Ciclista que bateu Lance Armstrong na Amstel Gold Race de 1999 recorda os metros finais dessa edição: "O meu diretor disse-me que me arrancava a cabeça se eu ficasse em segundo"
Meses antes de conquistar a sua primeira Volta a França, Lance Armstrong era ainda visto como um ciclista mais talhado para as clássicas de um dia do que para as Grandes Voltas. Uma dessas corridas foi a Amstel Gold Race, que se disputa este domingo e que, curiosamente, nunca foi uma das suas favoritas - embora protagonizasse um final memorável frente ao herói local Michael Boogerd.
Num episódio recente do podcast de Armstrong, os dois recordaram o duelo travado em Maastricht, em 1999, quando a meta ainda estava instalada nessa cidade. O americano, na altura já campeão do mundo, foi batido ao sprint por Boogerd, num desfecho que ainda hoje o surpreende.
"É um milagre que me tenhas vencido [...] Vês o que o ciclismo te faz, não é bom para a tua mente", admitiu Armstrong entre risos.
Boogerd, por seu lado, lembra bem a pressão que sentia por ser o grande favorito do público neerlandês. "Nessa altura, eu era um dos piores sprinters do pelotão. Estava muito nervoso no último quilómetro, ainda por cima a correr com a camisola de campeão nacional. Tinha estado na roda do Lance durante dez quilómetros. Só conseguia pensar no que diriam se eu perdesse. Quando virámos para a reta final, pensei: 'Oh merda, tenho mesmo de ganhar. Como é que vou fazer isto?'"
A tensão não era apenas sua. Boogerd recorda que, a partir do carro da equipa, o então diretor desportivo Jan Raas foi bem claro: "Disse-me que me arrancava a cabeça se eu ficasse em segundo".
Armstrong, sempre espirituoso, respondeu-lhe ainda durante a corrida:
"Boogie, eu sei que não és estúpido... mas podes pagar-me em julho", numa clara alusão à Volta a França que viria a dominar anos mais tarde.
Desde então, a Amstel Gold Race tem mantido o seu lugar especial no calendário neerlandês. Em 2019, Mathieu van der Poel voltou a dar ao país um momento icónico com a sua vitória dramática, numa edição que muitos consideram uma das mais emocionantes da última década.
Este ano, a expectativa é igualmente alta. Com nomes como Tadej Pogacar, Wout van Aert, Remco Evenepoel e Tom Pidcock na linha de partida, tudo indica que a edição de 2025 poderá voltar a oferecer um desfecho para a história - à altura daquele inesquecível duelo entre Boogerd e Armstrong.
Miguel Marques é editor e redator do CiclismoAtual, onde cobre o ciclismo profissional internacional com forte foco em análise competitiva, estratégia de corrida e o calendário do UCI WorldTour. Desde que se juntou à plataforma em novembro de 2024, escreveu milhares de artigos, contribuindo com antevisões diárias das corridas, resumos pós-etapa, análises táticas e análises aprofundadas das equipas e ciclistas do pelotão profissional.
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Miguel é licenciado em Ciência e Tecnologia Animal e está atualmente a concluir um mestrado em Engenharia Zootécnica. A sua formação académica em metodologia científica e análise crítica influencia uma abordagem estruturada e baseada em evidências ao jornalismo desportivo, com forte ênfase na verificação de fontes e precisão factual.
O seu envolvimento com o ciclismo começou em 2014, durante a vitória de Vincenzo Nibali no Tour de France, o que despertou um interesse sustentado e profundo pelo desporto. Desde então, tem acompanhado de perto a evolução das equipas, dos ciclistas e dos desenvolvimentos táticos nas competições do WorldTour e de nível de desenvolvimento, construindo uma experiência consistente na dinâmica do ciclismo profissional moderno.
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