A queda de Jonas Vingegaard, esta segunda-feira, durante um treino, reacendeu um debate que há muito se adivinhava. Os profissionais treinam em estrada aberta, muitas vezes sozinhos, mesmo em estágios, mas quando é que o pedido de fotos e o engatar de roda se torna demais? É uma fronteira difícil de gerir.
Tiesj Benoot e
Greg van Avermaet pronunciaram-se sobre o tema.
“Está muito mais movimentado nos últimos anos. Em juniores, ficávamos na Bélgica e não íamos estagiar para Espanha. Agora, muitos jovens pedalam por lá”, destacou Benoot à Sporza. “Na semana passada, via-se muitos cicloturistas no
Coll de Rates que só queriam ver os pros a trabalhar ou a rolar no meio deles”. Entre dezembro e janeiro isto é constante: os profissionais viajam para a Costa Blanca para treinar e milhares de amadores e jovens seguem o mesmo caminho, também na esperança de cruzar com as grandes figuras para um momento memorável.
A proximidade entre fãs e estrelas é uma das vertentes mais elogiadas da modalidade, mas pode transformar-se num inconveniente para os atletas, sobretudo os mais mediáticos. Na maioria das vezes não causa problemas, mas Tadej Pogacar, por exemplo, deixou claro no verão passado que não queria ser incomodado em treino e usou uma camisola personalizada. E esta semana o líder da
Team Visma | Lease a Bike poderá ter caído devido a um ciclista que tentava segui-lo.
A Visma confirmou a queda do dinamarquês, mas não o contexto exato. Segundo um ciclista que o seguia, terá acontecido quando o dinamarquês tentou distanciar-se. Há que relativizar se de facto tentou isolar-se na estrada, mas o atleta amador publicou uma foto atrás de Vingegaard e partilhou a história no Strava antes da Visma atualizar o estado do vencedor da Volta a Espanha.
Onde traçar a linha? “Torna-se um problema quando esses ciclistas se metem ao nosso lado para tirar fotos ou se encaixam no grupo. Aí pode ficar perigoso. Esses cicloturistas não são tão ágeis como nós”, argumenta Benoot. “E simplesmente não é permitido. Se der para fazê-lo com respeito e segurança, não há problema. Mas é uma fronteira ténue, onde o respeito mútuo é necessário para garantir a segurança”.
Felizmente, a queda de Jonas Vingegaard não terá tido consequências de maior
Isto pode ser especialmente sensível para os mais populares, que procuram no inverno estas zonas de treino pelo sossego das estradas e já não têm esse privilégio. “Basta pedir, e poucos corredores recusam. Eu próprio não me importo, desde que essas pessoas fiquem atrás de nós. Assim não há problema”.
Van Avermaet nota a mudança
Greg van Avermaet já não é profissional, mas continua a ir frequentemente a Espanha e nota claramente a diferença face aos tempos em que estava no centro das atenções. “Muita gente foge ao inverno e marca férias de bicicleta em Espanha. É bom para eles cruzarem-se com pros famosos. Mas alguns colegas simplesmente seguem viagem se houver demasiada gente no local onde querem parar para tomar café”.
Apresenta uma comparação com o futebol para sensibilizar alguns ciclistas que se tornam disruptivos: “Se eu, como grande fã de futebol, encontrasse um jogador de topo, também teria a coragem de pedir uma foto, mas não deve tornar-se disruptivo. Não pedes para entrar no relvado com o Cristiano Ronaldo, pois não? Fazes isso antes ou depois do treino”.
Ainda assim, o antigo campeão olímpico não tem uma solução ideal. A responsabilidade costuma recair em quem segue a roda para pedir e agir corretamente, o que nem sempre acontece.
“Nunca me incomodou por aí além e, às vezes, até me ria quando passávamos por um ciclista que tentava seguir-nos na mesma. Mas, se estás a treinar num grupo de oito, por exemplo, eu não o faria. O que gosto é que as pessoas perguntem simplesmente se podem rolar connosco. Alguns corredores não se importam, outros sim. É só perguntar”.
“Se acontecer uma vez, aceita-se. Mas esses rapazes são reconhecidos em todo o lado”, reconhece. “Talvez seja preciso algum tipo de regulamentação, ou o carro do diretor desportivo, se houver, ter de seguir e avisar essas pessoas para não se juntarem”.