No velódromo de Roubaix, quando a
Team Visma | Lease a Bike,
Wout van Aert apontou ao céu na linha, o gesto teve um peso que ia muito além da vitória. Foi por Michael Goolaerts.
Goolaerts tinha apenas 23 anos quando alinhou na sua primeira
Paris-Roubaix em 2018, pela Vérandas Willems-Crelan. A sua corrida terminou no segundo setor de empedrado, após uma queda violenta. Dentro do carro da equipa, percebeu-se de imediato que algo estava terrivelmente errado. Foi levado para o hospital em paragem cardíaca.
Van Aert, então seu colega de equipa, seguiu para terminar em 13º numa edição vencida por Peter Sagan, mas o resultado mal contou. O choque desse dia marcou o pelotão, e sobretudo os que estavam mais próximos de Goolaerts.
Oito anos depois, a promessa feita no rescaldo fechou finalmente o círculo. A vitória de Van Aert em Roubaix foi mais do que um triunfo num Monumento, foi uma dedicação. #AllForGoodie.
“Penso muitas vezes nele e nesse dia. Arrepiei-me quando passei no memorial dele. Os meus pais vão lá todos os anos colocar flores”.
Entre os que assistiam estavam Staf e Marianne, os pais de Goolaerts. A vitória e as palavras de Van Aert tocaram fundo.
“É avassalador”, disse Staf à
Sporza. “Desde a morte do Michael, normalmente não vejo ciclismo. Dói demasiado, sobretudo porque estas eram as corridas dele. Tento manter alguma distância”.
Por acaso, apanhou o final na rádio. “Tinha acabado de voltar de visitar a minha mãe e ouvi que o Wout tinha hipótese de ganhar. Fiquei na entrada de casa a ouvir. Ouvi a primeira entrevista dele, as lágrimas já lá estavam”.
Lá dentro, a mulher via na televisão. Juntos, voltaram a ouvir. “Maravilhoso”, descreveu.
O facto de Goolaerts continuar tão presente no pensamento de Van Aert, e entre os antigos colegas, continua a comover a família.
“Ainda mando mensagens a alguns dos rapazes de vez em quando, incluindo ao Wout. Ele responde sempre em minutos. Mas não quero incomodá-lo nem confrontá-lo com a nossa dor. Correr com esse peso…”
A promessa de Van Aert nunca esmoreceu, mesmo com o azar a intervir repetidamente.
“Ele dizia sempre que ganharia Roubaix pelo Michael. Depois de tantos contratempos, furos, quedas, começámos a perder a esperança. E depois o Tadej Pogacar também aponta à corrida… não é fácil batê-lo. Mas desta vez, tudo encaixou”.
Para Staf, houve a sensação de algo mais. “Não somos supersticiosos, mas pareceu que o Michael seguia ao lado do Wout”.
A vitória será agora assinalada de forma profundamente pessoal. Van Aert planeia levar flores, um gesto com significado especial.
“Terão lugar de honra ao lado da urna do Michael”, disse Staf, com um sorriso. “É em forma de paralelepípedo de empedrado. E no que teria sido o seu 30º aniversário, o Wout também veio cá com flores. É sempre bem-vindo”.
Na esteira do triunfo, as memórias de Goolaerts voltaram a emergir, algo que os pais veem como doloroso e precioso.
“É pesado, mas também bonito que as pessoas ainda se lembrem dele. Há tantas vidas jovens perdidas que são rapidamente esquecidas… Parte-nos o coração quando o Antoine Demoitié não é mencionado na Gent-Wevelgem. Somos afortunados por ainda se falar do Michael. Ainda mais agora”.
E se Goolaerts pudesse ter falado neste dia?
“Sei o que diria ao Wout”, indicou Staf, com a voz embargada. “Mercikes. A todos, obrigado”.