Poucas tradições no ciclismo são tão sagradas como o sprint nos Champs-Élysées. Porém, no último verão, a
Volta a França mudou-o. Inspirados pelos Jogos Olímpicos de Paris, os organizadores trocaram o circuito tradicional por três ascensões ao empedrado de Montmartre, transformando o final num terreno para puncheurs em vez de puros velocistas.
Já não há puros sprinters?
À entrada de 2026, o consenso entre os sprinters é claro: a era do puro sprinter acabou. “Se queres ser o melhor sprinter do mundo, não precisas de ser o grandalhão porque já não há assim tantas etapas planas”, explicou
Biniam Girmay, em declarações partilhadas pela
Cycling News.
O desenho moderno das provas é hostil aos pesos-pesados de outrora. Os organizadores, ansiosos por evitar etapas de “transição” consideradas aborrecidas, inserem subidas e complexidade técnica que obrigam os sprinters a evoluir.
Jonathan Milan nota que as oportunidades estão a rarear. “Vejo talvez uma pequena mudança, no sentido de haver menos etapas totalmente planas”, admite Milan. “Na maioria das chegadas em sprint, ou há bordures, ou alguma altimetria”.
Para
Jasper Philipsen, esta viragem é ditada pela indústria do entretenimento. “Os organizadores estão a mudar os percursos porque querem torná-los mais emocionantes para o público”, analisa o belga. “[A vitória fica] aberta aos corredores mais versáteis; este tipo de traçados permite múltiplos cenários de corrida”.
Mark Cavendish foi, talvez, o último puro sprinter do pelotão
Não mudou só a montanha, mudou também o próprio sprint.
Jordi Meeus,
o último a vencer um sprint “tradicional” nos Champs-Élysées, em 2023, defende que a velocidade média mais alta alterou a mecânica do comboio. “No passado, os sprinters lançavam aos 250 a 300 metros e iam até à meta. Hoje, acho que os sprints são um pouco mais curtos”, observou Meeus.
O motivo? Aerodinâmica. Quanto mais rápido roda o pelotão, mais forte é o efeito de vácuo, penalizando quem enfrenta o vento demasiado cedo. “Podes ser o mais forte, mas se lanças no momento errado e apanhas demasiado vento demasiado cedo, ainda podes ser passado”, acrescentou Meeus.
“Hoje em dia é muito difícil antecipar porque o ritmo é altíssimo. Corredores como Pogacar ou Van der Poel têm equipas fortíssimas e gostam de corrida dura, por isso andam rápido do início ao fim, tornando muito difícil ganhar distância”.
A batalha da segurança: bastam 5 km?
Com velocidades mais altas, o risco aumenta. Um estudo do projeto SafeR da UCI concluiu que 13% das quedas em 2024 tiveram origem em tensão em pontos taticamente críticos. Em resposta, a UCI introduziu um sistema de cartão amarelo para condução perigosa e alargou a “zona de segurança” (onde quedas dão o mesmo tempo do grupo) de 3 km para 5 km em etapas planas.
Contudo,
Biniam Girmay considera que estas medidas são insuficientes e defende uma regra radical dos 10 km para neutralizar o perigo por completo.
“A regra dos 3 km, e por vezes 5 km, porque não a colocam aos 10 km da meta? Não muda nada. É plano na mesma e, na maioria das vezes, terminamos em cidade. Se tomarmos [os tempos dos corredores] aos 10 km, teremos apenas 10, nove ou oito equipas de sprint [a disputar a vitória], e assim estaremos mais seguros”.