No passado fim de semana, o Velódromo Nacional de Sangalhos, em Anadia, voltou a ser o epicentro da pista portuguesa, com dois dias intensos de competição no Troféu Internacional de Pista Artur Lopes, evento que também integrou a 1.ª prova da Taça de Portugal de Pista. Entre elites, sub-23 e juniores, passaram por Sangalhos 94 ciclistas de 17 países, num programa que somou 34 corridas e deu ao público um raro alinhamento de nomes internacionais, atletas em fase de desenvolvimento e, sobretudo, o reencontro mais simbólico da época:
Iúri Leitão e Rui Oliveira lado a lado, pela primeira vez desde que se sagraram
campeões olímpicos em Paris, novamente na disciplina que os levou ao topo, o madison.
A presença dos campeões olímpicos elevou o tom mediático do fim de semana e também a exigência competitiva. Mas o que ficou, para lá do impacto nas bancadas, foi a resposta em pista: domínio técnico, leitura apurada das corridas e uma superioridade clara nas provas da elite masculina, onde Leitão e Oliveira dividiram vitórias e protagonismo, antes de assinarem juntos o ponto alto de sábado.
Sexta-feira com assinatura portuguesa: scratch e corrida por pontos
O primeiro dia começou com o scratch da elite masculina e a história, aí, foi contada com a frieza de quem conhece cada metro do anel de Sangalhos. Iúri Leitão controlou o posicionamento, não se expôs ao desgaste inútil e apareceu no momento certo para vencer, com
Rui Oliveira em segundo e o britânico Charlie Tanfield a completar o pódio.
Horas mais tarde, na corrida por pontos, a ordem inverteu-se.
Rui Oliveira mostrou a habitual inteligência para gerir a acumulação de esforços, somou nos sprints certos, manteve-se sempre perto das movimentações decisivas e garantiu a vitória, à frente de Iúri Leitão e de Diogo Narciso (Credibom-LA Alumínios-Marcos Car), num pódio com forte selo nacional.
No setor feminino, o pelotão internacional impôs qualidade e ritmo. No scratch da elite feminina, a norte-americana Lily Williams (Human Powered Health) foi a mais forte, batendo as polacas Wiktoria Pikulik e Daria Pikulik. Na corrida por pontos, Wiktoria Pikulik assumiu o comando da disciplina, com Daria em segundo e Williams em terceiro, numa demonstração de consistência competitiva das irmãs polacas ao longo do fim de semana. A melhor portuguesa em ambos os exercícios foi Daniela Campos, 5.ª no scratch e 4.ª na corrida por pontos, sempre próxima das atletas mais experientes.
A sexta-feira também abriu palco aos sub-23, que competiram no scratch. Em masculinos, vitória para Nejc Peterlin (Eslovénia), seguido do compatriota Maj Flajs e de Mateo Duque (Atom 6-Cycleur D). Em femininos, Maja Tracka (Mat Atom Deweloper) venceu à frente da colega Martyna Szczesna, com Eliza Rabazynska (seleção polaca) no terceiro lugar.
Nas provas de juniores, já com pontos para a Taça de Portugal de Pista, Nolan Babayou (Urt Velo 64) começou a desenhar um fim de semana quase perfeito: venceu o scratch, com Ege Erulku (Türkiye) em segundo e João Silva (Paredes / Reconco) em terceiro. Na corrida por pontos, Babayou repetiu o primeiro lugar, desta vez acompanhado no pódio pelos colegas Clement Zaia e Louca Maisonneuve.
Do lado das juniores, a equipa Atum General/Tavira/Madre Fruta apresentou um bloco competitivo muito sólido. No scratch, Bruna Carmo venceu, com Laura Simões (Korpo Activo/Penacova) em segundo e Eva Emídio em terceiro. Já na corrida por pontos, Eva Emídio foi a mais forte, à frente de Juliana Teixeira e de Bruna Carmo, deixando desde logo a sensação de que o segundo dia poderia ser de confirmação.
Sábado de emoções fortes: eliminação e o regresso “dourado” ao madison
O sábado trouxe as disciplinas mais exigentes em tomada de decisão e coordenação, e foi aí que a presença de Iúri Leitão e
Rui Oliveira ganhou um peso especial. Primeiro, na eliminação da elite masculina, assistiu-se a um duelo português no último sprint: Iúri Leitão bateu Rui Oliveira e venceu, com o esloveno Bor Ebner a fechar o pódio.
Depois chegou o momento aguardado, o madison da elite masculina. Leitão e Oliveira voltaram a alinhar juntos, mais de 500 dias depois do ouro olímpico, num reencontro carregado de simbolismo e marcado por um equipamento especial, em tons dourados, como assinalaram várias entidades e meios presentes. Em pista, a abordagem foi de controlo total: leitura das entradas e saídas, agressividade nos momentos de pontuação e gestão perfeita do esforço para evitar surpresas. No final, vitória para a dupla campeã olímpica, com 89 pontos, numa prestação que combinou pontos de sprint e ganhos em voltas de avanço.
A segunda posição foi para Miguel Salgueiro e Diogo Narciso, também da Seleção Nacional, e o terceiro lugar para o duo João Matias e Matias Malmberg, numa prova que reforçou a profundidade da pista portuguesa no setor masculino, mesmo quando o foco mediático está inevitavelmente nos nomes maiores.
No final, as declarações dos protagonistas ajudaram a enquadrar o que se viu no anel. Iúri Leitão abriu a porta ao desejo de voltarem a competir juntos com mais regularidade: “Por nós corríamos todas as semanas juntos. Não está ainda previsto o nosso regresso, mas da nossa vontade assim que possível.”
