"Era e sempre foi o Sr. Adriano que pagava o adubo para a W52 ganhar" - Nuno Ribeiro

Ciclismo
sábado, 25 abril 2026 a 9:19
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O processo de doping que abalou o ciclismo português continua a revelar novos detalhes sobre o funcionamento interno da antiga W52-FC Porto, equipa que dominou durante vários anos o panorama nacional.
Numa investigação da CNN Portugal, um dos destaques recai sobre Nuno Ribeiro, antigo diretor desportivo da estrutura, cujo depoimento em tribunal traçou um retrato severo de Adriano Quintanilha, empresário e principal financiador da equipa.

Adriano Quintanilha "O ditador"

Perante os juízes, Nuno Ribeiro descreveu Quintanilha como uma figura dominante dentro da estrutura. “Conheci o Sr. Adriano nos anos 90, um homem forte, apaixonado, intenso, prepotente, mas também muito arrogante e cruel no que toca às suas vontades e desejos. É um homem de negócios até no desporto, gosta de ganhar, o que é de realçar, mas sendo digno de toda a vontade já deixa de ser quando exige a quem corre que ganhe contra tudo e contra todos, inclusive contra as suas convicções e medos”.
No mesmo depoimento, Ribeiro relatou um ambiente de forte pressão interna e acusou o empresário de recorrer ao poder financeiro para controlar a equipa. “É um homem que insulta, berra e dessa forma pensa que persuade e motiva. (…) O Sr. Adriano quando percebe a dependência das pessoas pelo dinheiro, ele mexe na coação, usa isso a seu favor. Já alguém disse neste tribunal e agora aqui repito, na W52 – FC Porto vivia-se uma ditadura na gestão, sendo o ditador o Sr. Adriano. Assumiu uma equipa que era a minha, a Vintage Podium e fê-lo pela pressão de dinheiro”.

Contrato de Joni Brandão e as tácticas da equipa

Nuno Ribeiro contou também que, com o passar do tempo, foi perdendo espaço dentro da estrutura e que Quintanilha passou a interferir diretamente na vertente desportiva. “Por exemplo, contratou o Joni Brandão (ciclista que receberia 60 mil euros/ano e que recusou falar sobre as questões do doping, mas que foi condenado igualmente no processo) e nem me questionou para isso."
"Mas também queria cada vez mais assumir as táticas das provas, as reuniões com os ciclistas, a seleção de ciclistas para cada prova. Essas funções deixaram de ser exercidas por mim e tudo porque me insurgi contra o doping junto do Sr. Adriano. E eu ouvia os discursos do Sr. Adriano sobretudo no autocarro (…), todos os que usavam doping, percebiam”.
Segundo o antigo diretor desportivo, o financiamento dessas práticas também partia do empresário. Ribeiro relatou uma alegada reunião em janeiro de 2021, na presença de Hugo Veloso e Adriano Quintanilha, versão negada por ambos, em que este último terá entregue dinheiro com um objetivo claro: “tomem lá, para os gajos ganharem”.
Nuno Ribeiro insistiu ainda que o centro de poder dentro da equipa estava concentrado numa só pessoa. “Tudo passava pelo sr. Adriano”, que gastava milhares de euros em doping (…), no seio da equipa, todos sabiam que havia doping e que o mesmo era financiado” por Adriano Quintanilha.
Também no seu depoimento, procurou afastar a ideia de que seria o líder do esquema e apresentou-se como alguém dependente financeiramente da função que exercia. “O Sr. Adriano era e é o homem do dinheiro, é o homem do poder, dos Ferrari que levava e que adorava dizer que faturava milhões de euros por ano e com isso lá nos ia intimidando a todos."

"Fui um carneiro que ia para onde ele me guiava"

"Eu era na equipa um mero diretor que recebia o salário que tanto precisava para a minha vida e para os meus filhos. Não me podem acusar neste processo que tudo passava por mim, pois nunca tive como é óbvio dinheiro para pagar o doping e os demais custos inerentes (…). Era e sempre foi o Sr. Adriano que pagava (…) o adubo para a W52 ganhar”.
Num momento mais emotivo das declarações, assumiu arrependimento pelo seu papel no caso. “Fui um carneiro que andei para onde o Sr. Adriano me guiou. Devia ter dito que não e não e não, mas escolhi, por isso sinto-me triste, arrependido e julgado por todos”.
Apesar da colaboração reconhecida em julgamento, o Tribunal de Penafiel considerou provado que Nuno Ribeiro teve intervenção central no esquema. Os juízes sublinharam a ligação direta com ciclistas, a preparação de substâncias e as orientações dadas para evitar deteção nos controlos antidopagem.
Ribeiro foi condenado à mesma pena de Adriano Quintanilha, quatro anos e nove meses de prisão. O caso W52-FC Porto permanece como um dos episódios mais graves da história recente do ciclismo português e um dos maiores abalos de credibilidade da modalidade.
Foto: W52-FCPorto
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