O fim de semana de abertura das clássicas flamengas costuma trazer emoção, mas este ano trouxe também muita apreensão. Enquanto os adeptos vibraram com a aula a solo de
Mathieu van der Poel no sábado e o sprint dominador de
Matthew Brennan no domingo, o ambiente ficou ensombrado por um número chocante de quedas graves.
Os comentadores Karl Vannieuwkerke e José De Cauwer revisitaram as corridas para analisar as exibições impressionantes, as desilusões de alguns favoritos e a urgência de tornar o ciclismo mais seguro para quem rola no pelotão.
As provas, por si, ofereceram muito espetáculo. Olhando para a Kuurne - Bruxelas - Kuurne, Karl Vannieuwkerke ficou satisfeito com a natureza dinâmica da corrida. “O primeiro fim de semana duplo na Flandres está fechado. A Kuurne - Bruxelas - Kuurne foi uma corrida muito atrativa. Houve movimento o tempo todo”, disse à
Sporza.
Wellens sofreu uma fratura da clavícula após cair em Kuurne
José De Cauwer concordou com a avaliação positiva do andamento, mas assinalou também alguns corredores aquém do esperado. “Vi uma corrida forte de muitos belos corredores. Houve também desilusões, com Jonathan Milan a não ter qualquer papel na história. Lamento sobretudo por Arnaud De Lie”, afirmou De Cauwer.
Prosseguiu explicando como o surpreendeu a
exibição de De Lie, bem como o erro tático de Jasper Philipsen. “Não sei exatamente o que aconteceu, mas vimos simplesmente que ele cedeu. Depois, também vi o azar de Jasper Philipsen. Estava em bom caminho, mas não tomou a opção certa no final.”
Um pelotão nervoso e lesões graves
Contudo, a conversa rapidamente derivou para o lado negro do fim de semana. Ambos os comentadores mostraram grande preocupação com a segurança dos corredores após várias quedas pesadas.
“Se olharmos para o conjunto, a corrida esteve também muito nervosa. Há muitas quedas e muitas vítimas, com Stefan Küng a fraturar o fémur e Tim Wellens a clavícula”, observou Vannieuwkerke.
Para De Cauwer, a frequência destes acidentes está a tornar-se um problema maior para a modalidade. “Há simplesmente quedas a mais. Ontem ainda se podia dizer que foi por causa da chuva, mas o nervosismo está mesmo dentro do pelotão. De alguma forma é preciso trazer alguma calma. Honestamente, não sei como se faz isso, mas isto vai pelo caminho errado.”
Encontrar a causa raiz destas quedas é difícil. Vannieuwkerke trouxe à conversa a questão do material atualmente usado pelos corredores. “Li esta semana uma reação do pelotão de um ciclista que disse que andam em bicicletas de madeira.”
De Cauwer desenvolveu a ideia, listando vários fatores que podem distrair os corredores ou tornar as bicicletas mais difíceis de controlar em segurança. “Tornam essas bicicletas superleves. Olham para aqueles ecrãzinhos, andam com auriculares… Podemos começar a procurar todo o tipo de hipóteses, mas se houver sequer uma coisa que consigamos identificar em conjunto, então temos de agir.”
Ao pensar em soluções modernas de segurança, Vannieuwkerke sugeriu uma tecnologia específica: “Uma palavra de seis letras: airbag.”
De Cauwer confirmou que é uma opção realista, ainda que não esteja pronta para uso imediato. “Ainda não estamos nesse ponto. Está a trabalhar-se nisso e temos de estudar o assunto. A UCI está a trabalhar no tema. Vieram um pouco cedo com essa história dos airbags.”
Acrescentou que há progressos nos bastidores. “Na verdade, na UCI já vão bem mais avançados. Queriam esperar um pouco mais. Mas está a trabalhar-se nisso, e isso já é muito importante. Entretanto, o problema ainda não está resolvido.”
A olhar para as próximas corridas
Apesar das quedas, os comentadores estão curiosos para ver o que o resto da primavera vai trazer. Ainda assim, Vannieuwkerke alertou contra juízos definitivos com base apenas nestes dois primeiros dias de competição.
“Tirar conclusões após o fim de semana de abertura é sempre perigoso e muitas vezes desajustado quando fazemos as contas no fim da primavera. Ontem vimos um super-homem em cima da bicicleta, que vamos voltar a ver muitas vezes”, disse, numa referência ao domínio de Mathieu van der Poel.
De Cauwer ficou igualmente impressionado com o jovem vencedor de domingo. “E hoje assistimos ao nascimento de um talento absoluto. O Matthew Brennan já anda por aí há algum tempo, mas mostra que, neste tipo de corridas, há muito mais para dar. É promissor.”