Egan Bernal tentou, numa primeira fase,
deixar as pernas falar por si na Volta aos Alpes. Um aceno discreto aqui, um gesto cansado ali, o colombiano evitou alimentar a narrativa que crescia à sua volta. Mas, ao final da semana, as exibições já diziam mais do que qualquer palavra.
Nas grandes montanhas, Bernal surgiu composto, criterioso e cada vez mais competitivo. Depois de guiar Thymen Arensman a um bom resultado a meio da semana, confirmou com um pódio numa etapa e, sobretudo, um segundo lugar na geral atrás de Giulio Pellizzari. Não foi vitória, mas soou a marco importante.
A última etapa contou a história mais clara. Bernal não conseguiu seguir Pellizzari nas rampas decisivas, mas foi, sem dúvida, o mais forte entre os perseguidores, venceu o sprint em Bolzano e confirmou que a forma está a subir no momento certo antes da Volta a Itália.
“Sinceramente, não tinha expectativas, por isso estava preparado para tudo, fosse para ficar no gruppetto ou para lutar pela geral”, disse Bernal à
Domestique.
A cautela percebe-se. A época de 2026 já o obrigou a recomeçar mais do que uma vez. Depois de um início promissor na Colômbia, onde defendeu o título nacional, o regresso à Europa foi interrompido por um problema no joelho que varreu um bloco-chave de corridas. Seguiram-se três semanas sem bicicleta e, com elas, dúvidas.
Em vez de procurar forma em competição, Bernal voltou a casa. Em altitude, nos terrenos familiares de Cundinamarca, reconstruiu-se em silêncio. É um padrão que marcou boa parte da carreira, sobretudo desde o terrível acidente de 2022.
Nessa altura, o futuro no pelotão chegou a estar em causa. As lesões foram severas, até potencialmente fatais, e o caminho de volta ao pelotão estava longe de garantido. Quando regressou, os resultados foram, no melhor dos casos, modestos. As Grandes Voltas passaram sem impacto e as expectativas baixaram gradualmente.
Mas Bernal nunca abandonou a visão a longo prazo.
“Sou profissional há 10 ou 11 anos e aprendi que é preciso confiar no processo”, explicou. “Passei por lesões graves e longos períodos de azar, e uma corrida, seja má ou boa, não muda a preparação para o grande objetivo. Mesmo antes da época começar, o foco era o Giro e continua a ser”.
Há sinais de progresso. Em 2025, regressou ao Giro com ambição, deixando lampejos do antigo Bernal, sobretudo no sterrato, antes de fechar no top 10. Mais tarde, conquistou uma emotiva vitória de etapa na Volta a Espanha, o primeiro triunfo fora da Colômbia desde o sucesso no Giro de 2021.
Ainda assim, a pergunta persiste. Pode realmente voltar ao nível que o fez vencedor de uma Grande Volta?
O próprio Bernal mantém a medida.
“Significa que estou bem, mas o Giro é algo diferente”, considerou após a etapa final nos Alpes. “Dá-me alguma confiança, mas o Giro é o Giro. São duas corridas diferentes”.
Esse realismo é partilhado no pelotão. Quem o viu sofrer de perto entende a dimensão do regresso e a dureza do desafio que se segue.
“Com aquela queda não arriscou apenas a carreira, arriscou a possibilidade de ter uma vida normal”, entende Matteo Tosatto. “Por isso, voltar e fazer o que tem feito já é incrível. Se conseguir ainda mais, só posso ficar feliz por ele”.
Na
Ineos Grenadiers, a abordagem ao Giro será pragmática. Bernal dividirá a liderança com Arensman, dando à equipa flexibilidade tática perante um favorito aparentemente dominante em Jonas Vingegaard.
Internamente, acredita-se que esta dupla liderança pode ser uma força, sobretudo numa corrida que tantas vezes recompensa o oportunismo tanto quanto a pura capacidade de escalar.
Bernal, porém, foca-se em algo mais simples.
“Acho que estou melhor do que nesta altura no ano passado, mas o Giro é uma corrida diferente”, sustentou. “O importante é estar bem na última semana do Giro”.
Essa última semana definirá a sua corrida e, talvez, também o enredo do regresso. Cinco anos depois do triunfo no Giro e quatro anos após uma queda que quase terminou tudo, Bernal aproxima-se de novo da partida com otimismo cauteloso.
Se isso chegará para desafiar Vingegaard, continua por provar. Mas a trajetória é nítida e, para já, talvez seja essa a vitória mais relevante.