A 15.ª etapa da
Volta a Itália 2026 deixou sentimentos mistos para
Paul Magnier. O ciclista da Soudal Quick-Step recuperou a maglia ciclamino
como líder da classificação por pontos graças ao quinto lugar na chegada, mas o dia terminou com um travo amargo para um dos grandes favoritos ao triunfo.
A vitória da fuga em Milão rasgou o guião das equipas de sprinters. O pelotão nunca conseguiu anular os escapados e o esperado sprint massivo não aconteceu. Magnier, ainda atónito com o desfecho, evitou tirar conclusões apressadas logo após a etapa.
“Neste momento é difícil dizer o que correu mal”,
admitiu o francês ao Cycling Pro Net. “Sabíamos que eram ciclistas fortes, mas não esperávamos que andassem tão rápido neste circuito final”.
A incredulidade foi partilhada pelas equipas dos sprinters, que trabalharam grande parte do dia convencidas de que o desfecho estava controlado. Porém, a velocidade do grupo da frente e a dureza do circuito acabaram por deitar por terra todas as previsões.
“Todos os sprinters usaram todos os colegas para perseguir, mas, honestamente, nunca os apanhámos”, explicou Magnier.
Um circuito que semeou o caos
Para lá do resultado desportivo, o dia voltou a ser marcado por críticas ao circuito urbano de Milão. Magnier alinhou com outras vozes do pelotão ao sublinhar o perigo do traçado e a dificuldade em manter uma perseguição organizada.
O francês explicou que várias equipas sofreram problemas mecânicos durante a etapa, o que comprometeu seriamente a caça.
“Perdemos muitos colegas com problemas mecânicos”, revelou. Acrescentou que as condições do circuito tornaram especialmente difícil manter a velocidade e preservar o material.
“O circuito final foi mesmo traiçoeiro, com aquelas zonas de empedrado e as passagens de nível”, apontou. Chegou mesmo a reconhecer que o pelotão pediu a neutralização dos candidatos à geral na última volta precisamente devido aos riscos do percurso.
“Também era um pouco perigoso. Por isso é que pedimos para tirar os homens da geral na última volta”, explicou.
Magnier descreveu um dia corrido no limite, em velocidade e desgaste físico. “Foi loucamente rápido”, resumiu.
O francês quantificou esse esforço extremo e disse que a perseguição passou a ser feita no máximo muito antes da meta.
“A 60 quilómetros do fim disse para mim mesmo que ia ser muito duro”, contou. Mais tarde, a 40 quilómetros, a exigência não abrandou. “Já não estava no limite, mas continuava muito duro”.
O desgaste invisível do pelotão
Um dos pontos mais esclarecedores dos comentários de Magnier foi a descrição do esforço necessário para rodar bem colocado no circuito urbano. O sprinter explicou como, mesmo entre as posições 15 e 20, eram precisas acelerações constantes à saída de cada curva.
“Quando não pesas mais de 75 quilos, é bastante duro”, disse.
O francês tentou poupar os colegas o máximo possível, consciente de que cada turno podia ser decisivo na perseguição. Mas o desgaste acabou por apanhar todos.
“Já em 15º ou 20º tens de sprintar a cada curva”, explicou. Isso significou que até os seus lançadores estavam de rastos quando tentaram assumir a dianteira do pelotão.
“Quando os meus colegas chegaram à frente, já iam no limite. Por isso é que foi tão difícil aumentar o ritmo”, acrescentou.
Magnier detalhou ainda porque considerou o circuito perigoso. “Quando apanhas uma passagem de nível ou empedrado a 60 km/h, podes rebentar um pneu”, alertou. “Muita coisa pode acontecer”.
Referiu também a proximidade constante das barreiras e a tensão gerada num laço urbano tão técnico. “Também era um pouco perigoso com barreiras por todo o circuito”, insistiu.
Ainda assim, preferiu não atacar diretamente a organização e deixou claro que quer primeiro rever tudo com calma. “Prefiro analisar primeiro e depois reagir”, repetiu várias vezes durante a entrevista.
A maglia ciclamino e o desafio da montanha
O francês sabe, contudo, que a batalha está longe de terminada e que a terceira semana pode alterar por completo o cenário.
“Tenho de dizer que ele tem agora uma vantagem considerável porque sobe muito melhor do que eu”, admitiu, ao falar de Jonathan Narváez, um dos principais rivais pela camisola.
Magnier reconheceu que esperava alargar mais a vantagem na 15ª etapa, embora o sucesso da fuga tenha virado do avesso os planos dos homens rápidos.
“Esperava somar mais alguns pontos hoje, mas no fim não aconteceu”, lamentou.
Paul Magnier com a Maglia Ciclamino na Volta a Itália 2026
Com etapas decisivas ainda pela frente, o corredor da Soudal Quick-Step está focado em sobreviver à montanha para chegar a Roma com opções, embora, pelo caminho, possa ter de se meter em fugas para defender a liderança.
“O próximo grande objetivo é Roma”, disse. “E daqui até Roma, o mais importante será recuperar”.
Tem a certeza, porém, de que Narváez não vai abrandar. “Acho que ele também está a apontar à camisola agora”, avisou o francês, depois de ver o equatoriano discutir todos os pontos disponíveis no sprint intermédio e na meta.
“Vou ter de ficar alerta”, concluiu Magnier, após um dia tão extenuante quanto frustrante para os sprinters do Giro.