Rui Oliveira sublinhou a componente de espetáculo e a ligação ao público: “Toda a gente gostou do espetáculo que demos.”
A leitura mais longa do momento também ficou expressa noutras reações recolhidas no evento, com Leitão a descrever a sensação de voltar a competir em Portugal, “onde nos preparamos para todas as provas”, e Oliveira a valorizar o peso emocional de correr “nesta casa”, perante família e amigos, com bancadas cheias. O próprio Artur Lopes, figura homenageada pela competição, destacou o orgulho de ver o seu nome associado a uma prova que sempre defendeu e que tem produzido campeões para Portugal.
Rui Oliveira e Iuri Leitão a caminho do Ouro nos Jogos Olimpicos de Paris
Femininos com forte marca internacional e portuguesas em bom plano
No setor feminino, o sábado confirmou um equilíbrio maior entre seleções e estruturas internacionais. Na eliminação da elite feminina, Lily Williams venceu, à frente de Olga Wankiewicz, com Patrycja Lorkowska a completar o pódio. Daniela Campos voltou a ser a melhor portuguesa, terminando no quinto lugar e mostrando consistência num fim de semana com nível muito elevado.
No madison da elite feminina, as irmãs Wiktoria e Daria Pikulik saíram por cima, vencendo a disciplina, à frente do duo Lily Williams e Nienke Veenhoven, com Maja Tracka e Olga Wankiewicz no terceiro posto. Beatriz Roxo e Daniela Campos foram a melhor dupla portuguesa, fechando a corrida na quinta posição.
Sub-23 e juniores: vitórias turcas, irlandesas e um “triplete” português no feminino
Nas provas sub-23 de sábado, Ramazan Yilmaz venceu a eliminação masculina, seguido de Emre Kaplan, com Nejc Peterlin em terceiro. Em femininos, Aoife Obrien venceu à frente de Martyna Szczesna, com Esther Wong no terceiro lugar.
Nos juniores, a competição teve um peso especial por contar para a Taça de Portugal de Pista e deixou sinais claros do que pode marcar o primeiro trimestre da época. Na eliminação masculina, Nolan Babayou voltou a vencer, com Rodrigo Abreu em segundo e Clement Zaia em terceiro. Na perseguição individual, Ege Erulku impôs-se, batendo Louca Maisonneuve na luta pelo ouro, enquanto Babayou ganhou o duelo pelo bronze frente a João Silva. No quilómetro contrarrelógio, João Silva conseguiu uma vitória muito apertada sobre Erulku, por apenas 0,127 segundos, com Clement Zaia a fechar o pódio.
Entre as juniores, Eva Emídio assinou um sábado perfeito e dominou todas as disciplinas em disputa. Venceu a eliminação, à frente de Bruna Carmo e Laura Simões, ganhou a perseguição individual com autoridade, chegando a dar uma volta de avanço a Bruna Carmo na final, e fechou o dia com triunfo no quilómetro, batendo Juliana Teixeira e Bruna Carmo. Um bloco, novamente, com forte presença da Atum General/Tavira/Madre Fruta, mas com Emídio a destacar-se como a figura maior da categoria no fim de semana.
Resultados principais
Na elite masculina: scratch, Iúri Leitão,
Rui Oliveira, Charlie Tanfield; corrida por pontos, Rui Oliveira, Iúri Leitão, Diogo Narciso; eliminação, Iúri Leitão, Rui Oliveira, Bor Ebner; madison, Iúri Leitão e Rui Oliveira, Miguel Salgueiro e Diogo Narciso, João Matias e Matias Malmberg.
Na elite feminina: scratch, Lily Williams, Wiktoria Pikulik, Daria Pikulik; corrida por pontos, Wiktoria Pikulik, Daria Pikulik, Lily Williams; eliminação, Lily Williams, Olga Wankiewicz, Patrycja Lorkowska; madison, Wiktoria Pikulik e Daria Pikulik, Lily Williams e Nienke Veenhoven, Maja Tracka e Olga Wankiewicz.
Sub-23: scratch masculino, Nejc Peterlin, Maj Flajs, Mateo Duque; scratch feminino, Maja Tracka, Martyna Szczesna, Eliza Rabazynska; eliminação masculina, Ramazan Yilmaz, Emre Kaplan, Nejc Peterlin; eliminação feminina, Aoife Obrien, Martyna Szczesna, Esther Wong.
Juniores masculinos: scratch, Nolan Babayou, Ege Erulku, João Silva; corrida por pontos, Nolan Babayou, Clement Zaia, Louca Maisonneuve; eliminação, Nolan Babayou, Rodrigo Abreu, Clement Zaia; perseguição individual, Ege Erulku, Louca Maisonneuve, Nolan Babayou; quilómetro, João Silva, Ege Erulku, Clement Zaia.
Juniores femininas: scratch, Bruna Carmo, Laura Simões, Eva Emídio; corrida por pontos, Eva Emídio, Juliana Teixeira, Bruna Carmo; eliminação, Eva Emídio, Bruna Carmo, Laura Simões; perseguição individual, Eva Emídio, Bruna Carmo, Laura Simões; quilómetro, Eva Emídio, Juliana Teixeira, Bruna Carmo.
Com os
Campeonatos Nacionais de Pista já no horizonte imediato, Sangalhos cumpriu aquilo que, muitas vezes, só a pista consegue oferecer: um fim de semana de competição pura, onde a técnica tem de andar de mãos dadas com a cabeça, onde cada sprint é uma decisão e onde, por vezes, o desporto também sabe contar histórias, como a do regresso de Iúri Leitão e
Rui Oliveira ao mesmo anel, ao mesmo público, e à mesma disciplina que os transformou em campeões olímpicos.
Créditos foto principal: Federação Portuguesa de Ciclismo