“Encontrámos a solução através do controlo motor” - Fonte interna da UAE revela como o cérebro de Tadej Pogacar supera os watts

Ciclismo
domingo, 18 janeiro 2026 a 17:00
tadejpogacar
A dominância costuma explicar-se em watts, peso, blocos de treino e talento. Mas dentro da UAE Team Emirates - XRG, uma das mudanças de performance mais importantes aconteceu num lugar bem menos visível: na forma como o cérebro dos ciclistas controla o corpo.
Essa é a imagem traçada por Michele Del Gallo, fisioterapeuta e osteopata de longa data da equipa, em entrevista aprofundada ao Bici.Pro. As suas palavras levantam o véu sobre uma revolução silenciosa na UAE, que remodelou a preparação, a forma de mover e, no fim, o rendimento quando mais importa.
Del Gallo descreve uma equipa que já não procura respostas apenas nos músculos e nos números de potência, mas em como o cérebro recruta e coordena o corpo sob pressão. “Encontrámos a solução através do controlo motor”, explicou.
A frase pode soar abstrata, mas está no centro do motivo pelo qual ciclistas como Pogacar parecem leves quando os outros quebram.

O problema não estava nas pernas

Os testes antes da época revelaram algo inesperado. Muitos corredores não empurravam de forma igual com ambas as pernas. “Graças aos testes que realizamos antes de começar a época, notámos que muitos ciclistas têm uma diferença de força entre uma perna e a outra”, observou Del Gallo. “No fundo era um problema de recrutamento: de um lado o atleta conseguia recrutar 100 por cento das fibras musculares, enquanto na outra perna recrutava menos”.
A questão não era fraqueza do músculo em si. Era o cérebro que não ativava ambos os lados da mesma forma. Esse desequilíbrio desperdiçava energia e limitava o desempenho muito antes de a fadiga chegar.
Mudou-se, por isso, o foco. Não para mais carga no ginásio ou intervalos mais duros, mas para ensinar o cérebro a enviar instruções mais eficientes.

Porque a “ativação” não é propriamente um aquecimento

Os adeptos costumam ver Pogacar e colegas a usar bandas elásticas antes das corridas. Parece um simples aquecimento. Del Gallo diz que não é nada disso. “Qual é o sentido de aquecer cinco minutos antes de uma corrida que vai durar cinco ou seis horas, onde a diferença se faz mesmo no final?”, questionou. “Em vez disso, o trabalho de controlo motor dura toda a corrida. Eles vão pedalar de forma diferente, usar menos energia e chegar em melhor situação à meta”.
Os exercícios são desenhados para alterar a forma como o cérebro ativa os músculos durante o esforço, não apenas para fazer o sangue circular. O efeito visa acompanhar o ciclista ao longo de toda a etapa.
Por isso o trabalho acontece não só nas manhãs de corrida, mas também nos estágios, nos hotéis e nos dias de descanso. Trata-se de construir novos padrões automáticos, não algo que o ciclista consiga “pensar” conscientemente a 90 rotações por minuto.

O cérebro vence o core mais forte

O ciclismo moderno fala incessantemente de força do core, que literalmente significa centro, diz respeito ao conjunto de músculos que se localizam no centro do nosso corpo e que envolvem a região abdominal, lombar e pélvica. No fundo são os músculos que permitem fazer a ligação da parte superior do nosso tronco com os nossos membros inferiores (as pernas). Deste grupo fazem parte os músculos abdominais (retos e oblíquos), musculo transverso, glúteos (menor, médio e maior), multífidos e pelvitrocantéricos..
Del Gallo é frontal sobre os seus limites. “Pode ter o core mais forte que quiser e ser número um nesses exercícios”, disse, “mas se, quando dá a ordem para empurrar o pedal, o cérebro não a executa da forma correta, ter um core tão forte é inútil”.
Os músculos não decidem quando trabalham. O cérebro decide, usando padrões construídos ao longo do tempo. Se o cérebro não integrar o core ou recrutar um lado de forma diferente, nem o corpo mais forte usa todo o seu potencial. “Não decide conscientemente quais os músculos que têm de contrair, o cérebro decide com base em padrões”, explicou Del Gallo. “Se dentro desse padrão de movimento não tiver a ativação do core, quando empurra o pedal o cérebro não o vai recrutar”.
O objetivo é tornar a ativação correta automática, não algo em que os corredores tenham de pensar quando correm à máxima velocidade.
Tadej Pogacar
Com várias Grandes Voltas, Monumentos, Campeonato do Mundo e mais, Tadej Pogacar impôs-se como o corredor dominante da sua geração

Porque a UAE parece “outro planeta”

O trabalho técnico insere-se numa mudança cultural mais ampla na UAE, que Del Gallo atribui à liderança. “Era outro planeta comparado com onde estamos agora”, valorizou, ao comparar a equipa de hoje com a que Pogacar integrou em 2019.
Aponta a influência de Mauro Gianetti e um ambiente que incentiva a iniciativa. “Dá-nos liberdade a todos, cada um na sua área, para trazer algo novo”, referiu Del Gallo. “São sempre as pessoas que fazem a diferença, e a soma do melhor de cada um, mesmo que feita de pequenas coisas, acaba por produzir a maior melhoria”.
Essa confiança também significa investimento. Quando a estrutura identifica algo que pode melhorar os ciclistas, há apoio. “Se for preciso fazer investimentos, fazem-se, não é problema”, disse Del Gallo. “O Mauro confia em nós”.

Porque isso se nota em Pogacar

Pogacar não vence por um truque mágico. Mas, num desporto decidido por margens mínimas, usar mais do corpo, com mais eficiência e durante mais tempo, conta.
Ensinar o cérebro a recrutar melhor os músculos significa desperdiçar menos energia, produzir uma saída de potência mais uniforme em cada pedalada e chegar aos quilómetros finais em melhor condição, quando as corridas se decidem.
É por isso que aquilo que parece uma simples rotina com bandas faz parte de algo bem mais profundo. Não se trata de aquecer músculos. Trata-se de reprogramar o funcionamento do corpo sob pressão.
Numa era obcecada por números, a mensagem interna da UAE é quase à moda antiga. Os maiores ganhos nem sempre estão nos ficheiros de dados ou nos pesos do ginásio.
Por vezes, a verdadeira vantagem está em ensinar o cérebro a usar o que o corpo já tem.
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