Quando a
Volta a França feminina chegar ao Reino Unido em 2027, não será apenas mais um arranque além-fronteiras. Aterrará num país que já viveu a febre do Tour, agora com a corrida feminina a partilhar o mesmo momento de grandeza.
A Volta a França Feminina arrancará em Leeds na sexta-feira, 30/07/2027, atravessará os Peninos rumo a Manchester, seguirá pelo Peak District até Sheffield e terminará com uma etapa final em Londres. É a primeira vez que a corrida feminina começa no Reino Unido e
acontece no mesmo verão do Grand Départ masculino em solo britânico.
Para
Lizzie Deignan, isso vai muito além dos mapas e das linhas de meta. Vê neste momento um potencial para redefinir quem sente que o ciclismo lhe pertence nos próximos anos.
Falando durante a apresentação do percurso, Deignan afirmou: “Correr o Tour de France Femmes avec Zwift foi um dos pontos altos da minha carreira, e ver a edição feminina ganhar força ano após ano tem sido verdadeiramente inspirador”. Olhando para 2027, acrescentou: “Saber que as corridas masculina e feminina vão começar aqui em 2027, e especialmente que as mulheres virão às minhas estradas de casa, em Yorkshire, é realmente especial”. Para Deignan, o peso real está no que vem a seguir, chamando-lhe “um momento enorme para a modalidade e uma oportunidade que vai inspirar inúmeras mulheres e raparigas a pegarem na bicicleta”.
Isto não é apenas receber uma corrida. É visibilidade. Durante anos, a Volta feminina viveu na sombra da prova masculina. Agora, ao arrancar no Reino Unido no mesmo verão, ganha um palco difícil de ignorar.
Pauline Ferrand-Prevot venceu o Tour Feminino em 2025, à frente de Demi Vollering e Katarzyna Niewiadoma
Uma corrida com ambição de crescer
Do lado da organização, o arranque britânico é apresentado como uma declaração de intenções sobre o rumo da prova feminina.
Marion Rousse, diretora da
Volta a França Feminina, expressou: “O Reino Unido teve um papel importante na história do ciclismo feminino, com campeãs como Lizzie Armitstead-Deignan”. Descreveu Leeds como “uma escolha forte, intimamente ligada a esse legado e ao entusiasmo de um público que conhece e ama o Tour”. Para Rousse, o percurso não é apenas cénico. As etapas, disse, “espelham claramente a ambição da corrida: continuar a fazer crescer o ciclismo feminino e inspirar as gerações futuras”.
Essa ambição percebe-se no desenho dos três dias. A travessia dos Peninos na primeira etapa, a passagem pelo Peak District na segunda e um dia de espetáculo em Londres dão à Volta feminina uma combinação de dureza, paisagem e exposição mediática urbana. Está construída para ter estatuto de grande prova, não de apêndice.
Política, orgulho e participação
O governo britânico também insiste que receber a Volta feminina é sobre quem se vê representado no desporto.
A ministra do Desporto, Stephanie Peacock, disse que os percursos vão “chegar a lugares onde poucos outros eventos chegam e dar às pessoas mais um motivo para se orgulharem de onde vivem”. Falou de espectadores a verem as ciclistas passarem “pelas suas vilas, pelas ruas principais e talvez mesmo à porta de casa”. Para Peacock, eventos como a Volta a França “unem comunidades, impulsionam as economias locais e inspiram mais pessoas a descobrir os benefícios do desporto”.
Mas a inspiração só conta se alcançar quem ainda não sente que o ciclismo é para si. Por isso as palavras de Deignan têm tanto peso. Ela não fala de audiências de televisão ou números de turismo. Fala de raparigas que podem ver a corrida e decidir que o ciclismo também lhes pertence.
Em 2014, o Reino Unido percebeu o que a Volta masculina pode fazer pelas multidões e pelo ambiente. Em 2027, a prova feminina terá o seu próprio momento nesse mesmo foco. Para Deignan, é por isso que isto não é apenas mais uma Grand Départ. É uma oportunidade de mudar a forma como o futuro da modalidade se desenha.