A questão em torno de
Tadej Pogacar já não é apenas quanto vence, mas o que ainda resta para o desafiar.
Nos dias após o
Paris-Roubaix 2026, o debate ganhou um novo tom, com o antigo sprinter francês
Arnaud Démare a oferecer uma avaliação frontal da dominância do esloveno e das motivações por detrás do seu programa de corridas cada vez mais variado.
Em declarações à RMC Sport, Démare não tentou suavizar a sua visão sobre o lugar que Pogacar ocupa atualmente no ciclismo.
“Sim, acho que Pogacar é o melhor ciclista da história. O tipo está tão aborrecido que diz para si próprio: ‘Vou correr Roubaix porque quero um desafio’. Ele precisa de se desafiar. A certa altura, aborrece-se. Vem a Roubaix sabendo que não pode ganhar”.
Roubaix como exceção, não a norma
Tadej Pogacar antes do Paris-Roubaix 2026
Esta leitura coloca o
Paris-Roubaix num papel muito específico no calendário de Pogacar. Em vez de ser um objetivo realista como as Grandes Voltas ou as Clássicas das Ardenas, torna-se algo mais próximo de um teste autoimposto. Uma corrida escolhida não porque lhe convém, mas precisamente porque não lhe convém.
As duas presenças até agora terminaram ambas em segundo lugar, incluindo outra oportunidade perdida em 2026, reforçando a ideia de que, mesmo na derrota, a exibição é excecional. Para Démare, isso só reforça o argumento. Pogacar não se limita a vencer as corridas que se lhe ajustam. Procura ativamente as que não se lhe ajustam. “O que ele está a fazer já é enorme e, a dado momento, vai riscar essa também”.
Uma dominância que redefine o Tour
Essa mesma dominância, porém, traz consequências para o próprio ciclismo.
Démare aponta especificamente à
Volta a França, onde o controlo de Pogacar pode retirar incerteza antes de esta ganhar forma. “O Tour está a começar a tornar-se difícil de ver, mas em Roubaix todos queriam perceber o que ia acontecer. Irá ganhar? É corajoso. Ele tem a vontade de ir, não tem medo”.
Não é apenas uma questão de resultados, mas de como são alcançados. A imagem descrita por Démare é a da facilidade. Um corredor capaz de deixar a corrida desenrolar-se e, depois, recuperar o controlo sem esforço aparente. “Ele sabe que lhe sai naturalmente. Na Volta a França, até deixa a fuga ir e pensamos que não vamos voltar. Então posicionas-te para atacar na subida, estás no limite, e ele está a conversar, descontraído. Aí percebes que não vais aguentar muito. Ele é simplesmente fortíssimo”.
“Quando ele está, corre-se para segundo lugar”
Para quem corre contra ele, o impacto não é abstrato.
A visão de Démare reflete uma realidade muitas vezes insinuada no pelotão, mas raramente dita de forma tão direta. Quando Pogacar está presente, as expectativas mudam. “Ele é tão forte que é forte em tudo. No sprint, foi batido por Van Aert no Paris-Roubaix. Falta-lhe a explosão de um sprinter, se é que se pode dizer que lhe falta isso…”
Mesmo essa limitação é relativa. Em voltas por etapas e provas de um dia, o alcance de Pogacar continua a ultrapassar fronteiras tradicionais, deixando cada vez menos oportunidades para os outros se imporem. “Se eu estivesse no lugar dos puncheurs e dos trepadores, seria frustrante. Eu ganhava noutras corridas, mas quando ele está, corre-se para segundo lugar”.
Uma carreira construída a reescrever limites
O que separa Pogacar, na visão de Démare, não é apenas o nível, mas a direção. “Pogacar é uma lenda e quer continuar a escrever essa lenda. Quer escrever uma história que ninguém escreveu”.
Essa ambição reconfigura até as corridas que não vence. O Paris-Roubaix, com a sua imprevisibilidade e resistência ao controlo, entra num projeto mais amplo. Não apenas somar vitórias, mas testar os limites do que é possível no ciclismo moderno.
Por agora, continua a ser uma das poucas corridas que ainda resiste. Mas, como sugere a avaliação de Démare, mesmo isso pode ser apenas temporário.