiu um palmarés de sonho: quatro Vueltas, um Giro (2023) e triunfos em todas as grandes provas de uma semana — Paris-Nice, Dauphiné, País Basco, Tirreno-Adriático.
Aos 35 anos, e já fora da Jumbo-Visma (agora na Red Bull-BORA-hansgrohe), Roglič mostra que ainda tem muito a dar. A vitória na Catalunha — sobre uma estrela em ascensão como Ayuso — é o mais recente sinal disso.
"Diverti-me muito aqui. As pernas estão prontas", afirmou, deixando claro que continua a apontar alto.
Mas por mais vitórias que conquiste, a Volta a França continua a ser a pedra angular do legado de qualquer corredor de etapas. A ausência de uma vitória em Paris marca Roglič, por mais injusto que seja.
A edição de 2020, onde perdeu a amarela para Pogacar no contrarrelógio final, continua a ser uma das reviravoltas mais marcantes da história da prova. Desde então, acidentes, papéis secundários e a ascensão de Jonas Vingegaard fecharam-lhe as portas.
Agora, na nova equipa, prepara-se para o seu desafio mais ousado: a dobradinha Giro-Tour.
Apenas Pogacar conseguiu, em 2024, aquilo que há pouco tempo parecia impossível — ganhar Giro e Tour no mesmo ano. Roglič tentará seguir-lhe as pegadas, mas com nove anos de diferença entre ambos, a recuperação e o pico de forma serão fatores determinantes.
Mesmo com uma vitória provável no Giro, as odds para o Tour não estão do seu lado. A concorrência de nomes como Pogacar, Vingegaard, Evenepoel, Ayuso, Almeida — e até Geraint Thomas já lançou dúvidas sobre a viabilidade do plano.
Comparar Roglič a nomes como Anquetil, Merckx ou Hinault é injusto — os tempos são outros, o nível de especialização é maior e a profundidade do pelotão também. Mas se falarmos de consistência, longevidade e versatilidade, o esloveno está numa elite muito restrita.
Nenhum outro ciclista ganhou quatro Vueltas e um Giro, mantendo ao mesmo tempo uma taxa de vitórias tão alta em provas do World Tour. Nem mesmo ciclistas com um Tour no currículo, como Sastre, Nibali ou Ullrich, apresentam o mesmo nível de regularidade ao longo de quase uma década.
Roglič evoluiu. De trepador eficiente, tornou-se um líder calculista, um estratega em cima da bicicleta. O Giro de 2023 foi a prova disso — uma vitória construída com maturidade e serenidade, invertendo o desfecho de 2020, agora com Geraint Thomas no papel de derrotado.
E há algo de simbólico na forma como Ayuso o elogiou após a Catalunha: "Foi o mais forte hoje. Tiro-lhe o chapéu." Os novos nomes dominam os títulos, mas Roglič continua a vencê-los — e com classe.
Se não vencer o Tour em 2025, é possível que nunca o consiga fazer. Mas isso não apagará nada. O seu legado está garantido — não como o “melhor sem vencer o Tour”, mas como um dos melhores de sempre em corridas por etapas.
No fim, talvez a questão não seja se Roglič pode ser um dos grandes sem vencer em Paris, mas sim porque continuamos a julgá-lo apenas por isso, quando o seu currículo já o coloca no Olimpo dos mais completos de sempre.
🇪🇸 #VoltaCatalunya104
— Red Bull – BORA – hansgrohe (@RBH_ProCycling) March 30, 2025
When you just won the Volta a Catalunya but there’s also ski jumping on TV ⛷️ @rogla, please never change 😌 pic.twitter.com/fGrA79QA8R