A Trek pagou mais de 300 000 dólares nos últimos anos para colmatar lacunas nos prémios para as suas ciclistas, intervindo em corridas onde os pagamentos continuam substancialmente inferiores aos do pelotão masculino.
Entre 2021 e 2025, o fabricante norte-americano contribuiu com cerca de 308 000 dólares em complementos para a equipa
Lidl-Trek, cobrindo a diferença em provas onde as recompensas financeiras não igualavam as disponíveis nas corridas masculinas equivalentes.
Diferenças nos prémios ainda visíveis em 2026
Essas disparidades continuam claras em 2026. Na
Liege-Bastogne-Liege Feminina, o valor total de prémios ficou ligeiramente acima dos 22 000 €, contra 50 000 € na corrida masculina realizada no mesmo dia.
A nível individual, a diferença é igualmente marcada. Um sexto lugar na corrida feminina rendeu cerca de 400 € em prémios oficiais, contra aproximadamente 1500 € para a mesma posição no evento masculino. Nesse cenário, a Trek intervém para cobrir o défice, acrescentando cerca de 1100 €.
No contexto mais amplo das Clássicas da Primavera, estes números evidenciam a dimensão do fosso. No masculino, os principais corredores somaram valores de cinco dígitos no mesmo bloco de provas, com Tadej Pogacar a aproximar-se dos 100 000 € apenas em prémios na primavera, e tanto Mathieu van der Poel como Wout van Aert a acumularem também totais substanciais.
“Ninguém quer saber”: Burke sobre a origem da abordagem da Trek
Em declarações à Fortune, o CEO da Trek, John Burke, explicou a lógica por detrás da iniciativa. “Uma das coisas que fazemos enquanto empresa de bicicletas é tentar fazer a diferença no mundo”, afirmou.
Recordou também as condições que encontrou quando a equipa estava a ser montada, após uma visita a corridas europeias. “Disse: ‘Estive agora na Europa e é embaraçoso. A maioria das mulheres ganha menos de 10 000 dólares por ano. Andam com bicicletas em segunda mão. Ficam em hotéis manhosos. Voam na véspera da corrida. Ninguém quer saber’”.
Construir uma equipa em pé de igualdade
Desde o início, a Trek quis oferecer às ciclistas um apoio comparável ao dos homens. “Dissemos que íamos tratar as mulheres da mesma forma que os homens são tratados”, afirmou Burke. “Vamos pagar salários dignos, dar o melhor equipamento, garantir grande treino. Vamos cuidar delas tão bem como cuidamos dos homens”.
Lizzie Deignan, que se juntou à equipa estando grávida apesar de ser então número um do mundo, destacou o impacto dessa abordagem. “Ser profissional em todos os sentidos é transformador em termos de rendimento”, destacou. “Não há maneira de alguém que acumula todas as tarefas extra de um segundo emprego conseguir render ao nível de quem está a tempo inteiro”.
Acrescentou: “Senti-me incrivelmente grata à Trek pela oportunidade de integrar a equipa, porque quando anunciei que estava grávida, não sabia qual seria o meu futuro na modalidade. Apesar de ser número um do mundo na altura, não tinha uma equipa segura”.
A ícone britânica Lizzie Deignan é uma das atletas a sentir a disparidade financeira
Um fosso que continua a moldar a modalidade
Apesar dos progressos dos últimos anos, o fosso financeiro entre provas comparáveis continua evidente. O total de prémios mantêm diferenças significativas entre eventos masculinos e femininos, deixando a equipas e patrocinadores parte do esforço para colmatar a distância.
“A coisa mais importante que fazemos é dar o exemplo”, disse Burke. “O impacto da Trek no
ciclismo feminino não é só a equipa Trek. São todas as equipas que viram o que a Trek estava a fazer e implementaram grandes mudanças”.
“Demasiada gente está focada no curto prazo e no que recebe”, acrescentou. “Fazer o bem constrói uma marca ao longo de muito tempo”.
Os números das Clássicas da Primavera mostram que houve evolução, mas também que o fosso que a Trek se propôs enfrentar ainda não foi fechado.