Para corredores no meio da hierarquia do WorldTour, o timing é tudo. Contratos, funções, calendários e margem negocial dependem de quando o mercado mexe. Cristián Rodriguez percebeu, da pior forma, o que acontece quando o colapso de uma equipa congela por completo esse processo.
Rodriguez não era um ciclista sem contrato à procura de um salto. Era um trepador de 30 anos após a época mais visível da carreira, saído da sua terceira Volta a França e de um ano em que terminou como o melhor espanhol em Paris. Porém, enquanto o perfil subia, a sua posição negocial desvanecia.
O colapso da Arkea B&B Hotels deixou Rodriguez contratualmente ligado a uma equipa que já não existia, impedido de se mover livremente enquanto outras formações WorldTour fechavam os seus plantéis. Quando a situação ficou resolvida, o mercado já tinha seguido em frente.
“Foi tudo muito duro, uma incerteza total durante muitas semanas”,
disse Rodriguez ao AS. “Quando finalmente fiquei livre, o mercado já estava muito avançado e, uau… Houve bastantes problemas. Não tem sido fácil. Não desejo isto a ninguém”.
Quando o mercado avança sem ti
O desaparecimento da Arkea não foi súbito. Ambos os patrocinadores-título já tinham sinalizado a intenção de sair, e meses de negociações para garantir financiamento alternativo falharam em cumprir as garantias exigidas pela UCI. Quando o prazo de inscrição passou, o projeto deixou, na prática, de existir.
Para os corredores, as consequências foram imediatas. Enquanto equipas estáveis fechavam plantéis e planos de corrida, os ciclistas da Arkea ficaram em suspenso, impossibilitados de negociar abertamente enquanto as questões legais e contratuais se arrastavam. O que, de fora, parece uma falha administrativa, por dentro transforma-se numa ameaça à carreira.
“É uma vergonha para o ciclismo quando as equipas desaparecem, e ainda mais quando se vive isso por dentro”, atirou Rodriguez. “Bem, é mais uma experiência pela qual passei”.
Uma carreira apanhada no pior momento
O timing tornou tudo particularmente duro. Rodriguez acabara de completar mais um Tour, não a perseguir a geral, mas a reforçar o valor como trepador fiável de WorldTour. O papel estava claro, o nível comprovado e havia interesse. O que faltava era liberdade.
Em vez de escolher o passo seguinte, passou outubro à espera de clareza, vendo oportunidades fechar à medida que as equipas ocupavam as últimas vagas. Só quando o colapso da Arkea se tornou oficial pôde finalmente mexer-se, com a
XDS Astana Team a agir rápido para o contratar.
“Trouxemos uma equipa forte, mas estou aqui para ajudar”, disse Rodriguez nos primeiros dias com a formação. “Mostraram muita confiança em mim, têm bom material, e queria experimentar com eles”.
Um recomeço, mas um aviso que fica
Agora único espanhol no plantel da Astana, Rodriguez recomeça num ambiente dominado pelo inglês e pelo italiano, longe de qualquer zona de conforto. O programa de corridas reflete um papel de apoio e não de liderança, com o regresso a uma Grande Volta a manter-se como objetivo pessoal.
“Gostava de estar outra vez numa Grande Volta”, desejou. “Depois de Omã vou a duas corridas em França e, muito provavelmente, à Volta à Catalunha”.
Fisicamente, também está a reconstruir. Um problema nervoso na planta do pé obrigou-o a abandonar a última Vuelta, uma limitação que nunca reduziu a força mas aguçou menos a sensibilidade na bicicleta. “Agora é altura de ver como rendo”, acrescentou.
Para Rodriguez, o colapso da Arkea não foi apenas um capítulo infeliz, mas um aviso sobre a fragilidade do ciclismo moderno. As equipas podem desaparecer, os contratos podem evaporar e os corredores podem ficar expostos sem culpa própria. Outrora um profissional discreto, fala agora como prova de quão depressa a estabilidade se desfaz num desporto que tantas vezes se vende como seguro.