No ciclismo de elites masculinos, falar de dor, fadiga ou lesões físicas nunca foi problema. Saúde mental é diferente. Costuma ficar subentendida, suavizada ou evitada. Por isso, o facto de
Dylan van Baarle falar abertamente sobre procurar apoio profissional em saúde mental tem um peso que vai muito além da sua própria carreira.
Van Baarle não é uma figura marginal a contar um aviso à navegação. É vencedor do
Paris-Roubaix, campeão de um Monumento e um corredor cuja reputação se construiu na resiliência e na durabilidade. Quando alguém com esse perfil fala com calma e frontalidade sobre pedir ajuda, rompe um silêncio antigo na modalidade.
Duas temporadas a tentar voltar
Numa entrevista aberta e honesta à Wieler Revue, Van Baarle refletiu sobre como as últimas duas épocas foram marcadas menos pela progressão e mais pela recuperação. Uma sucessão de quedas e preparações interrompidas deixou-o repetidamente a tentar regressar à forma, em vez de a consolidar.
O ponto de rutura chegou no início de 2025, quando partiu a clavícula no Tour Down Under. “Essa queda foi a gota de água para mim”, apontou Van Baarle. “Queria virar a página de 2024, mas começas outra vez com um contratempo. Foi um enorme choque mental para mim”.
Van Baarle venceu de forma memorável o Paris-Roubaix em 2022
O que se seguiu não foi apenas reabilitação física, mas uma incerteza crescente. “Comecei a fazer-me perguntas: a que nível vou voltar? A culpa é minha? Ainda pertenço ao pelotão? Comecei a duvidar de mim próprio”.
Quando a recuperação vira ciclo
Van Baarle explicou que essas dúvidas moldaram a sua campanha de primavera. Raramente esteve totalmente ausente, mas dificilmente foi ele próprio. “Nas duas últimas temporadas estive constantemente focado em voltar”, disse. “Tentamos entrar em forma, enquanto os outros acrescentam mais uma camada por cima. Estive sempre a correr atrás do prejuízo”.
Para um corredor cujo ponto forte assenta na endurance, no ritmo e na confiança nas longas distâncias, esse padrão foi especialmente penalizador. Reconheceu que a hesitação entrou na sua forma de correr, a par das limitações físicas.
Só mais tarde no ano, durante a Volta a Espanha, sentiu o ciclo começar a quebrar. “Só aí voltei a ter a sensação de ser o corredor que venceu Paris-Roubaix em 2022”, referiu.
Escolher ajuda profissional
Em vez de encarar essas dificuldades como algo para gerir internamente, Van Baarle tomou a decisão consciente de procurar ajuda fora do seu círculo imediato. Foi claro quanto aos limites do apoio apenas pessoal. “Ajudar alguém a livrar-se desses sentimentos e realmente tirá-lo de uma espiral negativa é simplesmente muito difícil”, afirmou.
Optou, por isso, por apoio psicológico profissional. “Encontrei alguém que me apoiou mentalmente durante esse período”, explicou Van Baarle. “Não me ajudou só em assuntos ligados à competição, mas também me deu ferramentas para o dia a dia”.
O resultado foi gradual, mas decisivo. “Graças a ele, consegui voltar a controlar a situação”, apontou Van Baarle.
Porque isto importa no ciclismo masculino
Em casa, Van Baarle encontrou compreensão por parte da sua futura esposa, Pauline Ferrand-Prevot, que conhece pressões semelhantes ao mais alto nível. Esse reconhecimento ajudou, mas não substituiu a orientação profissional.
O que torna as declarações de Van Baarle relevantes não é o dramatismo, mas a clareza. Não apresenta o apoio em saúde mental como resposta a uma crise ou medida excecional. Surge como uma decisão prática e profissional, tomada por um atleta experiente a navegar um período difícil.
Num desporto onde os homens de elite ainda raramente falam de forma tão direta sobre procurar ajuda, essa abertura já é, por si só, uma tomada de posição.