Como todos os anos, chega a altura de perceber que vários profissionais de referência desaparecem do pelotão. Nesse sentido, o inverno de 2025 teve um tom profundamente nostálgico, com o vencedor do Tour de 2018 Geraint Thomas, o vencedor da Milan-Sanremo 2014 e da Volta à Flandres 2015 Alexander Kristoff, o campeão do mundo de 2013 Rui Costa e muitos outros a despedirem-se do ciclismo. A esta lista juntou-se, já tardiamente,
Simon Clarke, que escreveu o último capítulo em casa, no bloco de arranque da temporada na Austrália.
“Nunca fui aquele miúdo de 16 anos que ganhava tudo e, sim, tive alguns bons resultados, mas nunca fui o tipo de que toda a gente falava como o próximo talento, ou, sabem, o homem a ter debaixo de olho. E está tudo bem”, clareou Clarke ao
Cyclingnews antes da sua última partida profissional na Cadel Evans Great Ocean Road Race. “Tens é de acreditar em ti e fazer o que consideras certo para alcançar os objetivos que vais traçando pelo caminho”.
O caminho até ao WorldTour raramente é linear e, para os australianos, isso vale por dez. A estrada de Clarke incluiu ultrapassar muitos obstáculos, incluindo o súbito desaparecimento da sua primeira equipa europeia, a Amica Chips - Knauf. Acabaria por estrear-se no WorldTour com a Astana em 2011.
“Baixei a cabeça e mantive-me firme, e orgulho-me do que alcancei com essa mentalidade”, disse o homem que viria a vencer três etapas de Grandes Voltas. “Sempre estive muito focado em como lá chegar, sabendo que se chega lá ao ir marcando as pequenas caixas, […] e percebi que a forma mais simples de atingir um objetivo final é não pensar no objetivo final, mas sim em todas as pequenas coisas pelo caminho. Foi isso que fiz toda a carreira, desde os 16 anos até agora”.
Apenas um arrependimento
Simon Clarke, arrasado após o sonho de finalmente vencer uma etapa da Volta a Itália se esvair a 300 m da meta em 2023
Apesar de, pelos padrões atuais, se ter estreado tardiamente como profissional, aos 24 anos, o trabalho, a resiliência e a determinação de Clarke foram recompensados com uma carreira plena de 15 anos ao mais alto nível. Nesse período, ergueu os braços sete vezes, incluindo três triunfos em etapas de grandes voltas, conquistou a camisola da montanha na Volta a Espanha 2012 e foi segundo na Amstel Gold Race em 2019.
O único arrependimento é não ter vencido uma etapa na Volta a Itália para completar o “tríptico” das Grandes Voltas, mas o australiano sai satisfeito com o que alcançou.
“Faço 40 anos este ano. Sinto que espremei a toalha até à última, por assim dizer. Não saio a sentir que fui empurrado, ou que já não tenho nível, ou o que seja. Estou grato por tudo o que consegui, pronto para iniciar um novo capítulo, e feliz por o fazer nos meus termos e numa corrida em casa”.
Planos para o futuro
Clarke está longe de desaparecer do ciclismo. O experiente capitão de estrada continuará ligado ao atual empregador, a
NSN Cycling Team, onde trabalhará nos bastidores na vertente técnica da competição.
“Vou continuar a trabalhar com a equipa, envolvido na otimização de material e aerodinâmica, e estou muito motivado com isso”, afirmou Clarke. “Já o tenho feito, em certa medida, no último ano, por isso sei ao que vou, e não vou acordar na segunda-feira a pensar: ‘Certo. E agora, como é a vida?’ Estou ansioso por começar”.