À medida que se aproxima do capítulo final de uma carreira que se prolonga há quase duas décadas no pelotão profissional,
Damiano Caruso acredita que a natureza do ciclismo mudou profundamente.
O veterano italiano, que se vai retirar no final da época, falou durante o Paris-Nice sobre a transformação que presenciou ao longo dos seus anos na modalidade. As corridas tornaram-se mais rápidas, a preparação mais precisa e as margens para vencer mais pequenas do que nunca.
Mas, para Caruso, a maior mudança é o quanto o ciclismo passou a ocupar a vida de um corredor. “Há dez anos era 70 por cento trabalho e 30 por cento diversão. Agora é 100 por cento trabalho. É só trabalho. Já não encontro qualquer elemento lúdico nisso”,
disse Caruso em declarações citadas pela TV2.Ao longo da sua carreira, o ciclismo entrou a fundo na era dos planos de treino estruturados, estágios em altitude e monitorização constante do rendimento. Os ganhos em velocidade e consistência no pelotão são evidentes, mas as exigências sobre os corredores cresceram na mesma medida.
Caruso admite que manter o mesmo nível de motivação neste ambiente torna-se mais difícil com o tempo. “Se ainda o quiseres fazer e ainda tirares prazer do teu trabalho, podes continuar. Fica cada vez mais difícil ano após ano, mas não sei se é possível evitar o burnout a certa altura. É difícil responder”.
Caruso foi importante para a vitória de Lenny Martínez na última etapa do Paris-Nice 2026
Uma nova geração sob a mesma pressão
Enquanto Caruso recua no tempo para perceber como o desporto evoluiu, os mais jovens que entram no WorldTour já navegam essas mesmas expectativas.
Entre eles está Oscar Chamberlain, da Decathlon CMA CGM Team, que fez 21 anos no início do ano e começa a construir a carreira ao mais alto nível. “É, sem dúvida, uma realidade, e é algo que se vê no WorldTour. Os ciclistas que chegam são cada vez mais novos e, acho, as carreiras acabam cada vez mais cedo”, analisou Chamberlain.
O australiano considera crucial gerir essas pressões para garantir a longevidade dos jovens profissionais que entram no pelotão. “É importante que os mais novos tenham calma e não se precipitem, porque ainda somos jovens e temos muito tempo”.
Em conjunto, as reflexões de um dos corredores mais experientes do pelotão e de um dos mais jovens evidenciam como o panorama do ciclismo profissional continua a evoluir, e como atletas de diferentes gerações estão a aprender a adaptar-se às exigências do desporto moderno.